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O invasor

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Novela de 2002 em que dois sócios encomendam a morte do terceiro e o matador não sai de cena. O filme de Beto Brant veio antes do livro fechado.

O invasor nasceu ao contrário do que o leitor espera de um romance levado ao cinema. Em 1997 já existia um pedaço da novela. O cineasta Beto Brant convenceu Marçal Aquino a interromper o livro e transformar aquela história no roteiro do terceiro longa da dupla. O filme circulou em festivais em 2001. O volume, pela conta da própria Companhia das Letras, só foi fechado cerca de cinco anos depois de ter virado roteiro, e chegou às livrarias em 2002, na esteira da circulação do filme.

Quem compra O invasor não compra a transcrição de um suspense de delegacia. Compra uma novela curta, de pouco mais de cem páginas na edição da coleção Má Companhia, em que dois engenheiros sócios de uma construtora decidem eliminar o terceiro. O motivo público da trama é uma falcatrua: o sócio que atrapalha precisa sair do caminho para o negócio andar. O matador contratado, Anísio, cumpre o serviço e não desaparece. Passa a ocupar a vida, a empresa e o medo de quem achou que mandava.

Por que o livro veio depois do filme

A ordem invertida explica o corte da prosa. Aquino já tinha escrito contos de violência seca, entre eles o que originou Os matadores, e tinha colaborado com Brant em Ação entre amigos. Em O invasor, a narrativa cabe numa sucessão de capítulos breves. A edição de 2011 da Companhia das Letras, estudada em trabalhos acadêmicos, organiza o livro em quinze capítulos e cerca de 122 páginas. Não há espaço para o detetive que explica o caso no último ato. O crime é combinado cedo. O resto é consequência: culpa, chantagem, desejo e a invasão de um homem que conhece as regras de outro mundo.

A Folha, em maio de 2002, descreveu o filme que já tinha sido unanimidade no Festival de Brasília do ano anterior, recebido como melhor filme latino-americano no Sundance, selecionado para Berlim e premiado sete vezes no Festival de Recife. Paulo Miklos estreou no cinema como o matador. A novela é dedicada ao rapper Sabotage, morto em 2003, que também estava no elenco. Ler o livro depois de ver o filme, ou o contrário, não é repetir a mesma cena. O roteiro precisou existir antes. O romance pôde voltar ao que o filme não guarda: o tempo interno de Ivan, o sócio que topa o crime e passa a ser perseguido pelo próprio medo.

O que a história faz com São Paulo

O cenário é São Paulo, mas não a cidade do cartão-postal. Os dois sócios saem da classe média e descem até um bar de periferia para fechar um assassinato como se fosse conversa de negócios. A epígrafe usada na edição da Companhia das Letras, um provérbio montanhês, avisa o pacto: para chegar aonde deseja, um homem acaba fazendo mais inimigos do que amigos. Ivan ainda tenta manter a aparência de vida urbana. Alaor, o outro sócio, transita com mais à vontade entre o escritório e o submundo. Anísio não pede licença para entrar nos dois lugares.

Esse desenho conversa com o resto da obra de Aquino sem se confundir com ela. Faroestes são contos de acerto de contas. Cabeça a prêmio, de 2003, acompanha um matador de aluguel noutra chave. O invasor é a novela em que o crime encomendado nasce dentro de uma empresa, não na página policial de um jornal. O vocabulário, porém, é o de quem cobriu delegacia: nome de rua, medo concreto, homem que não volta para casa do mesmo jeito.

A edição que a Companhia das Letras mantém no catálogo saiu em 16 de março de 2011, no selo da casa, com 128 páginas no formato 12,5 por 18 centímetros, ISBN 978-85-3591-804-5, dentro da coleção Má Companhia. A capa dessa edição, com o título em bloco preto sobre o vermelho e a fotografia de prédios e fios, é a imagem do livro que circula hoje. Quando o volume impresso some do estoque das lojas, a página da editora continua sendo o lugar em que a ficha, o trecho e o aviso de retorno ficam reunidos.

Para quem o livro serve

O invasor serve a quem quer a novela que está na origem do filme, não um guia de cinema e não um romance de quinhentas páginas. Serve também a quem lê ficção brasileira em que corrupção, classe média e matador contratado dividem o mesmo capítulo. Não promete redenção nem explica a violência urbana em tese. Entrega uma história curta em que a encomenda do crime é o começo, não o mistério.

Marçal Aquino tinha 44 anos quando o livro chegou às livrarias, já com o Jabuti de 2000 e com a redação policial atrás de si. O invasor é o ponto em que essa experiência vira enredo de empresa, não só conto de margem. Quem for ler um único livro dele para entender o trânsito entre página e tela pode começar por aqui, e depois seguir para o romance de 2005 ou para os contos de Faroestes. A novela permanece a mais direta das três: poucos personagens, um pacto, e um homem que invade a vida de quem o chamou.

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