O Cheiro do Ralo chegou aos cinemas em 23 de março de 2007 e transformou o romance homônimo de Lourenço Mutarelli em um dos filmes brasileiros mais comentados daquele ano. Dirigido por Heitor Dhalia, com roteiro dele e de Marçal Aquino, o longa acompanha Lourenço (Selton Mello), dono de uma loja de penhores em São Paulo que compra objetos de pessoas em dificuldade financeira e passa a testar os limites de seus clientes.
A premissa simples esconde um estudo de personagem sobre poder, dinheiro e desprezo. Quanto mais vulnerável o cliente, maior o prazer de Lourenço em negociar por baixo. O cheiro que vem do ralo da loja funciona como lembrete físico de algo que ele não consegue controlar, e a rotina de negociações vai se convertendo em confronto com o próprio método.
O que o filme propõe
O roteiro adapta a estrutura episódica do livro para uma progressão de encontros. Cada cliente traz um objeto e uma história, e cada negociação revela uma camada do protagonista. Selton Mello construiu um personagem contido, de fala mansa e olhar calculista, que se torna mais inquietante à medida que o filme avança. O elenco inclui Sílvia Lourenço, Paula Braun, Alice Braga, Fabiana Gugli e o próprio Mutarelli, que interpreta o segurança da loja.
A direção de Dhalia combina o acabamento visual herdado da publicidade com uma São Paulo de interiores apertados e luz artificial. A fotografia e a direção de arte criam um ambiente claustrofóbico que acompanha o estado mental do protagonista, sem recorrer a explicações psicológicas explícitas.
Recepção e prêmios
O filme foi exibido no Festival do Rio 2006, onde levou o prêmio especial do júri e o prêmio da FIPRESCI, e na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde venceu o júri oficial e a crítica. Em 2007, foi selecionado para a competição World Cinema Dramatic do Sundance Film Festival e recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de melhor roteiro adaptado. Selton Mello foi premiado em festivais como o de Punta del Este.
A edição em DVD
A edição em DVD mantém o filme disponível em mídia física, com os 112 minutos da versão exibida nos cinemas. Para quem estuda adaptação literária, o disco permite comparar o ritmo do romance de Mutarelli com as escolhas de roteiro de Dhalia e Marçal Aquino, especialmente na forma como os encontros de Lourenço com os clientes foram reorganizados para a tela.
O filme ocupa uma posição curiosa na carreira do diretor: é anterior ao período em que ele passou a alternar longas e séries, mas já concentra os elementos que se repetiriam depois — o personagem em crise, o ambiente opressivo e a adaptação de obras literárias ou gráficas. A parceria com Mutarelli voltaria em Nina, com as animações, e em Tungstênio, adaptação da graphic novel de Marcelo D'Salete.



