Em 1987, a editora Último Reino publicou Alambres, de Néstor Perlongher, e o livro levou o Prêmio Boris Vian de literatura argentina. Dentro dele está Cadáveres, o poema em que a lista do que a última ditadura argentina fez desaparecer volta como refrão. Perlongher já morava em São Paulo quando o texto circulou. Quem busca o nome hoje costuma chegar por esse poema ou pelo livro em português sobre o mercado do sexo masculino no centro da cidade.
Néstor Osvaldo Perlongher nasceu em Avellaneda, na província de Buenos Aires, em 25 de dezembro de 1949, e morreu em São Paulo em 26 de novembro de 1992, aos 42 anos, de septicemia ligada à aids. Foi poeta, sociólogo, antropólogo e um dos fundadores do Frente de Liberación Homosexual. A trajetória que interessa aqui não cabe numa ficha de autor: o mesmo homem militou, deu aula e descreveu a noite paulistana.
Quem foi Néstor Perlongher
O nome de registro é Néstor Osvaldo Perlongher. Em Avellaneda, o pai era taxista e a mãe, costureira. A página cultural do governo argentino guarda uma frase dele, dita em tom de piada, que ainda organiza a memória pública: chamavam-no de pai do movimento gay argentino, quando todo mundo sabia que era a tia.
A persona tinha endereço político. Nos anos 1970 ele escreveu na revista Somos, órgão do Frente de Liberación Homosexual. Um desses textos se chamava Sexo y revolución. Na revista feminista Persona, entre 1974 e 1982, assinou como Víctor Bosch e como Rosa L. de Grossman. O conto Evita vive, que ficcionaliza Eva Perón entre trabalhadoras do sexo, atravessou o peronismo como provocação. Verso e panfleto saíam do mesmo lugar.
Buenos Aires, a sociologia e a saída
Perlongher estudou Letras e depois Sociologia na Universidade de Buenos Aires. Formou-se sociólogo em 1981. No começo dos anos 1970 militou no Partido Obrero. A nota oficial argentina registra que o partido o afastou porque não aceitava integrantes gays. Dali ele entrou no Frente de Liberación Homosexual, onde cruzou com Manuel Puig e com o sociólogo Juan José Sebreli. O grupo é lembrado como uma das primeiras associações de defesa dos direitos de homossexuais na América Latina.
Com o golpe de 1976, o Frente se desfez para reduzir o risco de perseguição, cadeia e morte. A mesma nota do governo argentino afirma que Perlongher ficou preso de forma ilegal por três meses na cadeia de Devoto. No entorno dessa militância ele animou o grupo Política Sexual, que reunia ativistas homossexuais, feministas e homens heterossexuais antipatriarcais. Osvaldo Baigorria, amigo e destinatário das cartas depois reunidas em Un barroco de trinchera, descreve esse círculo como o lugar em que Perlongher empurrava leituras de Freud, Marcuse, Reich, Deleuze, Guattari e de autoras como Kate Millett e Shulamith Firestone.
Antes do primeiro livro de poemas, Rodolfo Fogwill o levou para a empresa de estudos de mercado Facta, onde Perlongher fazia entrevistas de rua. Foi Fogwill quem depois ofereceu publicar os poemas que viraram Austria-Hungría, saído em 1980 pela Tierra Baldía, em Buenos Aires. É o único livro de poesia que ele publicou ainda na Argentina.
São Paulo, a Unicamp e o michê
Em 1982 Perlongher trocou Buenos Aires por São Paulo e entrou no mestrado em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas. Entre março de 1982 e janeiro de 1985 fez trabalho de campo em ruas, bares, saunas e mictórios do centro paulistano. A dissertação, O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo, foi defendida em 1986, com orientação de Mariza Corrêa. O acervo da Unicamp guarda o volume sob a chamada T/UNICAMP P422n.
A Brasiliense publicou o livro em 1987, com prefácio de Peter Fry. No prefácio, Fry escreveu que o texto não era defesa de advogado nem olhar frio: tentava traduzir a experiência daquelas margens. Parte do meio acadêmico estranhou o título. Cecilia Palmeiro registra que a primeira edição, de 3 mil exemplares, esgotou em três meses. Em 2008 a Editora Fundação Perseu Abramo reeditou o texto integral, com prefácio novo de Richard Miskolci e Larissa Pelúcio: 272 páginas, ISBN 978-85-7643-057-5.
