Em 1988, Marçal Aquino passou a cobrir a editoria policial do Jornal da Tarde. O expediente de ocorrência, delegacia e página de crime não ficou na redação: reapareceu nos contos de Faroestes, na novela O invasor e numa sequência de longas feitos com o cineasta Beto Brant.
Quem procura o nome hoje raramente quer só o jornalista. Quer o autor de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, o roteirista que levou o submundo paulistano ao cinema e o escritor que, em 2021, voltou ao romance com Baixo esplendor depois de dezesseis anos sem livro inédito de ficção adulta. Nasceu em Amparo, no interior de São Paulo, em 28 de janeiro de 1958, formou-se em jornalismo e dividiu a vida pública entre redação, livro e roteiro.
Quem é Marçal Aquino
A Enciclopédia Itaú Cultural o apresenta como romancista, contista, roteirista e jornalista, e descreve a prosa pela relação estreita com a realidade: linguagem enxuta, cidades grandes, violência à vista. O percurso publicado não cabe numa prateleira só. Houve poesia no começo dos anos 1980, livros juvenis na Coleção Vaga-Lume, contos premiados e novelas que viraram filme. Na televisão, o nome aparece ao lado de Fernando Bonassi em séries da TV Globo.
O leitor que chega pelo título longo de 2005 encontra um escritor já premiado. O que chega pelo filme O invasor encontra uma história que existiu como roteiro antes de ser fechada como livro. O que chega por Carcereiros encontra o mesmo interesse por gente encurralada, agora dentro de uma série. São entradas diferentes, não três carreiras paralelas.
De Amparo à editoria policial
A infância e a adolescência foram no interior paulista. Em 1983, Aquino concluiu jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. No ano seguinte, ainda fora da capital, publicou o primeiro livro de poemas, A depilação da noiva no dia do casamento, em edição independente. Mudou-se para São Paulo em 1985 e passou a trabalhar em veículos como a Gazeta Esportiva e O Estado de S. Paulo, onde também atuou como revisor, repórter e redator.
A virada de matéria veio em 1988, na editoria policial do Jornal da Tarde. A Itaú Cultural trata esse período como influência direta do que ele escreveria depois. Por volta de 1994, na época do roteiro de Os matadores, deixou o emprego fixo e passou a trabalhar como freelancer, para ter mais tempo de literatura e de cinema.
Antes do romance houve uma sequência de livros curtos. As fomes de setembro, de 1991, recebeu o 5º Prêmio Bienal Nestlé de Literatura. No mesmo ano ele conheceu Beto Brant. Miss Danúbio, de 1994, trouxe o conto que Brant levaria ao primeiro longa. Em 1999, a Geração Editorial publicou O amor e outros objetos pontiagudos. A resenha da Folha, na semana do lançamento, contou onze narrativas de gente em trânsito, fronteira, contrabando e acerto de contas. No ano seguinte, o volume entrou entre os premiados do Jabuti na categoria Contos e Crônicas.
Houve também os poemas de Por bares nunca dantes naufragados (1985) e Abismos: modos de usar (1990), e uma linha juvenil pela Ática. A turma da Rua Quinze saiu em 1989. A Itaú Cultural nota que o suspense da prosa adulta também ronda esses livros para jovens. O elo é a narrativa de tensão, não o público.
O que a parceria com Beto Brant mudou
A dobradinha com Beto Brant, nascido em 1964, é o eixo audiovisual mais estável da carreira. A Folha já descrevia, em 1999, a colaboração nos roteiros de Os matadores e Ação entre amigos. O primeiro nasceu do conto de Miss Danúbio. O segundo partiu de uma história original de Aquino. A Companhia das Letras registra que a parceria rendeu sete longas-metragens. Nem todo filme com a assinatura dele é de Brant. O cheiro do ralo, de 2006, foi dirigido por Heitor Dhalia a partir do livro de Lourenço Mutarelli.
O invasor mostra o método dos dois. Em 1997 já existia um pedaço da novela. Brant convenceu Aquino a interromper o livro e transformar a história no roteiro do terceiro longa da dupla. O filme circulou em festivais em 2001. A Folha, em maio de 2002, registrou que a obra fora unanimidade no Festival de Brasília do ano anterior, recebera o prêmio de melhor filme latino-americano no Sundance, fora selecionada para Berlim e ganhara sete prêmios no Festival de Recife. O livro saiu na esteira dessa circulação, dedicado ao rapper Sabotage, e marcou a estreia de Paulo Miklos no cinema. A trama é a de dois sócios de uma construtora que mandam matar o terceiro para destravar um negócio sujo e descobrem que o matador não volta para a periferia depois do serviço.
