Torquatália — Do lado de dentro reúne a poesia e a prosa curta de Torquato Neto num volume organizado por Paulo Roberto Pires. Não é songbook, nem reedição do disco Tropicália ou Panis et Circencis. É o lado escrito de quem o público conhece primeiro pela letra, posto enfim numa edição de livraria, pela Rocco.
A demora tem motivo de arquivo, não de capricho. Torquato morreu em 1972 sem livro publicado. Em 1973, Waly Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte montaram Os últimos dias de Paupéria, volume curto da Eldorado, com pouco mais de cem páginas e um compacto de estúdio. Em 1982 a Max Limonad ampliou esse miolo e o rebatizou com o complemento “do lado de dentro”. Torquatália é o passo seguinte: a tentativa de parar de depender de sebo e de recorte para ler o autor.
O que este tomo entrega e o que fica no outro
A edição comercial deste volume, pela Rocco, saiu em 13 de dezembro de 2004, com 368 páginas e ISBN 978-8532515902. O título de capa é explícito: Do lado de dentro, livro I. O par, Geléia geral, é outro tomo, o da produção jornalística, e inclui a coluna diária da Última Hora. Quem compra este aqui atrás da íntegra do jornal vai se frustrar. O miolo prometido nesta capa é poema, prosa breve, carta e texto que andava solto, não a coleção completa de artigos.
O texto de apresentação da edição em dois volumes fala em inéditos, correspondência e escritos antes espalhados. Isso descreve o projeto inteiro. Neste tomo, o ganho prático é outro: o leitor deixa de caçar Paupéria usado para achar o poema, e passa a ter um livro corrente, com o nome do organizador na capa. Paulo Roberto Pires é jornalista, editor e crítico. Não é a viúva nem o parceiro de canção. A mão que ordena o volume é de arquivo, não de gravadora.
Para quem o livro serve
Serve a quem já cantarola Geleia geral, Mamãe coragem ou Pra dizer adeus e quer ver como essa dicção funcionava sem melodia. Serve também a quem estuda Tropicália e cansou de citar o LP da Philips sem abrir a página. A letra de 1968 é pública há décadas. O poema, não. Durante muito tempo ele circulou em antologia, em revista e em citação de show. Este volume é o lugar em que essa parte da obra deixa de ser apêndice do disco.
Não substitui O fato e a Coisa, livro de juventude que ele mesmo chegou a organizar e que a Círculo de Poemas publicou em 2022. Também não substitui a biografia. Não há aqui narrativa de Teresina, do Marista ou do Flamengo. Há o texto. Quem quiser a crônica da vida continua no dicionário, no acervo e nos depoimentos. Quem quiser a frase, abre este tomo.
Como ele se diferencia de um pacote de letras
Uma coletânea de canções repetiria Louvação, Marginália II, Zabelê, Let's play that. Torquatália não nasce dessa lista. O critério, dado pelo organizador e pelo desenho em dois tomos, separa o que era literatura do que era jornal. Isso muda o uso. O estudante de letra de MPB ainda vai ao disco e ao Cravo Albin. O leitor de poesia vai a este volume e, se quiser a coluna Geleia Geral inteira, precisa do outro.
O limite é honesto: 368 páginas não são a obra completa, e a data de 2004 não apaga a edição rara de 1973, que tem valor de objeto, com o compacto de Gil e de Gal Costa. Para ler, porém, a Rocco é o caminho estável. O preço oscila conforme o estoque. O que não oscila é o conteúdo deste tomo: poesia e prosa de dentro, com a coluna diária ficando para o volume ao lado.


