Contexto e proposta de O negócio do michê
O negócio do michê não explica a poesia de Néstor Perlongher. Explica a cidade em que ele passou a viver. O livro sai da dissertação de mestrado em Antropologia Social defendida na Unicamp em 1986, sob orientação de Mariza Corrêa, e descreve o comércio de sexo entre rapazes e clientes no centro de São Paulo.
O trabalho de campo correu entre março de 1982 e janeiro de 1985. Perlongher andou por ruas, bares, saunas e mictórios públicos. Ouviu michês, clientes e pessoas do meio homossexual que não estavam no comércio, os chamados entendidos. O recorte geográfico é estreito de propósito: o centro, não a cidade inteira. O que interessa é o circuito, os códigos de corpo, idade e classe, e o modo como o desejo vira transação.
A primeira edição saiu em 1987 pela Brasiliense, com prefácio de Peter Fry. Fry avisou que o texto não era defesa de advogado nem olhar frio: tentava traduzir a experiência daquelas margens. Parte do meio acadêmico estranhou o título. Cecilia Palmeiro registra que a tiragem inicial, de 3 mil exemplares, esgotou em três meses.
Em 2008 a Editora Fundação Perseu Abramo republicou o texto integral, com prefácio novo de Richard Miskolci e Larissa Pelúcio. São 272 páginas, ISBN 978-85-7643-057-5. A editora mantém essa edição em PDF aberto. Quem lê hoje encontra o vocabulário da época, não um glossário atualizado: michê, viril, gueto, entendido. O interesse do volume está nesse recorte datado e na análise, não num mapa da noite paulistana de agora.
O livro cabe na estante de antropologia urbana e de estudos sobre sexualidade no Brasil. Não substitui os poemas. Sem ele, porém, a estadia de Perlongher em São Paulo fica só como endereço, e não como o lugar em que ele escreveu a etnografia pela qual o nome circula nas universidades brasileiras.


