Quem busca Sílvio Romero hoje quase sempre chega por uma lista de vestibular ou pela cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. O que a lista não diz é o método: ele queria explicar a literatura brasileira como se fosse história natural de um povo, misturando crítica, folclore, raça e sociologia numa mesma briga.
Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em Lagarto, Sergipe, em 21 de abril de 1851, e morreu no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1914. Entre esses dois pontos, o sergipano da Faculdade de Direito do Recife virou o crítico mais barulhento do fim do Império e da Primeira República. Fundou cadeira na ABL, lecionou filosofia no Colégio Pedro II, reuniu cantos e contos populares e deixou em História da literatura brasileira o livro pelo qual ainda é chamado quando o assunto é historiografia literária nacional.
De Lagarto ao Recife: a formação de um polemista
Romero era filho do comerciante português André Ramos Romero e de Maria Joaquina Vasconcelos da Silveira. A origem sergipana importa porque ele nunca se apresentou como intelectual da Corte. Levou para o Rio a agressividade de quem tinha saído da província disposto a corrigir o centro.
Entre 1868 e 1873 cursou a Faculdade de Direito do Recife, no mesmo ambiente em que Tobias Barreto consolidava o que o próprio Romero batizou de Escola do Recife. Ali circulavam o evolucionismo de Herbert Spencer, o determinismo de Hippolyte Taine e o combate ao romantismo sentimental. Ainda estudante, publicou crítica em jornais pernambucanos. Em 1875 foi eleito deputado provincial por Estância, em Sergipe. A política entrou cedo, mas a arma principal continuou sendo o ensaio.
Os dois primeiros livros saíram em 1878: A filosofia no Brasil, ataque ao espiritualismo e ao positivismo acadêmico do Rio, e Cantos do fim do século, tentativa de poesia filosófica da terceira geração romântica, na linha de Victor Hugo. A carreira de verso foi curta. Em 1883, com Últimos harpejos, ele encerrou o ciclo poético e concentrou-se na crítica, no folclore e na história literária.
Como Sílvio Romero pensava a literatura brasileira
Romero recusava tratar o poema ou o romance como objeto isolado. Queria o autor dentro da sociedade, da raça, do meio e da evolução das ideias. Por isso sua história literária parece, em muitos trechos, uma enciclopédia do Brasil: filosofia, etnografia, política e literatura entram no mesmo mapa. A Introdução à história da literatura brasileira, de 1882, antecipou o projeto maior. Em 1888 veio a História da literatura brasileira em dois volumes, depois reeditada e ampliada ao longo do século XX.
O método tinha consequência prática. Ele lia jornal, folheto, canto anônimo e peça de teatro com o mesmo apetite com que lia o cânone. Literatura, para ele, era tudo o que um povo escrevia e cantava. Isso o tornou pioneiro da historiografia literária nacional e, ao mesmo tempo, um crítico difícil de usar hoje sem filtro: o evolucionismo spenceriano e as teses raciais atravessam a análise.
O estilo público era o da polêmica. Romero escreveu contra Teófilo Braga, que alterou a ordem de capítulos de Contos populares do Brasil na edição lisboeta; contra Lafayette Rodrigues Pereira, que saiu em defesa de Machado de Assis depois do estudo comparativo de 1897; e contra José Veríssimo, a quem acusou de diminuir Tobias Barreto em Zéverissimações ineptas da crítica, de 1909. Quem procura só o “pai da história literária” encontra também um homem que usava o panfleto como instrumento de cátedra.
- A filosofia no Brasil (1878), ensaio de combate ao meio intelectual da Corte;
- História da literatura brasileira (1888), a obra-matriz da historiografia literária nacional;
- Cantos populares do Brasil (1883), coletânea lisboeta de romances, xácaras e versos gerais;
- Contos populares do Brasil (1885), narrativas de origem europeia, indígena, africana e mestiça;
- Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira (1897), o livro que inflamou a defesa de Machado.
Folclore, cantos e a matéria viva do povo
Antes de virar ficha de crítico, Romero percorreu o material oral. Viajou a Lisboa em 1883 para publicar Cantos populares do Brasil, com prólogo e notas de Teófilo Braga. A coletânea junta romances e xácaras de origem portuguesa, reinados e cheganças, autos e janeiras, além de versos gerais colhidos sobretudo em Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. O gesto é de coletor e de teórico: ele queria provar que a cultura popular sustentava a literatura culta.
