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O Rei da Vela

Livro
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Peça de 1937 sobre agiotagem e casamento por interesse, estreada no palco em 1967 pelo Teatro Oficina.

O Rei da Vela, escrito em 1937, esperou trinta anos para explodir no palco. A peça de Oswald de Andrade só estreou em 1967, no Teatro Oficina de São Paulo, com direção de José Celso Martinez Corrêa. O atraso diz tanto quanto o texto: o teatro brasileiro da década de 1930 não tinha linguagem para aquele choque; o Brasil de 1967, em plena contestação, tinha.

No centro está Abelardo I, agiota recém-enriquecido que busca ascensão pelo casamento com a aristocrata Heloísa, interessada em tapar a própria ruína. A transação amorosa é transação de crédito. Um representante do capital estrangeiro interfere. A crítica às relações de poder liga a agiotagem doméstica ao jogo entre nações. A sexualidade explícita fere a pose da burguesia que se pretende recatada.

O que a peça faz no palco

O primeiro ato trata das operações da firma Abelardo & Abelardo em chave de circo. Devem-se dinheiro, humilhação e espetáculo. Sábato Magaldi observou que as peças de Oswald nos anos 1930 quebravam a ilusão cênica e falavam direto com a plateia — coisa rara no teatro brasileiro de então. A montagem do Oficina, com cenário de Hélio Eichbauer, empurrou essa indicação até o kitsch antropofágico: palco giratório, signos de consumo, agressão visual.

Por isso o livro não se esgota na leitura silenciosa. Ainda assim, o texto impresso pela Companhia das Letras permite ver a engrenagem antes do espetáculo: o casamento como contrato, o escritório como jaula, o estrangeiro como sócio invisível. Quem só conhece Oswald pelos poemas curtos encontra aqui o dramaturgo de tese política, sem abrir mão do deboche. O segundo e o terceiro atos deslocam a farsa do balcão para o teatro social do casamento e da falência — o crédito pessoal vira metáfora da dependência entre países.

Por que ler a peça hoje

A peça interessa a quem estuda teatro brasileiro, tropicalismo e ditadura cultural de 1967 tanto quanto a quem quer o Oswald dos anos 1930, já distante da festa pau-brasil. Não é um folheto de propaganda. É farsa de crédito e classe. O leitor de romance pode estranhar as rubricas e a quebra de tom; o leitor de manifesto reconhece o mesmo apetite de engolir o poderoso e devolvê-lo em caricatura.

A montagem do Oficina virou lenda e voltou em reencenações posteriores, mas o texto de 1937 não depende só da memória de Zé Celso. Continua legível como diagnóstico de um país que mistura aristocracia falida, novo-rico voraz e capital que chega de fora para assinar o contrato.

Quem lê sem ter visto o espetáculo ainda encontra a engrenagem: o escritório como circo, o casamento como balanço, o estrangeiro como sócio. Quem quiser a biografia completa volta ao perfil do autor. Quem quiser o palco, começa por Abelardo e pela vela que dá nome ao negócio — e ao título.

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