Mulheres empilhadas, romance de 2019 pela LeYa, é o primeiro livro de Patrícia Melo com protagonista mulher. Depois de uma carreira construída em torno de homens violentos — Máiquel, o Reizinho, narradores perturbados —, ela vira o corpo da narrativa para o feminicídio no Brasil e escreve uma ficção com os dois pés fincados em crimes reais.
Uma jovem advogada paulistana, cujo nome não é revelado, sai de um relacionamento abusivo e aceita passar uma temporada no Acre para acompanhar um mutirão de julgamentos de mulheres assassinadas — na maior parte das vezes por maridos, namorados, pais, tios. A viagem também empurra a protagonista contra a memória que ela tenta silenciar: quando criança, viu o pai matar a mãe.
Do que trata o livro
A estrutura tem três movimentos. Na primeira parte, cada capítulo abre com um crime real, relatos cuja brutalidade justifica o título: uma pilha de corpos. Na segunda, a história da advogada se adensa. Na terceira, o tom onírico convoca uma sociedade imaginária de icamiabas, mulheres indígenas que caçam os homens que saíram ilesos da Justiça. O procedimento mistura dossiê, romance e fábula de vingança sem transformar o livro num manifesto que dispensa literatura.
A gênese foi diferente da rotina usual da autora, que costuma pesquisar sozinha durante anos. Morando na Suíça, ela trabalhou com a jornalista Emily Sasson Cohen, enviada ao Acre — em especial a Cruzeiro do Sul — como olhos e ouvidos de campo. Em entrevista a O Globo, Patrícia Melo citou a feminista Diana Russell e o “terror sexista”: o Brasil figurava então entre os países com as piores taxas de feminicídio, e o Acre aparecia com frequência no topo das estatísticas regionais.
Para quem é indicado
- Quem busca o romance contemporâneo mais discutido da autora, sobre violência contra a mulher
- Leitoras e leitores de ficção com pesquisa de casos reais, sem abrir mão da fabulação
- Quem chegou a Patrícia Melo pelo Provoca, pelo Salão do Livro de Paris ou pelo prêmio francês de 2024
- Quem já conhece O Matador e quer a guinada do masculino para o feminino
Recepção e circulação
O lançamento, em novembro de 2019, coincidiu com os 25 anos de carreira literária. A autora veio ao Brasil para eventos no Rio, em Belo Horizonte, Salvador e São Paulo, com debates que reuniram nomes como a juíza Andréa Pachá e a atriz Camila Morgado. Tatiana Salem Levy, no Valor Econômico, descreveu uma guinada que não põe em questão a qualidade do que veio antes, mas mostra uma escritora que se deixa tocar pelo próprio tempo. O Buzzfeed listou o livro entre os dez melhores nacionais da década.
Os direitos saíram para Alemanha (Unionsverlag), Itália (Bompiani), França (Actes Sud) e Estados Unidos (Restless Books, como The Simple Art of Killing a Woman). Em 2024, a tradução francesa Celles qu'on tue venceu o Grand Prix de l'Héroïne Madame Figaro. A circulação internacional confirma o que o título brasileiro já anunciava: o livro não é só um caso de catálogo local. É a obra em que Patrícia Melo encontrou uma protagonista mulher e uma matéria — o assassinato sistemático de mulheres — que a pesquisa de campo tornou impossível tratar só como metáfora.
Por que este romance importa na estante dela
Quem conhece só Máiquel pode achar que a autora escreve “livros de homem violento”. Mulheres empilhadas não apaga essa fase: responde a ela. A violência continua, mas o ponto de vista muda, a pesquisa muda, a raiva muda. É o volume certo para quem pergunta se a ficção urbana brasileira ainda tem o que dizer sobre o país depois do ciclo dos matadores de periferia dos anos 1990.
A edição em português da LeYa é a referência de leitura. A página vinculada a este projeto está em Mulheres empilhadas.




