O que é isso, companheiro? é o livro que tirou Fernando Gabeira da clandestinidade literária e o colocou no centro da conversa brasileira sobre ditadura, esquerda e memória. Publicado em 1979, no mesmo ano da anistia e do retorno do autor, o relato em primeira pessoa descreve o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, a prisão, o tiro que o atingiu em São Paulo e a vida de banido na Europa. Não é romance de ação nem panfleto de vitória. É um documento escrito por alguém que esteve dentro da organização e, ao voltar, recusou o papel de herói.
A pergunta do título não se dirige ao regime. Dirige-se aos companheiros — e, por extensão, a qualquer leitor que ainda trate a luta armada como lenda limpa ou como crime sem contexto. Gabeira descreve o cotidiano da militância, o manifesto que precisava sair nos jornais, o cativeiro do diplomata e o descompasso entre o programa político da organização e a democracia que, anos depois, muitos ex-guerrilheiros passaram a reivindicar como objetivo original.
O que o livro conta e o que ele recusa contar como epopéia
O eixo é o sequestro de 1969, ação do MR-8 com a ALN que libertou quinze presos políticos em troca de Elbrick. Gabeira não se retrata como o homem que imobilizou o embaixador. O texto o coloca no circuito da operação, sobretudo na divulgação pública da ação, e depois no rastro da repressão: a fuga, o cerco, o tiro nas costas, o Hospital das Clínicas, as prisões e a troca pelo embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970, que o mandou para o exílio.
Essa honestidade de escala é o que sustenta a leitura quatro décadas depois. O livro não inventa um Gabeira onipresente na captura. Mostra um jornalista recém-saído do Jornal do Brasil que atravessou a fronteira da legalidade, pagou com o corpo e, no regresso, quis entender o sentido daquilo. A ironia, o detalhe miúdo e a recusa da pose separam a obra de depoimentos que só confirmam o campo de quem escreve.
Para quem a leitura faz sentido
O volume serve a quem quer entender a ditadura militar a partir de um testemunho interno, não de manual escolar. Serve também a quem chega pelo filme de Bruno Barreto, de 1997, e precisa do texto que o cinema condensou. A adaptação, intitulada no Brasil com o mesmo nome e no exterior como Four Days in September, foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro; o livro continua sendo a fonte, não o merchandising da tela.
Estudantes de história, jornalismo e ciência política encontram aqui um caso raro: memória de militância que não pede conversão do leitor. Quem busca biografia política contemporânea encontra o ponto de partida da obra posterior — O crepúsculo do macho, Entradas e bandeiras, até as revisões de 2012 e 2017. Quem busca só “o livro do sequestro” leva isso e leva também a conta que o autor passou a fazer de si mesmo.
- Relato em primeira pessoa da luta armada e do sequestro de Elbrick
- Prêmio Jabuti de biografia e memórias em 1980
- Mais de 250 mil exemplares e dezenas de reedições
- Base do filme de Bruno Barreto, de 1997
- Edição em circulação pela Estação Brasil, em português
Edição, prêmio e por que o texto ainda circula
A primeira edição saiu pela Codecri, a editora ligada ao grupo do Pasquim. O Jabuti de 1980 selou o livro como memória, não como folheto. As reedições o mantiveram vivo quando o debate sobre 1964 mudou de geração. A edição atual da Estação Brasil, de 2016, traz o texto clássico para leitores que não viveram a abertura e ainda assim reconhecem a pergunta do título em outros confrontos políticos.
Não é um manual de guerrilha nem um ajuste de contas judicial. É literatura política no sentido estrito: alguém que participou, sobreviveu e escreveu antes que o esquecimento ou a mitologia tomassem o lugar dos fatos. Quem quiser o Gabeira deputado, verde ou comentarista de televisão encontra nessas páginas a matéria-prima que ele nunca deixou de revisitar.
Limites da obra
O livro cobre sobretudo o fim dos anos 1960 e o começo do exílio. Não substitui uma história geral da ditadura nem o restante da bibliografia do autor. Tampouco deve ser lido como ficha criminal ou como atestado de redenção. A força está no testemunho situado: um homem, uma organização, um sequestro, uma derrota, uma pergunta que o título recusa responder sozinho.



