O judeu pós-judeu é um livro a quatro mãos, de Bentzi Laor e Peter Pál Pelbart, escrito no calor de 7 de outubro de 2023 e da guerra que se seguiu. A n-1 edições apresenta a obra como uma tentativa de falar de dentro de uma ruptura, sem a pose de análise fria. A pergunta que a casa repete na ficha é direta: as vítimas viraram algozes?
O subtítulo pede atenção, porque não é o mesmo em todos os registros. A Folha, na coluna de Mônica Bergamo de 18 de abril de 2024 e na resenha de Vladimir Safatle em 27 de julho de 2024, anunciou o lançamento como O judeu pós-judeu: judaicidade e etnocracia. A capa da edição agora vendida pela n-1, ISBN 978-65-6119-070-1, traz outro subtítulo impresso: judaicidade e etnocentrismo. Essa edição se declara segunda, revista e ampliada, com dois capítulos a mais: A diáspora de Israel e Por uma ética da retração. São 224 páginas na ficha atual da editora, ano de 2024.
Quem escreve e de onde
Bentzi Laor, na apresentação da editora, vive em Israel. Divide o tempo entre o setor de alta tecnologia, organizações dedicadas à situação dos palestinos em Israel e nos territórios ocupados, e grupos de estudo de filosofia. A ficha diz que ele é graduado em Engenharia e Filosofia. Pelbart, do lado brasileiro, é o professor da PUC-SP, coeditor da n-1 e coordenador da Ueinzz. Na mesma página, a editora anota uma frase dele sobre si: se pretende um judeu pós-judeu. É autodescrição, não título acadêmico.
Os dois se apresentam como amigos de décadas, um em cada continente. O texto da editora diz que a ideia nasceu de conversas remotas e que não cabia fingir isenção. Em declaração à Folha, por ocasião do lançamento, Pelbart afirmou que o livro foi escrito por dois amigos cada vez mais amargurados com a política expansionista de Israel e com posturas reacionárias de comunidades judaicas pelo mundo. A frase é dele, registrada pelo jornal. Não é um julgamento externo colado depois.
O que o livro discute
O ponto de partida narrado pela editora é duplo: o massacre praticado pelo Hamas em 7 de outubro contra civis israelenses e o que o texto chama de hecatombe lançada em seguida por Israel contra a população palestina de Gaza. A partir daí, o ensaio não quer ser crônica diária da guerra. Quer pensar o que acontece quando uma história de perseguição é capturada por um Estado e usada para justificar dominação.
A resenha de Safatle na Ilustríssima lê o livro nessa chave. O subtítulo que ele comenta, judaicidade e etnocracia, separa uma herança de exílio, sofrimento e fuga de um arranjo político que transforma essa herança em privilégio de um grupo sobre outros. O texto de Safatle liga essa leitura a uma tradição de messianismo herético e cita, como vizinhança intelectual, Michael Löwy. O livro, nesse enquadramento, interessa a quem discute identidade, trauma coletivo e os limites de transformar memória de opressão em razão de Estado.
A segunda edição torna esse recorte ainda mais explícito nos capítulos acrescentados. Por uma ética da retração, título que também nomeou um ato de lançamento na Casa do Povo, em São Paulo, em novembro de 2025, empurra o argumento para além do comentário de conjuntura. A diáspora de Israel, o outro acréscimo anunciado na capa, desloca a conversa da guerra imediata para a forma histórica do povo judeu fora de um único Estado.
Lançamento, leitor e limite
O lançamento público em São Paulo foi marcado para 23 de abril de 2024, na Biblioteca Mário de Andrade, com leituras e intervenções. A Folha registrou poemas sobre Israel e Gaza lidos pela performer Elisa Band, com violoncelo de Peri Pane, e versos de Mahmoud Darwish ditos pelo sociólogo Laymert Garcia dos Santos. Não era uma noite só de autógrafos. O formato já dizia que o livro queria circular entre filosofia, arte e debate político.
O leitor previsto não é o de manual de Oriente Médio nem o de devocionário. É quem lê ensaio político, estudos judaicos e filosofia contemporânea, e aceita um texto assumidamente situado. Pelbart não abandona, com esse livro, a biopolítica dos volumes anteriores. Troca o diagnóstico geral do esgotamento por um caso extremo, em que vida, morte e identidade nacional ficam no mesmo parágrafo. Laor entra como o amigo que escreve de dentro de Israel, não como personagem ilustrativo.
A edição à venda na loja da n-1 é a de capa que traz o subtítulo etnocentrismo e o ISBN 978-65-6119-070-1. Quem encontrar em sebo ou em resenha o subtítulo etnocracia está diante do mesmo projeto de livro, em registro anterior de título. O objeto não vira dois projetos. Continua sendo o ensaio conjunto de Laor e Pelbart sobre judaicidade depois de 2023.


