O mesmo título, Geleia geral, coube a Torquato Neto duas vezes. Em 1968 era faixa de Gilberto Gil no disco Tropicália ou Panis et Circencis. Entre 1971 e 1972 voltou como coluna diária no jornal Última Hora, no Rio. Quem procura o nome quase sempre entra por uma dessas portas: a letra que o rádio guardou, ou o poeta cujo livro só foi montado depois.
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, no Piauí, em 9 de novembro de 1944, filho único do promotor Heli da Rocha Nunes e da professora primária Maria Salomé da Cunha Araújo. Morreu no Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1972, um dia depois de completar 28 anos. Nesse intervalo couberam jornal, letra de canção, cinema de superoito e um projeto de livro que só chegaria às livrarias meio século mais tarde.
Quem foi Torquato Neto fora do rótulo de tropicalista
O rótulo cola porque ele esteve no disco de 1968, ao lado de Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão, Capinam, Os Mutantes e Rogério Duprat. O Dicionário Cravo Albin aponta nele a ideia desse disco-manifesto. A frase que ele mesmo deixou no breviário Tropicalismo para principiantes pede outra leitura: assumir o que a vida dos trópicos pode dar, sem separar de antemão o que seria cafona ou mau gosto.
Antes do LP, o ofício já misturava redação, gravadora e poesia. Entrou no curso de jornalismo no Rio e não concluiu. Escreveu no Correio da Manhã, no Jornal dos Sports e na Última Hora. Entre 1967 e 1968 fez divulgação na Philips e passou pelo setor de propaganda da Editora Abril. A canção, no caso dele, não nascia longe da indústria. Nascia no meio dela, e a letra podia discutir o veículo que a carregava.
De Teresina ao Colégio Marista e ao Flamengo
O Cravo Albin guarda um detalhe de menino que explica o leitor precoce: aos 11 anos pediu ao pai as obras de Shakespeare e, pouco depois, ganhou as de Machado de Assis. Aos 15 foi expulso de um colégio em Teresina por atividade política. Em 1961 estava em Salvador, no Colégio Nossa Senhora da Vitória, o Marista, onde também estudava Gilberto Gil. Ali trabalhou como assistente em Barravento, de Glauber Rocha, e cruzou com Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia.
No começo dos anos 1960 o endereço passou a ser o Rio. Em 1963 morava na Casa do Estudante Universitário, no Flamengo, então sede da UNE. No ano seguinte apareceu como figurante em Canalha em Crise, de Miguel Borges, numa cena de sinuca no Café Lamas. Não houve formatura como porta de entrada. Houve mesa de jornal, set e parceria ao mesmo tempo.
Em 1967 casou-se na Igreja de São Pedro Apóstolo, na Tijuca. O filho, Thiago Silva de Araújo Nunes, nasceu em 27 de março de 1970. Ana Maria Silva de Araújo Duarte, a mulher, seria depois, com Waly Salomão, quem tirou os papéis soltos da dispersão e os reuniu no primeiro livro.
As letras que o rádio ficou devendo ao nome
A parceria com Gil e com Caetano aparece com força a partir de 1965 e 1966. Não são versões da mesma música. Cada faixa empurra o nome para um público diferente, do disco de voz ao LP coletivo e, bem depois, ao rock.
- Louvação, com Gilberto Gil, gravada por Elis Regina e Jair Rodrigues em Dois na bossa nº 2, de 1966.
- Pra dizer adeus, com Edu Lobo, canção que Elis e depois Elizeth Cardoso trataram como peça de voz, não de manifesto.
- Geleia geral e Marginália II, com Gil, no ciclo de 1968.
- Mamãe coragem, com Caetano Veloso, na voz de Gal Costa no mesmo disco coletivo.
- Go back, poema de 1971 musicado por Sérgio Britto. Os Titãs gravaram em 1984 e, em 1988, deram o título ao disco feito em Montreux.
