Contexto e proposta de Muchacha
Muchacha parte de um cenário improvável: os bastidores de uma série de televisão de aventura dos anos 1950 e o enlouquecimento de um de seus protagonistas. Publicado em 2010 pela Quadrinhos na Cia, selo da Companhia das Letras, o livro é ao mesmo tempo homenagem e reinvenção dos antigos programas televisivos de aventura.
Laerte constrói a narrativa como quem revisita um arquivo afetivo da televisão brasileira: cenários de estúdio, heróis de capa e espada, o making of de uma atração que existe entre a ficção e o delírio de quem a interpreta. A história acompanha esse universo em quadros que alternam ação, humor e estranhamento.
A parceria com Rafael Coutinho
Um dos atrativos do volume é a colaboração entre gerações: ao final do livro, oito páginas do personagem Capitão Tigre são ilustradas por Rafael Coutinho, cartunista e filho de Laerte. A troca de traços entre os dois dá ao livro uma camada extra para quem acompanha a produção de quadrinhos brasileira contemporânea.
Lançado depois de décadas de tiras diárias, Muchacha mostra Laerte em outro ritmo narrativo, com arcos mais longos e um pé na memória da cultura pop do país. São 96 páginas que funcionam tanto como leitura independente quanto como porta de entrada para quem só conhece o trabalho dela pelas tiras de jornal.
Por que ler Muchacha
Quem busca uma história sobre os bastidores da televisão brasileira encontra aqui uma versão literária e fantasiosa do tema. Quem procura um quadrinho de Laerte fora do formato da tira encontra a demonstração de que a cartunista também domina a narrativa longa. E quem se interessa pela relação entre humor e melancolia, duas marcas registradas do seu trabalho, vê os dois elementos convivendo na mesma página.
Uma graphic novel sobre a era de ouro da televisão
O interesse de Laerte pela televisão não é casual: a cartunista escreveu para programas de sucesso da TV brasileira e, mais tarde, dedicaria um livro inteiro de memórias ao assunto, em Laertevisão. Em Muchacha, esse repertório aparece transformado em ficção, com uma trama que só poderia existir no universo de quem passou décadas observando estúdios, roteiros e bastidores.
Para o leitor acostumado às tiras diárias, o livro demonstra como a cartunista trabalha quando tem espaço para desenvolver arcos longos. Publicado em 2010, ocupa um lugar importante na bibliografia dela: é uma das raras incursões em narrativa longa e registra, ao mesmo tempo, o encontro artístico com Rafael Coutinho, hoje um dos nomes centrais da nova geração de quadrinistas brasileiros.





