Meu passado me perdoa é o livro em que Aguinaldo Silva trata a própria vida como quem monta um folhetim: abre no Recife de 1957, atravessa redação, prisão, Lapa e horário nobre, e chega à velhice de um autor que já viu o país inteiro repetir o nome das vilãs que inventou.
Publicado em 10 de julho de 2024 pela editora Todavia, o volume tem cerca de 400 páginas. Não é ficha de carreira nem coletânea de entrevistas. É memória em primeira pessoa, com a prosa de quem passou décadas calibrando capítulo, gancho e personagem — agora aplicada a si mesmo.
Do que o livro trata
A abertura pública da obra é uma cena de colégio no Recife: a eleição da Rainha da Primavera no Colégio Americano Batista, em 1957, quando o garoto pobre, “esquisito e efeminado”, vira alvo da galhofa e da violência dos colegas. Dali o relato sobe para a vocação literária, o jornalismo policial, a edição de O Lampião da Esquina e a consolidação como novelista da Globo.
Há blocos sobre a vida no Recife dos anos 1950 e 1960, a chegada ao Rio, as redações, a prisão depois do prefácio ao diário de Che Guevara, e o miolo que o leitor de novela mais espera: Roque Santeiro, Vale Tudo, Tieta, A Indomada, Senhora do Destino. O autor revisita escolhas de elenco — como a Nazaré que ele imaginava com outro nome e que Renata Sorrah transformou em tipo nacional — sem transformar o livro em acerto de contas com colegas.
Para quem faz sentido
- Quem cresceu com as novelas das oito e quer a voz do autor, não só o resumo enciclopédico
- Leitores de memória, jornalismo e cultura brasileira do século XX
- Quem estuda teledramaturgia, vilãs, adaptação de Jorge Amado ou o horário nobre da Globo
- Quem já leu Turno da noite e quer o arco completo, da rua ao estúdio
O que este volume faz que a biografia jornalística não faz
Matérias e verbetes listam títulos e prêmios. Meu passado me perdoa devolve o tom: o menino de Carpina e Recife, o repórter que perguntava como não amanheceu “com a boca cheia de formigas”, o preso que mandou recado à editora de dentro da Ilha das Flores, o profissional que escrevia de domingo a domingo com medo de adoecer no meio da novela. A Todavia posiciona o livro no circuito de não ficção literária; o leitor encontra uma edição comercial em português, em edição impressa e digital, sem precisar tratar o volume como catálogo de DVD de novela.
Há limites honestos. Quem quiser só bastidor de capítulo a capítulo pode achar a primeira metade — Recife, família, cena gay da capital pernambucana — mais longa do que o miolo da Globo. O próprio Aguinaldo privilegia o que considera origem da invenção, não o making of completo de cada trama. O livro também não substitui assistir Senhora do Destino ou Império: ele explica de onde veio o olhar, não resume a novela.
Como se relaciona com a carreira pública
Até 2024, a figura pública de Aguinaldo circulava sobretudo em entrevistas, no Memória Globo e nas reprises das tramas. As memórias da Todavia viram a porta de entrada mais densa para quem chega agora, inclusive depois da volta com Três Graças. É o volume a indicar quando a pergunta não for “qual novela assistir primeiro”, e sim “quem é esse autor, de verdade, fora do recado de divulgação”.
Para presentear ou montar estante de teledramaturgia brasileira, funciona ao lado de biografias de diretores e autores da mesma geração. A leitura aguenta sozinha. O complemento natural, se o interesse for o jornalismo policial que antecedeu a TV, é Turno da noite, de 2016.


