Baixo esplendor é o romance com que Marçal Aquino voltou à ficção adulta inédita em 2021, dezesseis anos depois de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. A Companhia das Letras lançou o livro em 9 de abril de 2021, com 264 páginas, formato 14 por 21 centímetros, ISBN 978-65-5921-029-9 e capa de Alceu Chiesorin Nunes. O ano da história é 1973, um dos períodos mais duros da ditadura militar. O protagonista público da sinopse se chama Miguel e é agente do setor de Inteligência da polícia civil. A especialidade dele é infiltrar quadrilhas.
Numa operação, Miguel se aproxima de um grupo de ladrões de carga e fica íntimo de Ingo, o chefe. Ingo apadrinha a entrada dele no bando e apresenta a irmã, Nádia. O relacionamento dos dois tem no sexo o ponto de combustão, na frase da própria editora. Há ainda a quem Miguel presta contas: o delegado que chefia a operação, chamado Olsen nas reportagens de lançamento. Não é um livro de nostalgia dos anos 1970. É um livro em que infiltração, desejo e traição ocupam o mesmo cômodo, com a ditadura como ar do ambiente, não como aula.
Por que demorou dezesseis anos
A Folha, em 2 de abril de 2021, registrou que Aquino, então com 63 anos, garantia não se aplicar ao intervalo o clichê do escritor parado. Ele disse que nunca tinha escrito tanto naqueles dezesseis anos, e que três romances ficaram engavetados em estágios diferentes. O grande circo humano chegou a ter um capítulo na Bravo! em 2007. Um trecho de Como se São Paulo fosse um bom lugar entrou em São Paulo Noir, da Casa da Palavra, em 2016. Ele contou que falou tanto desses projetos que perdeu o interesse no meio do caminho.
O que não parou foi o roteiro. Com Fernando Bonassi, Aquino escreveu séries para a TV Globo, e a Folha cita Carcereiros como a mais recente, além do longa de José Eduardo Belmonte em 2019. A revista Rascunho descreveu o hiato de livros como um sequestro pela escrita de televisão. Baixo esplendor, nessa conta, não é um retorno depois do silêncio. É o romance que conseguiu terminar quando os outros três não conseguiram, escrito, segundo o que ele contou à Rascunho, num mergulho parecido com o de Cabeça a prêmio, que tinha tomado 54 dias.
O que o leitor encontra, e o que não encontra
A prosa anunciada pela editora é ágil. A matéria é a que Aquino já tinha trabalhado em conto e em novela: polícia, bando, sexo, traição, droga e conflito de lealdades. A diferença é a data e o disfarce. Miguel não é o matador contratado de O invasor nem o fotógrafo Cauby de 2005. É um policial que mente para viver dentro do bando e que se envolve com a irmã do chefe. A infiltração amorosa e a infiltração profissional deixam de ser duas missões. A sinopse da casa avisa o tom sem entregar o desenlace: o mundo do crime, aqui, passa pelo corpo, não só pela arma.
Não funciona como manual da ditadura nem como romance documental de 1973. Quem quiser a crônica histórica do período vai precisar de outro volume. Quem quiser o Aquino da página policial, agora com um agente infiltrado e uma mulher no centro do risco, encontra o livro certo. A reedição de Faroestes saiu no ano seguinte, em 2022, e devolveu os contos que estavam fora de catálogo. Baixo esplendor ficou sendo o romance novo. Os contos, a memória da forma curta.
A capa de Alceu Chiesorin Nunes, com o corpo pintado e o título em caixa alta, é a da edição corrente da Companhia das Letras, a mesma que a Amazon vende no ISBN 978-65-5921-029-9. Não é a capa de outro título da casa nem um pôster do filme, porque este romance não nasceu de um longa já pronto, ao contrário de O invasor. Nasceu como livro, depois de um intervalo em que o autor estava nas séries. É por isso que ele explica a fase recente de Marçal Aquino melhor do que qualquer ficha antiga: mostra o que ele ainda queria narrar quando a televisão já tinha tomado os anos do meio.




