Patrícia Melo passou décadas sendo chamada de escritora de romance policial — e recusando o rótulo. Nos livros dela quase nunca há detetive, enigma clássico ou o prazer de descobrir o assassino. O que há é o Brasil urbano da década de 1990 em diante, com a violência já instalada no cotidiano, no vocabulário e no humor.
Nascida em Assis, no interior de São Paulo, em 1962, ela estreou em 1994 com Acqua Toffana e, no ano seguinte, publicou O Matador, o romance que a colocou no mapa internacional e depois virou o filme O Homem do Ano. Ganhou o Prêmio Jabuti por Inferno e, mais tarde, deslocou o olhar do matador de periferia para o feminicídio em Mulheres empilhadas e para a vida nas ruas em Menos que Um. Mora em Lugano, na Suíça.
Quem é Patrícia Melo
Patrícia Melo Neschling é escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. Caçula de seis irmãos — pai dentista, mãe professora de história —, saiu do interior para a capital em 1978. Ingressou na Faculdade de Letras da PUC de São Paulo aos 18 anos e, aos 21, trancou o curso para trabalhar com roteiro.
A carreira pública dela não começa na estante: começa na televisão. Nos anos 1980 passou pela Rede Globo, em projetos educativos e no núcleo de teledramaturgia de Walter George Durst. Depois assinou, com Carlos Nascibeni, a minissérie histórica Colônia Cecília (1989), da Band. A convite de Walter Avancini, mudou-se para Lisboa e roteirizou a telenovela A Banqueira do Povo (1993), da RTP. Foi ainda em Lisboa que o primeiro livro deixou de ser argumento de série e virou literatura.
Quem busca o nome hoje encontra uma autora de ficção urbana com catálogo publicado no Brasil pela Companhia das Letras, Rocco e LeYa, traduzido em vários países, e com passagem regular por feiras, entrevistas e prêmios na Europa. O Instagram profissional é @meloneschling.
Da teledramaturgia à literatura
Acqua Toffana (1994) saiu pela Companhia das Letras como duas narrativas longas entrelaçadas — um tratado sobre o medo, outro sobre o ódio, no dizer da própria autora. O título remete ao veneno associado a Giulia Tofana, usado no século XVII por mulheres que queriam se livrar de maridos violentos. A crítica da Folha de S.Paulo elogiou a adesão ao ponto de vista perturbado dos protagonistas. No ano seguinte veio o salto: O Matador.
Máiquel, jovem da periferia de São Paulo que se torna assassino profissional e ganha a simpatia de vizinhos e da polícia, virou o personagem mais associado a Patrícia Melo. O romance levou o Prix des Deux Océans, na França, e o Deutscher Krimi-Preis, na Alemanha, e foi indicado ao Prix Femina. Em 2003, Rubem Fonseca adaptou a história para o cinema com o título O Homem do Ano, dirigido por José Henrique Fonseca, com Murilo Benício e Cláudia Abreu.
O diálogo com Rubem Fonseca atravessa a carreira: ela diz ter decidido ser escritora aos 15 anos, ao ler O Caso Morel. A crítica brasileira insistiu por anos em chamá-la de discípula. Na Flip de 2010, ela rebateu: Fonseca foi pai da literatura urbana que mostrou a cidade violenta quando o país ainda lia sobretudo o regional, mas ela já tinha dicção própria. Raphael Montes escreveu o mesmo em outra chave: Patrícia Melo não é “a versão feminina” de Fonseca.
Por que ela recusa o rótulo de policial
À Folha, em 2014, afirmou que nunca se considerou escritora de romance noir. À IstoÉ, ainda na estreia, disse que usa o crime para entender a alma humana. Com exceção de Fogo-fátuo — o único livro em que há investigação criminal clássica, com a perita Azucena —, suas tramas não pedem ao leitor que descubra o culpado. O crime já está dado. O que interessa é o etos brasileiro da violência, da colonização à redemocratização, como disse à Rádio França Internacional em 2018.