Em 2002, Aquino também atuou como consultor de um laboratório de roteiros Sundance/RioFilme, a convite do Sundance Institute. O dado importa menos como credencial e mais como marca de ofício: naquele momento, o roteiro já era trabalho público, não um bico ao lado da redação.
O intervalo em que o romance esperou
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios saiu em 2005 pela Companhia das Letras. Quem narra é Cauby, fotógrafo convalescente numa cidade do Pará à beira de uma corrida do ouro. O centro da história é Lavínia, e o modo como desejo, crime e premonição se cruzam. Anos depois, Beto Brant adaptou o romance para o cinema. Em 2025, aos vinte anos do lançamento, a editora publicou nova edição com posfácio da crítica Eliane Robert Moraes e um texto do autor sobre a origem do título. Em entrevista à TV Todo Dia, ele contou que o título enfrentou oposição quase unânime antes de ir para a capa, e que muita gente comprou o livro por causa dele.
Entre esse romance e Baixo esplendor, de 2021, passaram dezesseis anos sem livro inédito de ficção adulta. Na entrevista de lançamento à Folha, Aquino disse que nunca tinha escrito tanto nesse intervalo, inclusive três romances que engavetou. Um capítulo de O grande circo humano chegou a sair na revista Bravo! em 2007. Um trecho de Como se São Paulo fosse um bom lugar entrou na coletânea São Paulo Noir, da Casa da Palavra, em 2016. Ele mesmo resumiu o abandono: falou tanto desses livros que perdeu o interesse no caminho.
O intervalo nas livrarias foi ocupado pela televisão. Com Fernando Bonassi, ele escreveu para a TV Globo Força-Tarefa, O caçador, Supermax e Carcereiros. A Folha aponta esta última como a mais recente das quatro e lembra o longa de José Eduardo Belmonte, de 2019, nascido da mesma série. Cela, escolta e rotina de prisão continuam o interesse antigo por instituição que falha e por personagem sem saída limpa.
Por que um vestibular tirou o livro da lista
Em abril de 2023, a Universidade de Rio Verde, em Goiás, retirou Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios da lista de obras do vestibular de Medicina. O corte veio depois de um vídeo do deputado federal Gustavo Gayer (PL), que classificou o romance como conteúdo pornográfico. A própria universidade, em nota reproduzida pelo G1 e pela Folha, reconheceu que se tratava de obra da literatura brasileira contemporânea, trabalhada em cursinhos e presente em listas de concursos, e mesmo assim decidiu pela exclusão imediata por causa da polêmica.
Aquino disse ao G1 que se sentiu censurado. Afirmou que o livro tinha quase vinte anos de mercado, estava então por volta da 23ª edição, havia sido traduzido para oito idiomas e dera origem a dois curtas. A Academia Brasileira de Letras classificou a retirada como arbitrária e afirmou que a universidade cedeu a pressão política. O episódio não reescreve o romance de 2005. Mostra o tipo de leitura pública que ele ainda provoca quando entra numa prova.
O que procurar primeiro
Ele mantém um perfil no X em que publica notas de leitura e avisa edição nova. A ficha de carreira está na Enciclopédia Itaú Cultural. Os livros em circulação recente saem pela Companhia das Letras.
- O invasor, livro de 2002, com filme de Beto Brant em circuito de festivais desde 2001: a encomenda de um crime entre sócios e o matador que não sai de cena.
- Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de 2005: o fotógrafo Cauby, Lavínia e uma cidade de garimpo no Pará.
- Faroestes, contos de 2001 reeditados em 2022: acerto de contas, periferia e página policial em relatos curtos.
- Baixo esplendor, de 2021: um policial infiltrado em 1973, no meio de ladrões de carga, desejo e traição.
Quem lê esses quatro entende o recorte. Aquino não escreve o crime como quebra-cabeça de detetive. Escreve o momento em que alguém, comum ou já fora da lei, aceita um pacto e descobre o preço. O jornalismo forneceu o vocabulário da ocorrência. O cinema ensinou o corte. A frase ficou no livro.
Para cruzar com outros nomes da prosa brasileira, a estante de literatura reúne ficção, poesia e ensaio. O caso dele continua específico: interior paulista, redação policial, Jabuti de 2000 e uma filmografia que não se separa dos livros.





