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Ópera dos Mortos

Livro
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Romance de 1967 sobre Rosalina no sobrado da família Honório Cota, escolhido pela Unesco como obra representativa da literatura universal.

Numa pequena cidade do interior mineiro, uma mulher vive trancada num sobrado começado pelo avô coronel e terminado pelo pai. Os relógios estão parados. A empregada é muda. A rotina só se quebra quando chega um forasteiro. Essa é a porta de Ópera dos Mortos, romance de 1967 que a crítica trata como a obra-prima de Autran Dourado e que a Unesco escolheu para a Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal.

Não é um livro de enredo fácil nem de consolação. Rosalina Honório Cota, única herdeira da família, habita a casa como quem habita um túmulo em vida. A chegada de José Feliciano — Juca Passarinho — desloca o equilíbrio cativo daquele espaço. O que se lê daí em diante é menos uma história de amor do que a orquestração trágica de uma linhagem: Lucas Procópio, João Capistrano, a filha que não era o filho homem esperado, o tempo que não volta.

O que o romance faz com o leitor

A prosa não anda em linha reta. O narrador não sabe tudo. A cronologia dobra. Quem vem de Uma Vida em Segredo, novela de linguagem mais direta, costuma estranhar o estilo: aqui a forma é barroca, quase de ópera séria, com abertura, recitativo e clímax. Autran Dourado escreveu como quem acredita que cada história exige o próprio jeito de ser contada. A mansão erguida por João Capistrano — a “ópera” no sentido latino de obra — pretende a eternidade e entrega o sufoco.

O romance integra uma trilogia familiar com Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992), livros posteriores que narram eventos anteriores aos de 1967. Não é preciso lê-los antes. Ópera dos Mortos se sustenta sozinho, e muitos leitores o encontram como primeiro contato com Duas Pontes, a cidade inventada que atravessa a ficção do autor.

Para quem é este livro

Serve a quem já tem algum fôlego de romance brasileiro moderno e aceita uma leitura que aperta o peito. Não é o título certo para quem busca página virada a cada capítulo. É o título certo para quem quer entender por que Autran Dourado ocupa um lugar à parte: entre o clássico quando quer a contenção de um Graciliano e o barroco quando o tema pede excesso. A edição HarperCollins, com prefácio de Itamar Vieira Júnior, recolocou o livro em circulação para um público que o tinha perdido de vista nas estantes da Rocco e do Círculo do Livro.

Como ler sem se perder

Vale prestar atenção às vozes secundárias e aos objetos — relógio, sobrado, silêncio de Quiquina — porque a casa é personagem. O interior mineiro não está ali como paisagem: é pressão. Quem termina o livro com a sensação de ter saído de um recinto fechado leu o que o autor quis. Quem procura só o “o que aconteceu” pode achar a porta estreita. A recompensa está na carpintaria: cada capítulo medido, cada volta da família Honório Cota ecoando a anterior.

Se a pergunta for por onde começar a obra de Autran Dourado quando se quer o livro que a crítica aponta como centro, a resposta é esta edição. Depois, o caminho natural é voltar no tempo da família ou seguir para as novelas e os contos. O sobrado, de qualquer modo, não se esquece fácil.

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