Inferno (2000) mudou o procedimento: terceira pessoa, tráfico no Rio, a infância de José Luis no morro do Berimbau. A obra venceu o Jabuti de romance em 2001. A crítica britânica Mariella Frostrup, que integrou o júri do Man Booker, listou o livro entre os dez melhores lançamentos do ano no The Independent. Nelly Novaes Coelho, no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, viu ali uma Sherazade às avessas: em vez do maravilhoso, o lado terrível da aventura humana.
A prosa mistura coloquialismo, manchete, publicidade, cinema e rap. Bernardo Ajzenberg falou em escrita por flashes. Cadão Volpato descreveu a voz como alguém que não leva o leitor pela mão: empurra. Essa dicção a coloca ao lado de outras narrativas da violência dos anos 1990 — Paulo Lins, Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Luiz Ruffato — sem copiar nenhuma delas. Na literatura brasileira contemporânea, o lugar dela é o da ficção urbana que recusa tanto o policial de gabinete quanto o retrato sociológico sem fabulação.
Cinema, teatro e a virada das mulheres
No audiovisual, além de O Homem do Ano, assinou o segmento “Cachorro!” do filme Traição (1998), a partir de Nelson Rodrigues, e corroteirizou as adaptações de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, e Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca. No palco escreveu Duas Mulheres e um Cadáver (2000), com Fernanda Torres e Débora Bloch; A Caixa, monólogo para a irmã Renata Melo; O Rim, com Carolina Ferraz; e A Ordem do Mundo, com Drica Moraes e direção de Aderbal Freire-Filho. Antônio Abujamra chegou a dizer, em 1994, que ela seria um nome central da dramaturgia brasileira.
Casou-se em 2003 com o maestro John Neschling. Valsa Negra, do mesmo ano, entra nos bastidores da música clássica. Em 2009 o casal se estabeleceu em Lugano. Pela Rocco vieram Ladrão de Cadáveres (2010) — LiBeraturpreis da Feira de Frankfurt e segundo Deutscher Krimi-Preis —, o volume de contos Escrevendo no Escuro (2011), Fogo-fátuo (2014), cuja capa ela mesma pintou, e Gog Magog (2017).
A guinada explícita para o protagonismo feminino chegou em 2019, pela LeYa, com Mulheres empilhadas: uma advogada paulistana acompanha mutirões de feminicídio no Acre. Foi o primeiro romance dela com protagonista mulher, escrito depois de pesquisa de campo em Cruzeiro do Sul. A tradução francesa, Celles qu'on tue, venceu o Grand Prix de l'Héroïne Madame Figaro em 2024. Em 2022, Menos que Um montou um caleidoscópio de pessoas em situação de rua em São Paulo; a versão francesa recebeu o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, e a autora esteve no Salão do Livro de Paris.
- O Matador — a porta de entrada: Máiquel, a periferia paulistana e o filme O Homem do Ano
- Inferno — o Jabuti, o tráfico no Rio e a infância perdida no crime
- Mulheres empilhadas — feminicídio, Acre e a primeira protagonista mulher
- Menos que Um — a vida nas ruas de São Paulo e a recepção recente na França
Por onde começar a ler Patrícia Melo
Quem chega pelo filme de 2003 encontra no livro uma voz mais seca e mais cômica do que a adaptação sugere. Quem chega pela discussão contemporânea sobre violência contra a mulher encontra em Mulheres empilhadas a obra que Tatiana Salem Levy descreveu como uma guinada do masculino para o feminino, sem apagar o que veio antes. Quem quer o Jabuti, vai a Inferno. Quem quer o livro mais recente, Menos que Um.
Em 2014, ao jornal A Tarde, ela disse que a literatura é a linguagem em que sabe se movimentar: cinema e TV exigem paciência que ela já não tinha. Continua pintando, continua recusando o selo de policial e continua escrevendo sobre o que não consegue aceitar na realidade brasileira. O interesse público em Patrícia Melo não é o de uma “dama do crime” importada. É o de uma escritora que fez da violência urbana matéria literária — e, tarde na carreira, virou o corpo da narrativa para as mulheres e para quem vive abaixo da linha da visibilidade.





