Os dez amigos de Freud parte de um gesto quase mundano: em 1906, o editor vienense Hugo Heller pediu a personalidades da cultura austríaca que indicassem “dez bons livros”. Sigmund Freud respondeu que não listaria os maiores da literatura universal nem os prediletos oficiais, e sim livros com os quais mantinha uma relação de amizade. Sérgio Paulo Rouanet pegou essa lista e construiu, em 2003, pela Companhia das Letras, um painel da Viena da belle époque, da psicanálise e da leitura como convívio.
Os “amigos” são dez autores de países diferentes: o holandês Multatuli; os ingleses Thomas Macaulay e Rudyard Kipling; os franceses Émile Zola e Anatole France; os suíços Gottfried Keller e Conrad Ferdinand Meyer; o austríaco Theodor Gomperz; o russo Dmitri Merejkovski; o americano Mark Twain. Rouanet examina cada um, compara a lista de Freud com as de Arthur Schnitzler, Hermann Hesse e outros consultados, e ainda arrisca uma “psicoficção”: um monólogo interior que simula associações próximas às da autoanálise freudiana.
Por que a lista importa
A anedota bibliográfica vira método. Em vez de repetir o cânone que Freud “deveria” ter escolhido, Rouanet pergunta o que aqueles livros faziam na cabeça de quem inventava a psicanálise. Moacyr Scliar observou, à época, que a ideia era notável: partir de uma lista para montar um vasto painel cultural. A Folha registrou o mesmo impulso — investigar motivações ideológicas e inconscientes da escolha, não montar ranking de gosto.
Há coincidências que o ensaio não trata como milagre. Multatuli encosta nas raízes sexuais da histeria; Kipling descreve um ataque histérico; France atribui ao sonho e ao passado sepultado uma função próxima da psicanálise; Merejkovski trabalha o andrógino e seu Leonardo alimentou o texto de Freud sobre o artista. O livro não força a tese. Mostra o arquivo e deixa o leitor ver a rede.
Para quem este livro foi feito
Rouanet evitou jargão de escola. O público declarado são “todos os que veem nos livros bons amigos” — historiadores, psicanalistas, leitores de literatura comparada e quem quer Viena além do cartão-postal. São dois tomos na edição de referência, 864 páginas no conjunto, lançados em 16 de maio de 2003. Em 2004, a obra recebeu o Prêmio Jabuti, o reconhecimento mais visível da carreira ensaística do autor no mercado brasileiro.
- Ponto de partida: a carta de Freud a Hugo Heller em 1906
- Dez autores, várias línguas, um retrato de Viena e da leitura burguesa da época
- Comparação com outras listas do mesmo inquérito cultural
- Escrita acessível, com um experimento de “psicoficção” no fecho interpretativo
Como ler os dois tomos
Não é obrigatório conhecer a obra completa de cada “amigo”. O ensaio apresenta autor, livro escolhido e o clima intelectual em que Freud os frequentava. Dá para ler por capítulos, um amigo de cada vez, como se fossem visitas. O ganho está no conjunto: a psicanálise deixa de parecer doutrina caída do céu e volta a ser conversa de leitor voraz, com gosto de época, lacunas e preferências que hoje surpreendem.
Quem conhece Rouanet só pela lei ou pelo Iluminismo encontra aqui o tradutor de Benjamin e o amigo declarado da psicanálise em outra chave: a da erudição literária. A edição da Companhia das Letras permanece a referência em português. Vale tratá-la como uma obra só, não como coleção de volumes avulsos.
Perguntas frequentes
Os dez amigos de Freud é biografia de Freud?
Não. É ensaio sobre uma lista de leituras e sobre o mundo cultural que a tornou possível. Freud está no centro, mas o objeto são os livros e os autores escolhidos.
Preciso ler os dez autores antes?
Não. Rouanet apresenta cada um. Ter lido Kipling, Twain ou Zola ajuda; a falta não impede o percurso.




