Há frases de Caio Fernando Abreu que circulam como se tivessem sido escritas ontem — recorte de carta, de conto, de crônica — e o autor morreu em 1996, aos 47 anos, em Porto Alegre. Caio F., como assinava as cartas, virou atalho para quem busca a literatura brasileira dos anos 1970 e 1980 sem tom de monumento: desejo, medo, cidade grande, Aids e a ditadura militar atravessando o texto sem virar panfleto.
Quem digita o nome quase sempre quer a mesma coisa: saber se o autor de Morangos mofados é só citação solta ou se existe obra atrás da frase. Existe. Ela começa em Santiago do Boqueirão, passa pela primeira redação da revista Veja, pelo sítio de Hilda Hilst e pelo exílio na Europa, e chega a três Prêmios Jabuti e a um romance de cantora desaparecida que ainda puxa leitor novo.
Quem foi Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão, no interior do Rio Grande do Sul. Foi o primogênito de Zaél Menezes Abreu e Nair Loureiro de Abreu. Em 1963 a família mudou-se para Porto Alegre. Aos dezoito anos publicou o conto O Príncipe Sapo na revista Cláudia e, no mesmo período, começou o romance que viria a ser Limite branco.
Entrou nos cursos de Letras e de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e não concluiu nenhum dos dois. Na UFRGS foi colega de João Gilberto Noll. O jornalismo pesou mais: em 1968, após concurso nacional, integrou a primeira redação da revista Veja e passou a viver em São Paulo. Depois trabalhou como pesquisador e redator em Manchete e Pais e Filhos, no Rio de Janeiro, e escreveu para Zero Hora, Correio do Povo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, além das revistas Nova e Pop.
A Enciclopédia Itaú Cultural descreve uma prosa autoficcional, com personagens sombrios e atmosfera política da época. Não é biografia disfarçada de romance o tempo todo; é um escritor que misturou vida e invenção até o leitor perder a fronteira — e isso, no Brasil da ditadura e da epidemia de HIV, não era pose.
Ditadura, Casa do Sol e o exílio
No fim dos anos 1960, perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social, Caio refugiou-se no sítio da escritora Hilda Hilst, em Campinas, a Casa do Sol. No começo da década de 1970 atravessou um período de deslocamento: chegou a ser preso em Porto Alegre por porte de drogas, segundo biografias de referência, e se exilou na Europa. Fontes públicas citam estadias em Londres e Estocolmo; a Wikipédia em português acrescenta Espanha, Países Baixos e França. Lavar pratos para se sustentar no exterior virou trecho recorrente do relato biográfico — e, no texto, virou também o tom de quem não romantiza a fuga.
Voltou a Porto Alegre em 1974 e retomou a literatura com mais fôlego. Mudou-se para o Rio em 1983 e para São Paulo em 1985. A convite da Maison des Écrivains Étrangers et Traducteurs, esteve de novo na França em 1994 e regressou no mesmo ano. A geografia da vida dele não é enfeite: São Paulo, Porto Alegre e o deslocamento europeu reaparecem nos contos como cenário de insônia, bar, quarto alugado e gente que não cabe no expediente.
Abreu escreveu abertamente sobre desejo homoafetivo em plena ditadura militar. Isso não o transforma em “autor de tese”. Transforma o corpo, o sexo e o medo em matéria literária no mesmo nível da cidade e da política — o que explica por que a obra voltou com força entre leitores jovens décadas depois da morte.
Contos, teatro, Jabuti e a cantora desaparecida
O primeiro romance, Limite branco, saiu no começo dos anos 1970 — a Companhia das Letras data a estreia em 1971 — e já traz a angústia diante do que vem depois da adolescência. Em seguida vieram os livros de contos que firmaram o nome: Inventário do irremediável (1970), O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977). O ovo apunhalado sofreu cortes da censura e ainda assim recebeu menção honrosa no Prêmio Nacional de Ficção.
Morangos mofados, de 1982, é o livro que a maior parte dos leitores procura primeiro. São dezoito contos de uma geração entre o sufoco da ditadura e a redemocratização, com destaque para Sargento Garcia, premiado pela revista Status em 1980. A revista IstoÉ elegeu o volume o melhor livro de 1982. Décadas depois, a edição da Companhia das Letras entrou em lista de vestibular da Unicamp — sinal de que o “livro cult” virou também porta de entrada escolar.
