Glauco Mattoso é o pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, poeta e ensaísta paulistano que fez da perda da visão um método de escrita: cego desde 1995, apoiou-se na métrica e na rima para memorizar os próprios versos e se tornou um dos sonetistas mais inventivos da literatura brasileira. Antes disso, já circulava como agitador da poesia marginal, autor do fanzine Jornal Dobrabil e nome de uma obra que mistura sátira política, erotismo, escatologia e crítica de costumes.
Quem procura Glauco Mattoso costuma chegar por caminhos diferentes: um soneto obsceno lido em antologia, uma citação na canção “Língua”, de Caetano Veloso, um livro esgotado encontrado em sebo ou uma entrevista sobre poesia e deficiência visual. Em comum, esses leitores encontram uma trajetória de cinco décadas que recusa a separação entre erudição e cultura popular.
Quem é Glauco Mattoso
Nascido em São Paulo, em 29 de junho de 1951, Pedro José Ferreira da Silva adotou o pseudônimo que é um trocadilho com “glaucomatoso”, o termo médico para quem sofre de glaucoma, doença que o levou à cegueira total. O nome também homenageia Gregório de Matos, poeta barroco de quem se declara herdeiro na sátira política e na crítica de costumes. Ele mesmo se define como “anarquista intelectual”.
Cursou biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Letras na USP. Essa formação dupla ajuda a entender a obra: há nela o rigor de quem organiza e classifica palavras e o desvio permanente de quem desconfia da autoridade dos gêneros. Violência, discriminação, fetiche, política e desejo aparecem em livros que a crítica costuma associar à linhagem dos “poetas malditos”, rótulo que ele assumiu e depois reformulou, aos 73 anos, como “pós-maldito”.
Do Jornal Dobrabil à poesia marginal
No fim dos anos 1970, Glauco Mattoso participou do grupo dos poetas marginais, que faziam circular poemas fora do mercado editorial, em mimeógrafos, panfletos e publicações independentes. O projeto mais conhecido dessa fase é o Jornal Dobrabil, fanzine poético-panfletário que ele começou a datilografar em 1977 e cujo nome parodiava o do Jornal do Brasil. As edições chegavam pelo correio a uma lista que incluía nomes como Caetano Veloso, Tom Jobim, Antônio Houaiss e Augusto de Campos.
Na mesma época, colaborou com o tabloide gay Lampião e com o humorístico O Pasquim, além de publicar em revistas alternativas do movimento Poesia Pornô, fundado pelo artista visual Eduardo Kac. Dessa cena saiu o “Manifesto obsoneto”, soneto obsceno de versos de onze sílabas que se tornaria uma das portas de entrada para sua poesia.
Nos anos 1980, assinou a coluna “Banana Purgativa” na revista Chiclete com Banana e publicou em títulos como Tralha, Mil Perigos, Status e Around, além de ensaios e críticas no Jornal da Tarde. Foi também nessa década que Caetano Veloso o citou na canção “Língua”, do álbum Velô (1984), ao lado de Arrigo Barnabé e Scarlet Moon de Chevalier.
A cegueira e a reinvenção pelo soneto
Glauco tinha miopia severa desde a infância e enxergava apenas com o olho esquerdo. O glaucoma agravou o quadro até a perda completa da visão, em 1995, quando ele tinha 44 anos. O período interrompeu a carreira literária e o afastou da criação visual — história em quadrinhos e poesia concreta —, mas o reencontro com a escrita veio por um caminho tecnológico: o Dosvox, programa de computador desenvolvido na UFRJ que transforma texto em áudio.
Sem enxergar, passou a escrever para memorizar. A métrica e a rima deixaram de ser apenas escolha estética e viraram recurso de leitura, o que explica a centralidade do soneto em sua produção a partir dos anos 2000. Nesse período, assinou com o professor e tradutor Jorge Schwartz a tradução de Fervor de Buenos Aires, obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que rendeu aos dois o Prêmio Jabuti.
Prêmios, música e circulação
O reconhecimento público se ampliou em 2014, com a publicação de Sacola de Feira (nVersos), coletânea de sonetilhos que ganhou o Prêmio Oceanos de 2015. A obra também circula pela música: o álbum Melopéia (2011) reúne versões de cantores como Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção para sonetos seus, e o poema “O preguicista” foi musicado pela banda Inocentes.
Os livros que ajudam a entender a obra
Cinco títulos publicados em décadas diferentes mostram como a escrita de Glauco Mattoso se move entre o documento histórico, o trabalho de linguagem e a provocação:
- Jornal Dobrabil — a reedição em livro do fanzine que o apresentou à cena marginal.
- Dicionarinho do Palavrão & Correlatos — o dicionário com mais de 4 mil palavras e expressões da linguagem vulgar.
- Manual do Podólatra Amador — mistura de autobiografia e antologia da literatura erótica.
- Poesia Vaginal: Cem Sonnettos Sacanas — cem sonetos sobre os temas do pornô clássico.
- Cem Novidades: Dissonnettos Anthologicos — sonetos recentes contra a caretice na forma fixa.
Glauco Mattoso hoje
Depois de anunciar que abandonava a aposentadoria literária com e-books, no início dos anos 2020, ele seguiu publicando: em 2023 lançou Porca Miseria e, em 2025, Amorosissimamente (Clóe), livro de poemas amorosos e transgressores. No mesmo ano, participou n’A Feira do Livro, em São Paulo, da mesa “Alexandrinos heroicos” ao lado do poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, com quem discutiu como os dois subvertem o soneto com humor e obscenidade. A conversa virou o episódio 190 do podcast 451 MHz, lançado em 2026.
Perguntas frequentes sobre Glauco Mattoso
Glauco Mattoso é o nome verdadeiro?
Não. Glauco Mattoso é o pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, escolhido a partir do termo “glaucomatoso” e inspirado no poeta barroco Gregório de Matos.
Glauco Mattoso é cego?
Sim. Ele perdeu a visão completamente por volta de 1995, em consequência de um glaucoma que já vinha comprometendo sua visão desde a infância, e passou a contar com recursos de áudio e com a memorização para continuar escrevendo.
Por onde começar a ler Glauco Mattoso?
Para uma visão de conjunto, Poesia Digesta: 1974-2004 reúne três décadas de poemas. Quem prefere entrar pela produção marginal pode começar pelo Jornal Dobrabil; quem se interessa pela fase de sonetos encontra em Poesia Vaginal e Cem Novidades o tom erótico e satírico que o tornou conhecido.






