Máiquel não precisa de um detetive para existir. Em O Matador, romance de 1995, Patrícia Melo entrega um jovem da periferia de São Paulo que se torna assassino profissional e, em vez de ser caçado, ganha a simpatia dos vizinhos e até da polícia. A farsa é violenta e cômica ao mesmo tempo: o crime deixa de ser exceção e vira emprego, prestígio, identidade.
Geraldo Galvão Ferraz, no Jornal da Tarde, chamou o protagonista de um Macunaíma mortífero. A Publishers Weekly, quando o livro chegou aos Estados Unidos em 1997 como The Killer, celebrou a criação de um assassino que, em certos momentos, parece estranhamente ético. Essa ambiguidade é o motor da leitura: o leitor ri, depois se pega reconhecendo a lógica social que transforma o matador em solução informal para o medo urbano.
Do que trata o livro
A trama acompanha a ascensão de Máiquel num São Paulo em que a violência já não precisa de mistério. Não há enigma a desvendar. Há um homem que mata, um entorno que aplaude e uma linguagem que mistura gíria, manchete, publicidade e humor. A escrita em primeira pessoa cola o leitor no raciocínio do personagem — flashes, falas, detalhes de ambiente — sem oferecer a distância confortável do romance policial clássico.
É o livro que consolidou a autora depois de Acqua Toffana e que a projetou na Europa. Na França recebeu o Prix des Deux Océans e indicação ao Prix Femina; na Alemanha, o Deutscher Krimi-Preis. A circulação internacional ajudou a fixar Patrícia Melo como voz da ficção urbana brasileira, mesmo quando ela insistia que não escrevia noir.
Para quem é indicado
- Quem quer o romance mais conhecido de Patrícia Melo, a porta de entrada da carreira
- Leitores de ficção urbana brasileira dos anos 1990, ao lado de Paulo Lins e Marçal Aquino
- Quem chegou pelo filme O Homem do Ano e quer a voz original da página
- Quem busca prosa rápida, coloquial e violenta, sem o protocolo do detetive
Do livro à tela
Em 2003, Rubem Fonseca — referência declarada da autora desde a adolescência — adaptou O Matador para o cinema. O longa O Homem do Ano, dirigido por José Henrique Fonseca, colocou Murilo Benício e Cláudia Abreu à frente do elenco. A mudança de título já diz alguma coisa: no filme, o matador vira “homem do ano”; no livro, o apelido ainda é mais cru. Quem lê depois de ver a adaptação encontra um tom mais seco, mais falado, menos espetáculo de crime e mais farsa social.
A continuação da saga de Máiquel veio em 2006, com Mundo Perdido. Não é o mesmo livro em outro formato: é outro romance. Quem se interessa pelo personagem pode seguir por ali, mas O Matador se sustenta sozinho como o ponto em que a carreira literária de Patrícia Melo deixou de ser promessa de roteirista e virou obra.
Por que ainda importa
Trinta anos depois, o livro continua sendo a resposta mais direta à pergunta “por onde começar”. Ele explica o mal-entendido que persegue a autora: parece policial porque há mortes, e não é policial porque a investigação nunca é o jogo. É um retrato da legitimação social da violência — o assassino como prestador de serviço, o bairro como plateia, a polícia como cúmplice afetivo.
Para quem monta uma estante de literatura brasileira contemporânea, O Matador ocupa o lugar do romance que mostrou a periferia paulistana sem piedade pedagógica e sem alívio moral. A edição em português da Companhia das Letras permanece a referência de leitura. A página vinculada a este projeto está em O Matador.




