A primeira frase que Autran Dourado guardou da infância foi um exercício de menino: “Paulo tinha uma bola”. Décadas depois, o mesmo artesão da frase ganharia o Prêmio Camões, o Jabuti e o Machado de Assis, e veria Ópera dos Mortos entrar na Coleção de Obras Representativas da Unesco. Ainda assim, o romancista de Patos de Minas continua sendo procurado por uma pergunta teimosa: como um dos maiores ficcionistas brasileiros do século XX segue tão pouco lido fora das salas de aula e das estantes de iniciados?
Ele construiu, livro a livro, a cidade imaginária de Duas Pontes, um interior mineiro onde famílias se decompõem, relógios param e o ouro do século XVIII ainda assombra o sobrado. Quem busca o nome hoje quer o retrato da pessoa, o mapa da obra e um jeito honesto de começar a leitura — sem altar nem ficha enciclopédica.
Quem foi Autran Dourado
Waldomiro Freitas Autran Dourado nasceu em Patos de Minas, em 18 de janeiro de 1926, filho de juiz, e passou a infância em Monte Santo de Minas e São Sebastião do Paraíso. Aos 17 anos foi para Belo Horizonte. Lá cursou Direito e Jornalismo, trabalhou como taquígrafo e jornalista — inclusive no Estado de Minas e na Câmara Municipal — e estreou em livro ainda jovem. A formação jurídica não o transformou em autor de tribunal: deu-lhe, no máximo, o gosto pela precisão da palavra e pela estrutura.
Em 1954 mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade em que viveria até a morte, em 30 de setembro de 2012. O deslocamento importou. O próprio autor disse, em entrevista, que só no Rio começou a trabalhar para “esquecer” o universo mineiro dos primeiros livros, Teia (1947) e Sombra e Exílio (1950), e reencontrá-lo de outro jeito — íntimo e brasileiro ao mesmo tempo. Foi o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino quem o apontou como o responsável por universalizar a mineiridade: Minas vista de fora, como Ítaca só aparece depois que se deixa Ítaca.
O gabinete de JK e o ofício de escrever
Antes da literatura consagrada, Autran Dourado esteve perto do poder. Em Minas, integrou o gabinete de Juscelino Kubitschek quando JK era governador. No Rio, foi secretário de imprensa da Presidência da República no governo Kubitschek. A intimidade com o presidente — ele chegou a descrever a cena inusitada de “despachar” com JK no banheiro — virou matéria do livro de memórias Gaiola aberta (2000), em que o jornalista e o romancista se olham de frente.
Essa passagem pública não o transformou em memorialista de palácio. Serviu, sobretudo, para afastar e depois devolver o material mineiro com outra distância. O escritor que saiu do interior para a capital federal voltou à fazenda, ao sobrado e à família decadente como quem já tinha visto o país inteiro.
Houve também uma militância discreta pelo ofício. Autran Dourado defendeu a profissionalização do escritor e os direitos autorais, e deixou ensaios raros entre ficcionistas brasileiros: Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976) e Breve manual de estilo e romance (2003). Neles, o romance aparece como trabalho de marceneiro — medida de capítulo, palavra exata, leitura anual de Machado de Assis, um poema antes de escrever. Preferia Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto.
Duas Pontes: a cidade que não está no mapa
O centro da obra é uma cidade inventada. Duas Pontes reaparece em vários romances, em geral narrados por João da Fonseca Nogueira — às vezes João Fonseca Ribeiro —, uma espécie de alter ego do autor. Ali transitam gerações da família Honório Cota, do apogeu da mineração até um presente já gasto. Não é regionalismo de cor local. O interior mineiro vira palco de morte, solidão, incompreensão, loucura e crime, com linguagem obsessivamente trabalhada e um barroco que deve tanto a Minas quanto à Espanha.
A influência declarada de Faulkner está nessa recorrência: os mesmos temas e personagens voltam, como arabescos, sem virar repetição preguiçosa. Há também Joyce, Stendhal, Goethe e Flaubert — o mot juste, o autor invisível na obra, a estrutura pensada antes da primeira linha. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Autran Dourado disse que escrever não dava prazer, era “uma fatalidade”: a pessoa é destinada à literatura, e não o contrário.
Uma exceção geográfica importa. A Barca dos Homens (1961), primeiro livro seu traduzido para outro idioma e eleito o melhor do ano pela União Brasileira de Escritores, se passa numa ilha do sul do Brasil, fora de Duas Pontes. O resto do ciclo, porém, insiste no mesmo território inventado — prova de que o autor não colecionava cenários, trabalhava um único mundo até o osso.
Obras, prêmios e o paradoxo da leitura
São mais de vinte livros entre romances, novelas, contos, ensaios e memórias. A crítica costuma destacar um núcleo:
- Uma Vida em Segredo (1964), novela que o próprio autor tinha como predileta, depois adaptada ao cinema por Suzana Amaral;
- Ópera dos Mortos (1967), o romance mais célebre, escolhido pela Unesco para a coleção de obras representativas da literatura universal, com prefácio de Itamar Vieira Júnior na edição recente;
- O Risco do Bordado (1970), Prêmio Pen Club do Brasil, memória afetiva de Duas Pontes;
- Os Sinos da Agonia (1974), recriação do mito de Fedra e Hipólito em Vila Rica, adotado em exame de agregação das universidades francesas;
- As Imaginações Pecaminosas (1981), Prêmio Goethe e Prêmio Jabuti na categoria de contos, crônicas e novelas.
Em 2000 veio o Camões, o maior prêmio da língua portuguesa. Em 2008, o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. A lista de honrarias é longa e, no entanto, o nome continua a circular mais na crítica, na universidade e entre leitores teimosos do que nas listas de mais vendidos. Esse descompasso não é defeito de marketing: é o preço de uma prosa que pede atenção, relê o mesmo mundo e recusa o atalho.
Quem quiser um retrato mais largo da literatura brasileira contemporânea e clássica encontra, no mesmo recorte, vozes mineiras como a de Conceição Evaristo e a de Adélia Prado — cada uma com outro projeto, outra língua, outro destino de leitura. Autran Dourado ocupa o flanco do romance de carpintaria, da família como ruína e de Minas como forma, não como cartão-postal.
Como começar a ler Autran Dourado
Não existe porta única. Quem quer a obra-prima crítica começa por Ópera dos Mortos: Rosalina no sobrado, a empregada muda Quiquina, os relógios parados e a chegada de Juca Passarinho. Quem prefere uma novela mais direta, de linguagem mais limpa, entra por Uma Vida em Segredo e a figura de Biela. Quem busca o mito e o século XVIII mineiro vai a Os Sinos da Agonia. Quem quer a memória da cidade natal, o regresso e o bordado da lembrança, lê O Risco do Bordado.
O acervo pessoal — cerca de cinco mil volumes e milhares de documentos — está no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, em Belo Horizonte. É um destino físico para quem já leu o ciclo e quer ver o laboratório: cartas, prêmios, fotografias, o rastro de um escritor que tratava o romance como ofício, não como inspiração. Autran Dourado morreu no Rio, em Botafogo, aos 86 anos. A obra, essa, continua no interior que ele inventou para não precisar voltar.





