Riso e melancolia começa numa frase que o Brasil inteiro já ouviu e poucos desdobram. Nas primeiras linhas de Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis avisa que adotou forma semelhante à de Sterne e Xavier de Maistre e que escreveu o livro com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Sérgio Paulo Rouanet pega o aviso ao pé da letra e pergunta: que forma é essa, de onde vem, quem mais a praticou — e o que ela faz com o tempo, o espaço e o eu.
A resposta do ensaio, publicado pela Companhia das Letras em 2007, é a forma shandiana, nome tirado de Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Características: hipertrofia da subjetividade; digressão e fragmentação; tratamento especial do tempo e do espaço; interpenetração de riso e melancolia. Machado, no prólogo da terceira edição, acrescenta Almeida Garrett à lista dos inspiradores — todos viajantes, observa. Rouanet inclui ainda Diderot. A linhagem fica assim: Sterne, Xavier de Maistre, Diderot, Garrett, Machado.
O que o livro entrega além da teoria
Não é glossário de narratologia. Rouanet acompanha o funcionamento da forma em cada autor, com o humor e a erudição que já marcaram os ensaios de Iluminismo, agora voltados à prosa. O ganho prático para o leitor brasileiro é imediato: Brás Cubas deixa de parecer capricho isolado de gênio nacional e entra numa conversa europeia que Machado conhecia, citava e desviava. O desvio, claro, é o que importa: o defunto autor do Rio não copia Sterne, filia-se e displace.
Há 256 páginas na edição de 28 de março de 2007. É o volume mais curto entre os grandes ensaios do autor na Companhia das Letras — e, hoje, um dos mais fáceis de encontrar em livraria. Quem chega a Rouanet pela cadeira 13 da ABL ou pela série da correspondência de Machado encontra aqui o crítico literário em estado puro, sem o expediente da lei e sem a polêmica do incentivo fiscal.
Para quem vale a pena
Leitores de Machado que cansaram da ficha escolar; estudantes de literatura comparada; quem lê Sterne ou Diderot e quer o fio até o Brás Cubas; o público que prefere ensaio a manual. O texto é claro. A erudição não trava a frase. Rouanet escreve como quem já ensinou e já traduziu: explica o suficiente, não infantiliza.
- Ensaio de 2007 sobre a forma shandiana em cinco autores
- Porta de entrada literária para a obra de Rouanet, ao lado dos livros de Iluminismo e de Freud
- Leitura direta para quem quer entender o “riso” e a “melancolia” de Machado como técnica, não como temperamento
- Edição da Companhia das Letras, 256 páginas, ainda em circulação
Como ler ao lado de Machado
O caminho mais fértil é reler o início de Memórias póstumas — o defunto que começa pelo fim — e só então abrir o ensaio. A forma shandiana deixa de ser rótulo e vira instrumento: cada digressão, cada capricho de narrador, cada salto temporal ganha parentesco e diferença. Quem quiser ir além pode cruzar com a coordenação, na ABL, da Correspondência de Machado de Assis: o acadêmico que editou cartas é o mesmo que descreveu a linhagem da prosa.
Riso e melancolia não compete com os tratados de razão. Completa o retrato. O diplomata que defendia o universalismo também sabia ler o particular machadiano — e recusava a ideia de que cultura brasileira só existe quando se fecha sobre si.
Perguntas frequentes
Riso e melancolia é um livro sobre humor?
É um livro sobre forma literária. O riso entra como técnica, misturado à melancolia, não como coletânea de piadas de Machado.
Preciso ter lido Tristram Shandy?
Ajuda, mas não é porta fechada. Rouanet apresenta Sterne o bastante para o leitor acompanhar o argumento a partir de Machado.




