Contos populares do Brasil é a coletânea em que Sílvio Romero trata o conto anônimo como documento da formação cultural do país, não como distração infantil. A primeira edição saiu em Lisboa em 1885, pela Nova Livraria Internacional; reedições brasileiras, como a da WMF Martins Fontes, devolveram o volume ao leitor contemporâneo. A proposta pública é clara: reunir histórias de origem europeia, indígena, africana e mestiça para mostrar o “corpo de tradições” que a literatura culta preferia ignorar.
Quem chega ao livro depois de Câmara Cascudo costuma se surpreender com a data. Romero estava coletando e classificando contos décadas antes de o folclore virar disciplina respeitada no Brasil. A edição Martins Fontes, de 225 páginas, traz esse repertório em português corrente de reimpressão, com o recorte que o próprio autor defendeu: o conto popular como prova da mestiçagem cultural, não como enfeite regionalista.
O que o leitor encontra
Há narrativas de origem portuguesa ao lado de matérias africanas e indígenas, além de versões já misturadas no uso brasileiro. Romero não se apresenta como autor das histórias. Apresenta-se como organizador e intérprete. Esse detalhe importa para quem compra o livro hoje: não é um romance de autoria única. É um arquivo comentado. A leitura serve a quem pesquisa oralidade, a quem ensina literatura infantil e popular com fonte primária, e a quem quer ouvir o Brasil do século XIX fora do cânone da Corte.
A briga editorial com Teófilo Braga, que alterou a ordem de capítulos e acrescentou materiais na edição portuguesa, virou parte da biografia da obra. Romero considerou a intervenção uma esperteza e respondeu em panfleto. O episódio ajuda a entender o volume: ele não era coletânea solta. Tinha tese, arranjo e ciúme de método.
Para quem vale a pena
- professores que precisam de fonte primária de conto popular brasileiro;
- estudantes de letras, antropologia e história da cultura;
- leitores de folclore que querem o antecedente de Cascudo no original;
- pesquisadores da mestiçagem cultural no Brasil oitocentista.
Limites honestos da edição atual
Reimpressões contemporâneas variam em aparato crítico. A Martins Fontes não substitui uma edição acadêmica com notas atualizadas sobre cada tipo de conto. Também não apaga o quadro racial com que Romero interpretava a mistura de origens. O comprador que busca só “histórias bonitas do folclore” pode tropeçar no vocabulário e na classificação da época. Quem busca a fonte — o repertório e o gesto de coleta — encontra um dos volumes mais citados da cultura popular brasileira do século XIX, ainda disponível em papel.



