O fato e a Coisa é o livro de poemas que Torquato Neto organizou e não viu impresso. Os originais ficaram num maço com esse título. Em 2022, nos cinquenta anos da morte, o selo Círculo de Poemas, projeto da Luna Parque com a editora Fósforo, pôs o volume nas livrarias. É porta de entrada para quem só conhece o letrista e nunca leu o poeta jovem.
A Folha, ao resenhar a edição, situa os poemas entre 1961 e 1964, dos 16 aos 19 anos, no trajeto de Teresina para o Rio, antes do impacto da poesia concreta e do pop que alimentaria a Tropicália. Folhas datadas citadas na imprensa caem em 1962 e 1963, quando ele tinha 17 e 18 anos. O miolo não é, portanto, o Torquato do disco de 1968. É o escritor anterior a Geleia geral, a Marginália II e à coluna da Última Hora.
Como a edição de 2022 foi armada
O livro tem 152 páginas e ISBN 978-6584574342. O estabelecimento do texto foi feito por Thiago E a partir do Acervo Torquato Neto, no Piauí, e ele assina o posfácio. A orelha é de Reinaldo Moraes. A edição declara o propósito de não alisá-lo: vírgula, maiúscula e minúscula ficam como no original. Há reprodução de manuscrito e imagem do poeta. O poema de abertura se chama Explicação do Fato. Não é coletânea de organizador póstumo inventando um livro. É um plano que já tinha nome na pasta.
Isso separa o volume de Os últimos dias de Paupéria, montado em 1973 por Waly Salomão e Ana Maria com coluna, poema e manifesto. Também separa de Torquatália, o par de tomos da Rocco que tenta o panorama largo, poesia de um lado e jornal do outro. O fato e a Coisa é estreito de propósito. Cobre a formação, não a obra inteira. Quem espera a letra de Mamãe coragem ou o texto diário de 1971 está no livro errado.
O que o leitor encontra na prática
Encontra o menino que lia Drummond e já escrevia sobre Teresina, Salvador e o Rio, antes de virar nome de ficha tropicalista. A resenha da Folha vê nisso uma porta para quem chorou em Pra dizer adeus, com Edu Lobo, e não sabia que havia um poeta atrás da canção. O encanto, nesse recorte, é justamente a data: os versos ainda não carregam o programa do breviário Tropicalismo para principiantes. Mostram tensão de quem está saindo de casa, não o manifesto do disco coletivo.
Serve a quem lê poesia brasileira contemporânea e quer o elo entre a geração que Heloísa Buarque de Hollanda antologiaria em 26 poetas hoje e um autor que, em vida, não teve livro. Serve também a quem estuda o Piauí literário e precisa de edição corrente, não de sebo. A primeira Paupéria, de 1973, é objeto raro. Esta é um livro de prateleira, com editora identificável e um estabelecimento de texto assinado.
Limite claro de leitura
Não é biografia e não explica o suicídio de 1972. Não traz a parceria com Gilberto Gil nem a temporada na Philips. Não substitui o site do acervo, onde há voz, imagem e texto fora deste recorte. O ganho é outro: ver, num só volume curto, o único projeto de livro que saiu das mãos dele, publicado quando o autor já era nome de rua em Teresina e de canção regravada pelos Titãs.
Quem quiser o panorama compra também Torquatália. Quem quiser só o começo, o maço que ele mesmo intitulou, fica neste. As duas edições não competem. Uma guarda a juventude escrita. A outra tenta não deixar o resto espalhado.


