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O avesso do niilismo

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Ensaios de Peter Pál Pelbart sobre esgotamento, niilismo e biopolítica, publicados pela n-1 edições.

O avesso do niilismo não começa por uma definição de dicionário. A pergunta que a n-1 edições coloca na abertura é outra: afinal, do que é que estamos tão esgotados hoje? Peter Pál Pelbart trata o cansaço contemporâneo como sintoma filosófico, não como conselho de rotina.

O livro saiu primeiro em 2013, pela n-1 edições. A resenha de Evando Nascimento na Folha, em novembro daquele ano, descreve um volume bilíngue, português e inglês espelhados, ligado ao fato de a editora operar então entre Brasil e Finlândia. Eram 592 páginas nessa edição de estreia. A edição que a loja da n-1 vende agora, com ISBN 978-65-86941-64-7, tem 448 páginas. O miolo mudou de formato. O problema do livro não mudou: o niilismo lido como governo da vida, e o esgotamento como o afeto mais visível desse governo.

O que o volume tenta mapear

A página da editora apresenta o livro como cartografia inacabada. Não se trata de descobrir quem fala, nem de qual lugar se fala. A frase que a casa toma de Félix Guattari é mais incômoda: o que fala através de nós. Em volta disso entram nomes que o próprio sumário distribui por capítulos, de Nietzsche a Deleuze, de Agamben a Foucault, de Beckett a Fernand Deligny.

O sumário público organiza o livro em quatro blocos. O primeiro, estados de esgotamento, passa por vida nua, criação e o inconsciente desterritorializado. O segundo, perspectivas sobre o niilismo, lê Nietzsche, o capitalismo e a potência de negação. O terceiro, políticas de dessubjetivação, conversa com Antonio Negri, Foucault e Agamben, e inclui um texto sobre o Brasil. O quarto, modos de existência, chega à companhia Ueinzz, a Deligny e à pergunta de se ainda é possível acreditar no mundo.

Uma resenha acadêmica publicada na revista E-Compós descreve a mesma arquitetura e situa o livro na relação entre niilismo e biopolítica. O diagnóstico não fica no lamento. Pelbart procura, nos pontos em que o arranjo niilista parece esgotado, contramovimentos: desejos novos, explosões coletivas, modos de viver que não cabem no produtivismo. Isso explica o subtítulo, cartografias do esgotamento. Cartografar, aqui, é nomear forças, não oferecer um mapa de autoajuda.

Para quem o livro serve

O leitor que chega pela palavra esgotamento, no sentido de burnout corporativo, vai encontrar outro vocabulário. O cansaço de que o livro fala é histórico e subjetivo ao mesmo tempo: valores que caducaram, estilos de vida capturados, uma biopolítica que administra até a sensação de impotência. Quem já leu Deleuze, Foucault ou ensaios de filosofia política reconhece o terreno. Quem não leu pode entrar pelos capítulos mais narrativos, em especial os que nascem do teatro e de Deligny, mas o livro não finge ser introdução didática.

A relação com a trajetória de Pelbart é direta. O tempo, a loucura e a biopolítica, que organizam os livros anteriores, reaparecem aqui como um diagnóstico do presente. A Ueinzz não é ilustração. Um dos capítulos se chama The Splendour of the Seas e parte da experiência da companhia. O apêndice reproduz a palestra que ele deu no lançamento da segunda edição, no Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 7 de abril de 2017.

Edição, capa e limite do que se compra

A página da n-1 descreve uma capa impressa com tinta termocrômica, que muda de cor com o toque ou o calor. Livrarias também anunciam exemplares da mesma obra sem esse verniz. Quem compra precisa olhar a ficha do exemplar, porque o efeito de capa não está em toda tiragem. O que permanece é o texto: ensaios de filosofia contemporânea, em português, assinados por Peter Pál Pelbart, na casa que ele coedita.

Há ainda ebook, em plataformas como Kobo e Storytel, com outro ISBN. Isso não cria um segundo livro. É o mesmo ensaio em outro suporte. A edição impressa ligada ao ISBN 978-65-86941-64-7 é a que a loja da editora oferece como volume físico de 448 páginas, no formato 14 por 21 centímetros.

O livro não promete saída do niilismo nem técnica de desempenho. Promete, no máximo, um deslocamento de olhar: ler o esgotamento como mapa, e não como falha individual. Para quem acompanha Pelbart, é o volume em que a filosofia da PUC-SP, a tradução de Deleuze e o teatro da Ueinzz ficam no mesmo objeto.

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