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Triângulo das águas

Livro
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Três novelas de Caio Fernando Abreu que lhe valeram o primeiro Jabuti, em 1984, sob o signo da água.

Triângulo das águas rendeu a Caio Fernando Abreu o primeiro Prêmio Jabuti, em 1984, na categoria de contos, crônicas e novelas. Publicado em 1983, reúne três histórias — Dodecaedro, O marinheiro e Pela noite — pensadas como um tripé. O próprio autor considerava este o mais atípico dos seus livros: aceitou escrevê-lo “meio às cegas”, correndo risco de estilo e de fôlego.

Quem chega depois de Morangos mofados encontra outra temperatura. Lá, a prosa corta. Aqui, ela transborda. A Enciclopédia Itaú Cultural nota o jorro de linguagem de propósito, como se o texto imitasse água: signo, sentimento, inconsciente, lavagem e arrasto. Não é livro para quem quer só o conto relâmpago.

As três águas

A construção passa pela astrologia dos signos de água. As novelas — Caio preferia chamá-las também de noturnos — se apoiam em Peixes, Escorpião e Câncer: emoção, regeneração, afetividade. Não é tratado esotérico. É andaime. Pela noite, em particular, costuma ser lida em estudos sobre o autor como um dos primeiros textos da literatura brasileira a tratar da Aids, ainda que o tema entre por insinuação, sintoma e medo, não por cartilha.

Manoela Sawitzki, no posfácio da edição atual, fala da água que lava impurezas e células mortas, e de um Caio capaz de se esgotar na entrega do texto. Isso bate com o que o livro pede do leitor: fôlego. Há beleza, excesso, confissão e uma vontade de mudança que o autor carregava em toda a obra, só que aqui sem a concisão que tornou Morangos mofados mais fácil de indicar.

Para quem vale o desvio

  • Quem já leu os contos curtos e quer o Caio mais lírico, longo e arriscado.
  • Leitores interessados na Aids na literatura brasileira dos anos 1980, com o cuidado de que o tema não é tratado como dossiê.
  • Quem tolera prosa de fluxo, astrologia como estrutura e noite como território.
  • Quem busca o livro do primeiro Jabuti, não só o livro mais famoso.

Lugar entre os outros títulos

Cronologicamente, Triângulo das águas vem logo depois de Morangos mofados. Em reputação pública, fica um degrau abaixo do volume de 1982 e do romance de Dulce Veiga — e isso é utilidade, não demérito. É o livro em que Caio testa o que a água faz com a frase: dilata, arrasta, recusa o corte seco. Quem o lê só “porque ganhou Jabuti” pode tropeçar no excesso. Quem o lê para entender o método do autor sai com uma chave que os contos curtos não entregam sozinhos.

A Companhia das Letras relançou o título em dezembro de 2023, com 224 páginas, capa de Elisa von Randow e posfácio de Manoela Sawitzki. É a edição a procurar em livraria e na Amazon. Edições antigas da L&PM ainda circulam em sebo; para texto de entrada, a edição nova evita o extravio de um livro que já esteve anos fora de catálogo.

Como abordar a leitura

As três peças se sustentam separadas, mas o livro pede as três. Começar por Pela noite é tentador por causa da fama crítica; começar por Dodecaedro respeita a ordem do volume. Em qualquer caso, vale ler com paciência de novela, não de conto de ônibus. Se a primeira dezena de páginas parecer “demais”, isso faz parte do risco que Caio assumiu.

Para uma trilha, o trio natural é Morangos mofados (a voz), Triângulo das águas (o excesso) e Onde andará Dulce Veiga? (o romance). Os três cobrem o essencial da autoridade pública de Caio Fernando Abreu sem precisar da obra completa de uma vez.

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Morangos mofados
Morangos mofados
Coletânea de 1982 com dezoito contos de Caio Fernando Abreu sobre cidade, desejo e o fim da ditadura.
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Onde andará Dulce Veiga?
Onde andará Dulce Veiga?
Último romance de Caio Fernando Abreu: um jornalista procura uma cantora desaparecida na São Paulo noturna.
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Romance de estreia de Caio Fernando Abreu, escrito aos dezenove anos, sobre o umbral entre adolescência e vida adulta.
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