Aguinaldo Silva não chegou à televisão brasileira como um autor formado para o horário nobre. Chegou como pernambucano de Carpina que, ainda adolescente, já tinha romance publicado e, pouco depois, já sabia o que era redação de jornal, rua, golpe e cadeia. Quem procura o nome dele hoje quer o homem por trás de Roque Santeiro, Tieta, Senhora do Destino, Fina Estampa e Império — e encontra um escritor que passou a vida transformando o que viu em folhetim.
Em 2025, depois de uma pausa e de um desligamento da TV Globo no começo da década, ele voltou às 21 horas com Três Graças. A volta reabre a pergunta que acompanha a carreira inteira: como um datilógrafo de cartório, repórter policial e editor de um jornal gay pioneiro virou um dos novelistas mais reconhecíveis da teledramaturgia brasileira.
Quem é Aguinaldo Silva
Aguinaldo Ferreira da Silva nasceu em 7 de junho de 1943 em Carpina, no interior de Pernambuco, filho de Maria do Carmo Ferreira da Silva e Joaquim Ferreira. A infância foi no interior; por volta dos dez anos a família mudou-se para o Recife, para que o menino estudasse em colégios que o pai — trabalhador de posto de gasolina, com pouca escolaridade formal — insistia em pagar. Ainda adolescente, o próprio Aguinaldo passou a trabalhar de dia e estudar à noite, pagando a escola com o salário de datilógrafo de cartório.
O que o diferencia de um perfil raso de “autor de novela” é a ordem dos ofícios. Antes da Globo, ele já era romancista publicado e jornalista de rua. A teledramaturgia veio como desdobramento de um olhar treinado na reportagem policial, no noticiário político e na observação de tipos que depois reapareceriam, disfarçados, em vilãs, bicheiros, matriarcas e cidades inventadas.
Quem busca a biografia costuma querer três coisas ao mesmo tempo: a lista das novelas que pararam o país, o caminho do Recife ao Rio e o método — de onde saem Griselda, Nazaré Tedesco, Maria do Carmo, a cidade de Greenville. A resposta curta é que o método nasceu fora do estúdio.
O primeiro livro e a redação
Aguinaldo conta que escrevia desde menino, sozinho, depois de ganhar acesso à biblioteca de uma vizinha no bairro dos Aflitos, no Recife. Comprou máquina de escrever com o primeiro salário. O romance Redenção para Job saiu em 1961 pela Editora do Autor, o selo associado a Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. O jovem autor mandou originais com uma carta atrevida; Sabino foi ao Recife assinar o contrato. O lançamento no Rio, na Livraria Eldorado, em Copacabana, reuniu nomes da literatura da época — ele chegou a ser apresentado a Clarice Lispector na escada da livraria.
Em 1962, entrou no Última Hora Nordeste, jornal de Samuel Wainer implantado no Recife. Cobriu campanha, sertão, redação. Com o golpe de 1964, a sucursal foi invadida e depredada; jornalistas do jornal passaram a ser perseguidos. Aguinaldo ficou escondido num convento de beneditinos em Olinda e, em seguida, partiu para o Rio de Janeiro. Trabalhou no Última Hora carioca, passou pelo Jornal do Brasil e, em novembro de 1968, foi admitido em O Globo como copidesque. Quatro dias depois, desapareceu da redação: tinha sido preso.
A prisão, O Lampião e o caminho até a TV
Em 1969, no recrudescimento depois do AI-5, Aguinaldo foi preso pelo Cenimar. A origem da perseguição, segundo o próprio relato público, foi o prefácio que escreveu para uma edição brasileira do diário de Che Guevara, intitulado “A guerrilha não acabou”. Ficou cerca de 70 dias detido, boa parte incomunicável, na Ilha das Flores. Foi solto em fevereiro de 1970 e voltou a O Globo. A cena da prisão reapareceria, deslocada, na abertura de Senhora do Destino: Maria do Carmo chega ao Rio no dia do AI-5 e é levada embora.
Na década de 1970, já conhecido como repórter policial, editou O Lampião (também lembrado como Lampião da Esquina), tabloide pioneiro da imprensa gay no Brasil, lançado em 1977. Em 1978–1979, Daniel Filho o convocou para o seriado Plantão de Polícia, sobre o repórter Waldomiro Pena, vivido por Hugo Carvana. A Globo queria o olhar de quem tinha andado no mundo cão; Aguinaldo trouxe a bagagem da reportagem, não a de um novelista de gabinete.
Daí saíram episódios de Malu Mulher e, em 1982, a minissérie Lampião e Maria Bonita, escrita com Doc Comparato — primeira minissérie da Globo, trabalho que lhes valeu o Troféu APCA. Seguiram-se Bandidos da Falange e Padre Cícero. A estreia em novela das oito veio em 1984, com Partido Alto, ao lado de Glória Perez: os dois foram chamados à sala de Boni e saíram com a tarefa de escrever o horário nobre sem ainda se entenderem como novelistas.