Os Contos populares do Brasil, de 1885, seguem a mesma lógica. A disputa com Braga, que Romero considerou interferência indevida na edição portuguesa, gerou os panfletos Uma esperteza (1887) e Passe recibo (1904). O episódio mostra o caráter e o método: a cultura popular não era enfeite. Era prova. Décadas depois, leitores de Luís da Câmara Cascudo ainda reconhecem nesse trabalho um antecedente direto da pesquisa folclórica brasileira, ainda que o vocabulário racial de Romero distancie os dois nomes.
Cátedra, política e a cadeira 17 da ABL
No Rio de Janeiro, Romero lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910, depois de defender a tese Interpretação filosófica na evolução dos fatos históricos. Também ensinou filosofia do direito. Em 1891 escreveu sobre ensino no Diário de Notícias, então dirigido por Rui Barbosa, e foi nomeado para o Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. A República o encontrou já formado: defendeu o parlamentarismo nas Cartas ao conselheiro Ruy Barbosa (1893) e, entre 1900 e 1902, foi deputado federal pelo Partido Republicano, relator-geral da comissão que revisava o Código Civil.
Em 28 de janeiro de 1897, na sessão de instalação da Academia Brasileira de Letras, fundou a cadeira nº 17 e escolheu como patrono Hipólito da Costa. Mais tarde recebeu Euclides da Cunha. A amizade tem um capítulo concreto: Romero foi dos primeiros intelectuais a se ocupar de Antônio Conselheiro, a quem via como missionário vulgar cercado de fanáticos; Euclides, enviado a Canudos, reescreveu aquele enigma em Os Sertões. Entre 1911 e 1912 Romero viveu em Juiz de Fora, deu aulas, prefaciou livros e publicou nos jornais da cidade. Voltou ao Rio, onde morreu em 1914. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
O que ainda vale ler — e o que pede ressalva
Romero permanece necessário por três razões objetivas. Primeiro, organizou um mapa da literatura brasileira quando o país ainda discutia se tinha literatura própria. Segundo, levou o canto e o conto populares para dentro da crítica, o que deslocou o cânone para baixo, rumo à voz anônima. Terceiro, deixou um arquivo de polêmicas que revela o clima intelectual da passagem do Império à República: Recife contra o Rio, evolucionismo contra positivismo, província contra Corte.
A quarta razão é a mais incômoda e não pode ficar de fora. Parte da obra sociológica adotou o evolucionismo racial do século XIX, com teses de branqueamento e hierarquia entre grupos. Esse trecho não é detalhe lateral: atravessa a maneira como ele lia o Brasil. Quem o lê hoje para vestibular, concurso ou pesquisa de literatura brasileira precisa do mapa e da ressalva ao mesmo tempo. A homenagem automática empobrece o perfil. A leitura crítica, não.
Alfredo Bosi, na História concisa da literatura brasileira, ainda o coloca no eixo da crítica e da historiografia do oitocentos. Isso não limpa o vocabulário racial. Só confirma que o nome continua sendo passagem obrigatória para quem quer entender como o Brasil inventou a própria história literária.
Perguntas frequentes sobre Sílvio Romero
Quem foi Sílvio Romero?
Foi crítico, ensaísta, folclorista, professor, político e historiador da literatura brasileira, nascido em Lagarto em 1851 e morto no Rio de Janeiro em 1914. Fundou a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras.
Qual é a obra principal de Sílvio Romero?
A História da literatura brasileira, de 1888, é o livro mais associado ao seu nome. Os volumes de cantos e contos populares completam o retrato de quem via a literatura culta e a cultura oral como um só problema.
Qual a relação de Sílvio Romero com Euclides da Cunha?
Romero fundou a cadeira 17 da ABL e recebeu Euclides da Cunha. Os dois cruzaram o tema de Canudos: Romero escreveu cedo sobre Antônio Conselheiro; Euclides, no sertão, reviu o episódio em Os Sertões.




