Trinta e Oito e Meio é o primeiro livro de Maria Ribeiro. Saiu em 2015 pela Língua Geral, com ilustrações de Rita Wainer, e usa a idade no título como se fosse um endereço: a casa dos trinta, já virando outra coisa.
O que a estreia junta
A apresentação da edição descreve crônicas, reflexões e desabafos. O assunto recorrente, visível já no título, é a passagem do tempo. Maternidade entra ao lado de uma lista de coisas miúdas, da paixão por Paris ao gosto por novela, do orgulho ao medo do que vem depois. Rita Wainer desenha por cima desse diário. O livro não é só texto corrido: a ilustração faz parte do objeto, e a ficha da edição deixa isso na capa, com o crédito “ilustração de Rita Wainer” logo abaixo do nome da autora.
A Editora Record, anos depois, lembra que Trinta e Oito e Meio também saiu em Portugal. Isso separa a estreia de um impresso só carioca. Quem procura o livro no Brasil encontra a edição da Língua Geral, ISBN 978-85-601-6098-3, anunciada como primeira edição de 2015. Não é a mesma obra da Planeta nem a da Record. É o volume em que ela ainda se apresentava, nas entrevistas da época, com pudor de dizer que era escritora.
Por que a idade virou título
Em 2015 ela tinha 39 anos, caminhando para os 40. O “e meio” segura a conta no meio, sem arredondar para uma década redonda. A crônica, para ela, já funcionava assim na Tpm e no jornal: um fato pequeno abre uma conta maior. O livro aplica o mesmo gesto à própria idade. Não há trama. Há acúmulo de textos escritos nos anos anteriores, organizados como guia de viagem pela vida de uma atriz que, naquele ponto, já era Rosane de Tropa de Elite, Malvina da Record e apresentadora do Saia Justa.
O Observador, em 2016, acompanhou a ida dela a Portugal para apresentar o livro e registrou o incômodo de se chamar escritora. A frase de então era “meio escritora, meio atriz, meio realizadora”. Dez anos depois, no lançamento da Record, ela diria que esse pudor tinha caído. Ler a estreia é ler o momento anterior a essa frase.
Para quem vale a primeira, e não a terceira
Vale para quem quer a origem da escrita publicada, não o balanço dos 49 anos. Os temas de mãe, de tempo e de frivolidade salvando o dia grave já estão aqui, com o desenho de Rita Wainer e sem o prefácio de Anitta. Vale também para quem coleciona a crônica brasileira dos anos 2010 e procura o ponto em que uma atriz conhecida do cinema entra na estante com livro próprio.
Não é sequência de Tudo o que eu sempre quis dizer, mas só consegui escrevendo. É o livro de antes. Quem ler os três em ordem vê o mesmo olhar mudar de temperatura: primeiro a idade no título, depois a carta aos 18 anos, depois o aceite de que não se sabe se é bom, mas é teu. A estreia é o degrau em que isso ainda estava sendo ensaiado.



