Heitor Dhalia passou cerca de doze anos criando campanhas publicitárias antes de trocar o circuito de agências pela direção de cinema. A mudança, pouco comum no Brasil do início dos anos 2000, levou o pernambucano de Recife a filmes como Nina, O Cheiro do Ralo e À Deriva, à seleção do Festival de Cannes e, duas décadas depois, à criação de séries para Netflix e Globoplay.
Nascido em 18 de janeiro de 1970, Dhalia construiu a carreira em duas frentes que costumam se separar no mercado brasileiro: a produção publicitária, com domínio de acabamento visual, e a narrativa de ficção, com atenção a personagens em conflito. É essa combinação que explica tanto a precisão formal de seus longas quanto a facilidade com que transitou entre drama psicológico, thriller, épico histórico e documentário.
Formação, publicidade e a estreia no cinema
Antes do cinema, Dhalia cursou Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco e teve contato com teatro na adolescência. Aos 21 anos, começou a trabalhar como redator em agências do Recife. Em 1993, mudou-se para São Paulo, onde passou por DPZT, Talent, DM9 e Young & Rubicam. No período, assinou mais de uma centena de filmes publicitários e conquistou prêmios do setor — experiência que ele próprio associa ao cuidado com enquadramento, luz e ritmo em seus filmes.
A transição para o audiovisual de ficção começou em 1999. Naquele ano, foi assistente de direção de Aluízio Abranches em Um Copo de Cólera e codirigiu, com Renato Ciasca, o curta Conceição, rodado em Pernambuco. O curta venceu o prêmio de melhor diretor de curta-metragem no Miami Brazilian Film Festival e levou melhor trilha sonora em Gramado. Em 2002, voltou a trabalhar com Abranches como corroteirista de As Três Marias.
Nina, O Cheiro do Ralo e o reconhecimento internacional
A estreia na direção de longas veio em 2004, com Nina. Livremente inspirado em Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, o filme acompanha uma jovem oprimida que classifica os homens entre ordinários e extraordinários. A produção mistura animações do quadrinista Lourenço Mutarelli à fotografia de aparência atemporal e rendeu a Dhalia o prêmio de melhor diretor no New York LaCinemaFe e uma menção especial da crítica no Festival de Moscou.
O Cheiro do Ralo, lançado em 2007, consolidou o nome do diretor no circuito brasileiro. Adaptação do romance de Mutarelli, tem roteiro assinado por Dhalia e Marçal Aquino e Selton Mello no papel de Lourenço, dono de uma loja de penhores que transforma a compra de objetos alheios em jogo de poder. O longa venceu o prêmio especial do júri no Festival do Rio, os prêmios de melhor filme do júri oficial e da crítica na Mostra de São Paulo e foi selecionado para a competição World Cinema Dramatic do Sundance Film Festival de 2007.
Em 2009, À Deriva levou Dhalia à mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes. Estrelado por Vincent Cassel, Débora Bloch e Laura Neiva, o drama acompanha o fim de um casamento e o despertar sexual de uma adolescente durante férias em Búzios nos anos 1980. O filme ampliou o alcance internacional do diretor.
Hollywood, volta ao Brasil e séries de streaming
A experiência internacional continuou em 2012, com o thriller Gone, lançado no Brasil como 12 Horas e estrelado por Amanda Seyfried. O diretor relatou publicamente o desgaste de trabalhar dentro do sistema de estúdio, com menos controle criativo do que estava acostumado. O retorno ao Brasil foi marcado por Serra Pelada (2013), drama sobre a corrida do ouro no garimpo paraense, com Juliano Cazarré, Wagner Moura, Sophie Charlotte, Júlio Andrade e Matheus Nachtergaele.
O filme gerou a minissérie Serra Pelada: A Saga do Ouro, exibida pela Globo em 2014, e abriu caminho para outros formatos. Dhalia dirigiu ainda o documentário On Yoga: The Architecture of Peace (2017), inspirado no livro do fotógrafo Michael O'Neill, a adaptação da graphic novel Tungstênio (2018), de Marcelo D'Salete, e o drama Anna, lançado em 2021.
A partir de 2020, o diretor passou a atuar com mais frequência em séries. Dirigiu episódios e foi produtor executivo de Todxs Nós, da HBO, e assumiu a direção geral das duas primeiras temporadas de Arcanjo Renegado, do Globoplay, criada por José Júnior. Em 2023, criou e dirigiu DNA do Crime, a primeira série brasileira de ação policial da Netflix, que alcançou o primeiro lugar entre as séries de língua não inglesa mais vistas da plataforma. A segunda temporada estreou em junho de 2025.
Em 2024, dirigiu O Jogo que Mudou a História, também para o Globoplay e também criada por José Júnior, sobre a formação de facções criminosas no Rio de Janeiro dos anos 1970.
Paranoïd Filmes e o lado empresarial da carreira
Em 2009, Dhalia fundou com Egisto Betti a produtora Paranoïd Filmes, que atua do desenvolvimento ao lançamento em publicidade, cinema, televisão e streaming. A empresa produziu parte relevante de sua filmografia, entre longas e séries, e revelou um lado menos visível da carreira: o de sócio que estrutura projetos, capta recursos e acompanha a operação comercial. Em entrevista ao Meio & Mensagem em 2020, ele afirmou que a produtora marcou uma mudança de capítulo na carreira e que a publicidade respondia por cerca de 70% do faturamento da empresa.
Estilo de direção e parcerias recorrentes
O apuro visual é a marca mais discutida de sua obra. Dhalia se define como esteta e reconhece na publicidade a origem do cuidado com composição e acabamento. Ao mesmo tempo, seus filmes mais lembrados partem de personagens em crise e de relações de poder — o penhorista de O Cheiro do Ralo, a família em dissolução de À Deriva, a atriz diante do assédio em Anna.
Entre as influências que cita estão Stanley Kubrick, Akira Kurosawa e William Shakespeare. A recorrência de parceiros também ajuda a entender o método: Marçal Aquino em Nina e O Cheiro do Ralo, Vera Egito em À Deriva e Serra Pelada, e um grupo de atores que retorna em projetos diferentes.
Marcos de uma trajetória entre cinema, publicidade e streaming
- 1999 — codirige Conceição, curta premiado em Gramado e no Miami Brazilian Film Festival.
- 2004 — estreia na direção de longas com Nina, inspirado em Dostoiévski.
- 2007 — lança O Cheiro do Ralo, vencedor no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo e selecionado para Sundance.
- 2009 — À Deriva entra na mostra Un Certain Regard, em Cannes.
- 2013 — dirige Serra Pelada, depois adaptado para minissérie da Globo.
- 2023 — cria e dirige DNA do Crime, série da Netflix com alcance internacional.
Vistos em conjunto, esses trabalhos mostram uma carreira construída em etapas: o aprendizado técnico na publicidade, a afirmação autoral no cinema dos anos 2000, a experiência em produções de estúdio e a consolidação em séries de grande alcance. A passagem de Dhalia por formatos tão diferentes ajuda a entender como o audiovisual brasileiro profissionalizou sua produção e ampliou o espaço de diretores nacionais no streaming.