Novelas que o Brasil ainda cita
O salto definitivo veio com Roque Santeiro (1985). A trama, originalmente de Dias Gomes e barrada pela censura em 1975, foi retomada com Aguinaldo a partir dos capítulos já escritos. O resultado virou um dos maiores fenômenos de audiência da Globo. Depois, ele colaborou em Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga e Leonor Bassères, e assumiu Tieta (1989), adaptação de Jorge Amado com Betty Faria — novela em que, segundo o próprio autor, ele finalmente se deu conta de que gostava daquele ofício.
Na década de 1990, o regionalismo e o realismo fantástico viraram marca: Pedra sobre Pedra (1992), Fera Ferida (1993) e A Indomada (1997), esta última ambientada na fictícia Greenville, cidade nordestina com sotaque inglês, onde Eva Wilma fez a vilã Altiva. Senhora do Destino (2004) é a novela que o autor mais estima: Maria do Carmo, interpretada por Susana Vieira, nasceu da mãe dele, que se chamava Maria do Carmo; Nazaré Tedesco, com Renata Sorrah, virou uma das antagonistas mais duradouras da TV brasileira, inclusive fora da tela, em memes. Fina Estampa (2011) deu a Lilia Cabral a peoa Griselda, inspirada numa portuguesa de Santa Teresa. Império (2014), com Alexandre Nero, levou o Emmy Internacional de melhor telenovela em 2015. Aguinaldo também figura como supervisor da portuguesa Laços de Sangue, igualmente premiada no Emmy.
- Roque Santeiro (1985) — retomada com Dias Gomes de uma história que a ditadura tinha barrado
- Tieta (1989) — folhetim a partir de Jorge Amado, com Betty Faria
- A Indomada (1997) — Greenville, humor, fantástico e vilã inesquecível
- Senhora do Destino (2004) — Maria do Carmo, Nazaré Tedesco e o Rio depois do AI-5
- Fina Estampa (2011) e Império (2014) — Griselda, o homem de preto e o Emmy
Houve também quedas públicas. Suave Veneno (1999) foi recebida como recuo. O Sétimo Guardião (2018) tentou o realismo fantástico de novo e não repetiu o ciclo de sucessos; em janeiro de 2020, o contrato com a Globo não foi renovado. Em 2024 a emissora aprovou a sinopse de Três Graças; em 2025 o autor voltou ao horário das 21 horas.
Estilo: vilã que faz rir, Nordeste e o fantástico
Aguinaldo descreve a novela como uma grande fofoca de rua: o segredo é fazer o telespectador morar naquela calçada. O humor, para ele, não é enfeite — é a válvula que impede o drama de virar pedra. O “bom vilão”, na fórmula que ele defende em entrevistas ao Memória Globo, é canastrão: faz rir, arma a cilada e leva a pior, no espírito de Tom e Jerry. Por isso Nazaré, Altiva e Tereza Cristina funcionam como tipos, não como monólitos de maldade.
Outra chave é o Nordeste filtrado pela invenção. Greenville, Santana do Agreste, o São Francisco visto de uma janela em Belém do São Francisco: o regionalismo dele não é folclore de cartão-postal. É memória deslocada. A cena da mulher banhando um bebê no rio, vista numa viagem de campanha com Miguel Arraes em 1962, voltou décadas depois em Senhora do Destino. Griselda saiu de Antonieta, viúva portuguesa que andava com maleta e macacão em Santa Teresa. A fantasia — o delegado que cai num buraco e aparece no Japão, a vilã que vira fumaça — entra aos poucos, para o absurdo parecer consequência, não truque.
Livros, Lisboa e por que o nome ainda é buscado
Paralelo à TV, Aguinaldo nunca parou de publicar. Títulos como República dos Assassinos (depois filme), O Homem que Comprou o Rio e Lábios que Beijei circulam na literatura brasileira de reportagem e margem. Em 2016, a Objetiva lançou Turno da noite, memórias do ex-repórter de polícia. Em 2024, a Todavia publicou Meu passado me perdoa, o volume em que ele organiza a vida novelesca — Recife, Lapa, redação, Globo — em primeira pessoa.
Pernambucano de nascimento, obteve cidadania portuguesa e passou a viver entre o Brasil e Lisboa. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural na condição de comendador. Continua ativo no Instagram e no Facebook oficiais, e o perfil institucional no Memória Globo reúne depoimentos e a filmografia na emissora.
Quem pesquisa Aguinaldo Silva raramente quer só uma ficha de cargos. Quer entender por que certas vilãs não envelheceram, por que o Recife e o Rio de 1968 ainda habitam o horário nobre, e o que um autor de 80 e tantos anos ainda tem a dizer quando volta à Globo. A biografia útil é esta: um escritor que treinou o olho no crime da primeira página e, a partir daí, fabricou cidades, mães, bicheiros e inimigas que o país inteiro passou a tratar pelo nome do personagem, não do ator.