O reconhecimento institucional veio em sequência. Caio Fernando Abreu venceu o Prêmio Jabuti três vezes, na categoria de contos, crônicas e novelas: Triângulo das águas (1984), Os dragões não conhecem o paraíso (1989) e Ovelhas negras, publicado em 1995. Em 1989, com Luiz Artur Nunes, levou o Prêmio Molière pelo melodrama A maldição do Vale Negro. Em 1991, Onde andará Dulce Veiga? — último romance, de 1990 — recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor romance do ano. A história de um jornalista à procura de uma cantora dos anos 1960 foi depois adaptada para o cinema.
No teatro, além de A maldição do Vale Negro, há peça como Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, premiada em 1975. A Enciclopédia Itaú Cultural registra ainda Aqueles Dois entre os trabalhos ligados ao autor. A obra dramática conversa com os mesmos temas da prosa: solidão, desejo, ameaça e o espaço doméstico como palco de medo.
Há um vínculo concreto com outra voz gaúcha já mapeada neste site: Caio assinou a apresentação do livro de poesia Meia Noite e Um Quarto, de Martha Medeiros. Não é coincidência de prateleira. É o mesmo eixo Porto Alegre–imprensa–livro que atravessou gerações diferentes de cronistas e ficcionistas.
- Imprensa: Veja, Manchete, Zero Hora, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo.
- Livros de entrada: Morangos mofados, Onde andará Dulce Veiga? e Triângulo das águas.
- Prêmios públicos: três Jabuti, Molière e APCA de romance.
- Editora atual de referência: Companhia das Letras, que reuniu a prosa breve em Contos completos (2018).
- Alcance: traduções publicadas na França, Inglaterra, Holanda, Bélgica, Itália e Alemanha, segundo a Global Editora.
As cartas no Estadão e o que ficou depois de 1996
Em 1993 passou a escrever crônicas semanais para O Estado de S. Paulo. No ano seguinte, nas três Cartas para além do muro, declarou publicamente ser portador do vírus HIV. Não foi um desabafo escondido em livro póstumo: foi texto de jornal, no mesmo espaço em que o país lia política e cultura. A série virou documento literário e político porque recusava o estigma sem transformar a doença em único assunto da biografia.
Voltou a viver com os pais em Porto Alegre e, segundo relatos biográficos, dedicou parte do tempo à jardinagem, cuidando de roseiras. Morreu em 25 de fevereiro de 1996, no Hospital Moinho de Vento. Os restos mortais estão no Cemitério São Miguel e Almas. A casa da Rua Doutor Oscar Bittencourt, no bairro Menino Deus — onde passou os últimos anos — foi demolida em junho de 2022, apesar de mobilização para preservá-la. Manuscritos, recortes e originais foram para o Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS.
Em 1991, no Roda Viva, Caio entrevistou Rachel de Queiroz. Quando a romancista rememorou o apoio ao golpe de 1964 e a amizade com Castelo Branco, ele se declarou constrangido e encerrou a participação. O episódio, documentado pelo Instituto Moreira Salles, não define a obra — mas mostra o lugar público que ele ocupava: jornalista, escritor e interlocutor que não fingia cordialidade diante da ditadura.
Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.
A frase circula à solta. Serve melhor quando devolve o leitor ao livro, não ao cartão de citação. O documentário Sobre Sete Ondas Verdejantes (2014), de Bruno Polidoro e Cacá Nazario, reuniu fragmentos da obra e depoimentos de gente próxima, como Maria Adelaide Amaral e Adriana Calcanhotto. A Companhia das Letras recolocou o catálogo em circulação com capas novas e posfácios. Caio Fernando Abreu não “voltou”: a prosa nunca saiu de vez; a internet só tornou visível o quanto ela ainda fala com quem vive cidade, desejo e medo no mesmo parágrafo.
Por onde começar a ler
Se a busca é pelo livro mais citado, Morangos mofados continua sendo a porta. Se a busca é por romance com trama, Onde andará Dulce Veiga? entrega investigação, São Paulo noturna e a ressaca das utopias. Se a busca é pelo Caio mais estranho e lírico, Triângulo das águas — o volume que ele considerava o mais atípico — junta três histórias sob o signo da água e rendeu o primeiro Jabuti. Quem quer o começo absoluto encontra o rapaz de dezenove anos em Limite branco.
Não é preciso ler na ordem cronológica. A prosa de Caio Fernando Abreu funciona por intensidade: um conto de cinco páginas pode bastar para decidir se aquela voz vai acompanhar o resto da estante. Os projetos abaixo aprofundam as obras que melhor explicam por que o nome ainda é procurado — e por que a frase que aparece no celular quase nunca conta a história inteira.





