Faroestes é o livro de contos em que Marçal Aquino encosta o leitor na página policial sem pedir que ele resolva um caso. A Companhia das Letras, na reedição de 2022, descreve o volume por cenas que qualquer morador de cidade brasileira reconhece de ouvir falar: a denúncia de um crime no noticiário da televisão, o acerto de contas num bar de periferia, a tocaia do delegado, o justiçamento de um pivete, o contrato de espancadores para dar uma lição no sócio, o filho que tem tudo para acabar morto e acaba. São onze relatos breves. Nada ali se oferece como faroeste de chapéu e deserto. O nome aponta para o ajuste de contas, não para o gênero americano.
A primeira edição saiu em setembro de 2001 pela Ciência do Acidente, selo de Joca Reiners Terron, com tiragem que não chegou a mil exemplares. Aquino contou essa origem em entrevista reproduzida pelo Farofafá. O livro começou a se armar em 1999, na noite de autógrafos de Treze, de Nelson de Oliveira, que Terron lançava no mesmo selo. Naquele momento, o autor saía de dois mergulhos em violência extrema: a novela Cabeça a prêmio, escrita num jorro de 54 dias, e as filmagens de O invasor, de Beto Brant, pelas quebradas de São Paulo. Faroestes ficou no meio disso, em tiragem pequena, e sumiu de circulação por anos.
O que a reedição devolveu
Em 12 de maio de 2022, a Companhia das Letras recolocou o livro na estante, com 152 páginas, formato 14 por 21 centímetros, ISBN 978-65-5921-202-6 e capa de Alceu Chiesorin Nunes. A reedição traz orelha de Ana Paula Maia e posfácio de Paulo Roberto Pires. Maia, na orelha citada pela editora, chama os contos de curtos e sombrios e insiste que tudo é real no efeito de leitura: sangue, corpo, medo, decepção. Não é quarta capa genérica de “clima tenso”. É a descrição de um livro que já tinha vinte anos e continuava legível porque a matéria não envelheceu para dentro de uma moda.
A casa editorial resume o território com uma frase que está no próprio livro e que a sinopse destaca: ruas em que as pessoas, mesmo alegres, evitam sorrir para que ninguém desconfie, e bairros lembrados por coisas e gentes que ficavam mais à vontade na página policial do jornal. Esse vocabulário é o de Aquino repórter, o homem que a partir de 1988 cobriu a editoria policial do Jornal da Tarde. Nos contos, o expediente não vira crônica de redação. Vira situação. O leitor não acompanha a apuração. Acompanha quem já está dentro do fato.
Como os contos se separam dos romances
Faroestes não é a versão curta de O invasor nem um esboço de Baixo esplendor. Cada relato fecha um pacto pequeno: uma dívida, uma tocaia, uma lição encomendada, um filho perdido. Não há um protagonista único atravessando 250 páginas. Há uma galeria do que a orelha chama de gente áspera, e a editora avisa que nada parece acabar bem para ela. Quem gosta de série de televisão com elenco fixo vai estranhar. Quem lê conto para ver uma situação inteira em poucas páginas encontra o formato certo.
O livro também marca um lugar na carreira. Veio depois de O amor e outros objetos pontiagudos, de 1999, que recebeu o Jabuti de 2000, e antes da novela O invasor fechada em livro em 2002. É a coletânea em que o conto urbano de Aquino aparece sem o disfarce do romance. A primeira tiragem, inferior a mil, explica por que tanta gente só conheceu o título na reedição da pandemia, quando Baixo esplendor também saía e a Companhia das Letras reabria o catálogo dele.
O volume corrente é a edição de 2022, não a plaquete da Ciência do Acidente, hoje de sebo. Comprar Faroestes é comprar os onze contos com a orelha de Ana Paula Maia e o posfácio de Paulo Roberto Pires, não uma caixa com os romances. Para quem já leu o título longo de 2005 e quer ver Aquino no formato em que ele começou a ser premiado, o caminho é este.




