Antes de se tornar o sonetista conhecido pela obra erótica e satírica, Glauco Mattoso foi um editor independente. O Jornal Dobrabil nasceu em 1977, datilografado pelo próprio autor, e circulou até 1981 como um fanzine poético-panfletário enviado pelo correio a leitores escolhidos a dedo. O nome era um trocadilho com o do Jornal do Brasil, e o formato dobrável dos folhetos satíricos fazia parte da piada.
A edição em livro publicada pela Iluminuras em 2001 reúne essa produção em 128 páginas e permite entender por que o fanzine é tratado como marco da poesia marginal brasileira: ele mistura poesia concreta, poesia visual, referências ao rock, alusões a filósofos ocidentais e gírias da contracultura underground.
O que torna o Jornal Dobrabil um documento
O fanzine registra um momento em que a poesia brasileira circulava fora das livrarias, em cópias mimeografadas e correspondências. Cada número funcionava como carta e como intervenção: parodiava o jornalismo, comentava política e escandalizava leitores conservadores. A lista de destinatários incluía nomes como Caetano Veloso, Tom Jobim, Antônio Houaiss e Augusto de Campos, o que ajudou a transformar o fanzine em objeto de culto e, depois, em fonte para pesquisadores da imprensa alternativa.
Para quem a reedição faz sentido
A leitura interessa a quem estuda a poesia marginal e a imprensa alternativa do período da ditadura militar, a quem coleciona edições de artistas visuais e a quem quer conhecer a raiz do humor glauquiano. Não se trata de uma antologia convencional de poemas: é um documento fac-similar, com a textura gráfica e as experimentações visuais que o autor abandonaria depois de perder a visão. Por isso, funciona melhor como porta de entrada histórica do que como resumo da obra.
Como ler em conjunto com a obra posterior
Quem começa pelo Jornal Dobrabil costuma seguir para os livros de sonetos, onde a verve satírica ganha métrica e rima. A reedição também ajuda a perceber continuidades: a sátira política, a crítica de costumes e a mistura de erudição com cultura popular que aparecem nos títulos posteriores já estavam ali, em estado bruto.
O que a edição de 2001 preserva
A reedição fac-similar mantém a diagramação artesanal, as colagens e a tipografia improvisada dos folhetos originais, agora em 128 páginas. Isso importa porque boa parte do efeito do Jornal Dobrabil vinha do meio: o papel dobrado, a máquina de escrever e a distribuição pelo correio faziam parte da mensagem. Ao reunir os números em livro, a Iluminuras transformou uma publicação efêmera em fonte consultável.
Lido hoje, o fanzine ajuda a entender por que Glauco Mattoso é tratado como elo entre a poesia marginal dos anos 1970 e a geração que renovou o soneto nas décadas seguintes. A mesma voz que parodiava o noticiário nos folhetos reaparece, anos depois, em poemas de métrica rígida e humor ácido.
A edição está disponível em livro pela Iluminuras e costuma aparecer em sebos e livrarias online.





