Cantos populares do Brasil saiu em Lisboa em 1883 e permanece o volume em que Sílvio Romero mais se aproxima da voz cantada do país. A coletânea reúne material colhido sobretudo em Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro, dividido em três séries: romances e xácaras, reinados e cheganças, e versos gerais. A edição Principis, de 320 páginas, republicou o texto integral para o leitor atual, em português, com o recorte original de canções narrativas, autos, janeiras e versos soltos.
O livro não é cancioneiro de palco. É arquivo. Romero viajou a Lisboa para publicá-lo, com introdução e notas de Teófilo Braga — parceria que depois azedou no volume dos contos, mas que nesta obra ainda aparece como colaboração luso-brasileira típica da década de 1880. Quem abre o volume hoje encontra o Brasil oral antes do disco, do rádio e do modernismo: narrativas de origem portuguesa já aclimatadas, peças dramáticas populares e a massa de versos que circulava sem autor.
Como o volume está organizado
A primeira série, romances e xácaras, guarda canções narrativas. A segunda, reinados e cheganças, reúne peças de calendário e de representação — autos, janeiras, cortejos. A terceira espalha versos gerais. Essa divisão importa para o uso: o professor de literatura popular, o pesquisador de música tradicional e o leitor de poesia oral não encontram o mesmo capítulo. O índice antigo ainda funciona como mapa.
A edição Principis, lançada em 2021, não pretende ser edição crítica de aparato universitário. Pretende devolver o texto ao mercado em formato acessível. Para quem precisa da fonte, isso já resolve o problema prático de achar o livro. Para quem precisa de notas atualizadas sobre cada tipo de canto, o volume pede complemento em estudos posteriores de folclore e etnomusicologia.
Para quem este livro trabalha melhor
- leitores de cultura popular e de poesia oral brasileira;
- professores que ensinam romanceiro, auto e calendário festivo;
- músicos e pesquisadores que buscam letra antiga com procedência;
- estudantes que querem ver, no original, o que Romero chamava de elemento popular na literatura.
Por que ainda comprar um cancioneiro de 1883
Porque muita coisa que o século XX chamou de “folclore brasileiro” já estava classificada aqui, com o vício e a virtude da época. A virtude é o ouvido: Romero coletou onde a crítica da Corte não ia. O vício é o mesmo de toda a obra dele — a grade racial e evolucionista que interpreta o material. Ler os Cantos é ouvir o povo do oitocentos e, ao mesmo tempo, ouvir o intelectual que organizou essa escuta. Os dois sons estão no volume. Separá-los é trabalho do leitor, não da capa.