No mesmo 1987 a Brasiliense lançou O que é aids?, volume 197 da coleção Primeiros Passos, com 94 páginas. A versão em espanhol saiu no ano seguinte como El fantasma del sida. O ensaio discute o modo como a medicina e a moral da época enquadravam a epidemia, inclusive o que Perlongher chamou de histeria higienista. É um texto de 1987. Lê-se como documento de um debate, não como orientação de saúde.
Ele passou a dar aulas na Unicamp ainda em 1985 e, em 1986, ministrou um curso de antropologia urbana. Participou das conversas que levariam ao Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. Não chegou a ver o núcleo em funcionamento: morreu antes. Em 1983 colaborou com a revista El Porteño. Em 1985, com a Folha de S.Paulo. Na revista Sitio publicou artigos contra a Guerra das Malvinas, entre eles Todo el poder a Lady Di.
O nome que ele deu ao próprio verso
A poesia escrita no Brasil continuou saindo fora do país. Alambres (Último Reino, 1987) levou o Prêmio Boris Vian e guarda Cadáveres. Vieram Hule (Último Reino, 1989), Parque Lezama (Sudamericana, 1990), Aguas aéreas (Último Reino, 1990) e El chorreo de las iluminaciones (Pequeña Venecia, Caracas, 1992).
O procedimento ganhou um nome inventado por ele: neobarroso, barroco misturado ao barro do estuário do Rio da Prata. A formulação que a nota oficial argentina reproduz fala em não dizer nada como vem, complicar a frase até a contorção e, ao mesmo tempo, deixar passar o uivo. Entre as leituras que ele mesmo citava estão Góngora, José Lezama Lima, Severo Sarduy, Enrique Molina, Allen Ginsberg e Osvaldo Lamborghini. Baigorria o situa como animador da corrente que, na margem platina, virou neobarrosa, ao lado dos irmãos Lamborghini, de Tamara Kamenszain, Arturo Carrera, Roberto Echavarren e Marosa di Giorgio.
Nos últimos anos, já doente, aproximou-se do Santo Daime. Baigorria conta que ele tomou a ayahuasca do culto e viajou à Amazônia. Aguas aéreas é o livro dessa fase. O amigo descreve um êxtase corporal e ritual, no meio do avanço do vírus, e não uma conversão arrumada.
Em 1992 o nome de Néstor Osvaldo Perlongher entrou na lista de bolsas Guggenheim de poesia, entre os fellows da América Latina e do Caribe. Ele morreu em 26 de novembro daquele ano, em São Paulo.
O que ficou impresso
Depois da morte saíram Lamé, pela Editora da Unicamp, em 1994, com organização de Roberto Echavarren; Poemas completos, em 1997, pela Seix Barral, com prólogo de Echavarren, nota de Reynaldo Jiménez e epílogo de Tamara Kamenszain; e Prosa plebeya, pela Colihue, também em 1997. As cartas a Baigorria foram reunidas em Un barroco de trinchera, reeditado pela Blatt & Ríos. Cecilia Palmeiro organizou outra correspondência. No Brasil, o volume que ainda se abre primeiro nas universidades é O negócio do michê. Na Argentina, o poema que ainda se recita é Cadáveres.
- Austria-Hungría (Tierra Baldía, 1980): primeiro livro de poemas, ainda publicado em Buenos Aires.
- Alambres (Último Reino, 1987): Prêmio Boris Vian e o poema Cadáveres.
- O negócio do michê (Brasiliense, 1987; Fundação Perseu Abramo, 2008): etnografia do centro de São Paulo, nascida do mestrado na Unicamp.
- O que é aids? (Brasiliense, 1987): ensaio curto da coleção Primeiros Passos sobre o enquadramento da epidemia.
- Poemas completos (Seix Barral, 1997): reunião póstuma dos livros de poesia, com prólogo de Roberto Echavarren.
Quem lê Perlongher a partir do português encontra um argentino que fez de São Paulo casa e campo de escrita, e que deixou na literatura de língua espanhola um barroco sujo de rua. Não há site pessoal, rede social nem empresa no nome dele. A vida pública fechou em 1992. O que resta são os livros, as cartas e o retrato.