Há ainda Zabelê, A rua, Domingou e Minha senhora, com Gil, no disco Domingo, de Gal e Caetano, em 1967, e Nenhuma dor, só com Caetano. Em 1971, com Nonato Buzar, assinou O homem que deve morrer, tema de abertura da novela homônima da TV Globo, e com Roberto Menescal a faixa Tudo muito azul, da novela Minha linda namorada. A letra servia ao disco de vanguarda e à abertura de novela. Essa faixa larga é o que a ficha de poeta isolado costuma deixar de fora.
A coluna Geleia Geral e o cinema de superoito
Depois de uma temporada na Europa com a mulher, no fim dos anos 1960, Torquato assumiu em 1971 a coluna diária Geleia Geral na Última Hora. Ali cruzava poesia, cinema e música e defendia o experimental de Rogério Sganzerla e de Ivan Cardoso, em atrito com o pessoal do Cinema Novo. A coluna ele mesmo encerrou. Numa carta a Hélio Oiticica, o cansaço cabe numa frase: não tinha escrito nem nada nem para ninguém.
No cinema, o rosto é identificável. Em 1971 fez o papel principal de Nosferato no Brasil, de Ivan Cardoso, com Scarlet Moon no elenco. Em 1972 escreveu e dirigiu O terror da Vermelha, superoito rodado no bairro Vermelha, em Teresina, sobre um homem que volta à cidade e mata os antigos amigos. O curta só foi montado em 1973, por Carlos Galvão. A trilha usou Let's play that, parceria com Jards Macalé, e Mamãe coragem. No mesmo período atuou como Adão no super-8 Adão e Eva do Paraíso ao Consumo, de Edmar Oliveira e Carlos Galvão.
Com Waly Salomão organizou a revista Navilouca, reunião de poetas da chamada geração marginal, com diagramação de Ana Araújo. O número único saiu em 1974, quando ele já tinha morrido. A revista não substitui o disco nem a coluna. Fecha o círculo de quem editava os outros enquanto a própria obra ainda estava em folhas soltas.
O que aconteceu em 10 de novembro de 1972
O Dicionário Cravo Albin e a enciclopédia do Itaú Cultural batem na mesma data: 10 de novembro de 1972, no Rio de Janeiro, um dia depois dos 28 anos. A morte foi suicídio, em casa. Antes, o Cravo Albin descreve internações ligadas ao alcoolismo, entre elas uma temporada na clínica Meduna, em Teresina, e passagens pelo hospital Odilon Galotti, em Engenho de Dentro. O desenlace levou muita gente a suspeitar da ditadura. As fontes biográficas públicas descrevem uma decisão dele.
Caetano Veloso escreveria Cajuína, no disco Cinema transcendental, a partir do encontro com o pai de Torquato em Teresina, algum tempo depois. A canção não explica a morte. Mostra como o nome continuou entre os parceiros, já sem o letrista na sala.
Onde a obra foi parar depois da morte
Em vida, Torquato não publicou livro. O texto estava em coluna, letra, carta e poema. Em 1973, Waly Salomão e Ana Maria organizaram Os últimos dias de Paupéria, volume curto da Eldorado, acompanhado de um compacto: Todo dia é dia D, por Gilberto Gil, e Três da madrugada, por Gal Costa, as duas com Carlos Pinto. A edição de 1982, pela Max Limonad, cresceu e passou a se chamar Os últimos dias de Paupéria — do lado de dentro.
Na década de 2000 a Rocco publicou Torquatália, organizada pelo jornalista Paulo Roberto Pires, em dois tomos: um de poesia e prosa, outro com a produção de jornal, inclusive a coluna da Última Hora. Em 2022 o selo Círculo de Poemas, da Luna Parque com a Fósforo, lançou O fato e a Coisa, o projeto de livro que ele chegou a organizar, com poemas de juventude. O site do acervo, mantido por George Mendes, primo e curador, junta poemas, textos e registros de voz que não cabem numa discografia.
Quem chega pelo disco de 1968 encontra um letrista da Tropicália e da MPB de festival. Quem abre a coluna ou O fato e a Coisa encontra um escritor que usava o jornal e o poema com a mesma pressa, e que deixou a obra em pedaços para outros montarem. As duas leituras são do mesmo Torquato. Nenhuma delas dá conta da outra sozinha.



