Uma tragédia no Amazonas é o livro com que Raul Pompéia estreou, aos 17 anos, ainda aluno do Imperial Colégio de D. Pedro II. Ele próprio chamou o texto de ensaio literário. A ressalva importa. Não é O Ateneu em miniatura, nem um “pré-internato”. É uma narrativa de violência, ódio e vingança ambientada num sítio próximo a São João do Príncipe, no Rio Japurá, onde a lei do Estado chega fraca e a desforra pessoal ocupa o lugar da justiça.
A primeira edição saiu no Rio de Janeiro, pela Typ. Cosmopolita, em 1880. A recepção foi modesta, mas não nula. Capistrano de Abreu escreveu sobre o livro na Gazetinha, em fevereiro de 1882, e elogiou o traço do jovem autor: esculpe, desenha, já deitou caricatura. Victor Malin, no mesmo periódico, leu a estreia como ensaio magnífico e previu rivalidade com Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Araripe Júnior. A comparação era excesso de elogio contemporâneo; o que ela registra é outra coisa: Pompéia já nascia escritor e desenhista ao mesmo tempo.
O que a trama coloca em jogo
Eustáquio, subdelegado, vive com a esposa Branca e a órfã Rosalina. A função policial lhe rende inimigos. A vingança se prepara devagar e explode no desfecho que o título anuncia. A crítica posterior sublinhou o tom “ultra trágico” — pouco à vontade para o gosto da época — e o interesse do autor por paixões que não se resolvem em moral de folhetim. Há perseguição, violência e um desenlace de mortes. Pompéia não suaviza o cenário: a terra é hostil, os habitantes fazem a própria lei, e o sentimento de desforra arrasta quem está perto.
Quem lê o romance hoje em busca do internato de O Ateneu pode se frustrar. O eixo é outro. Em vez do colégio carioca, o Amazonas como espaço de isolamento e de justiça privada. Em vez da memória em primeira pessoa do Sérgio adulto, uma narrativa de ação trágica, ainda marcada pela precocidade e por um vocabulário já visual. O valor do livro, para o leitor de Pompéia, está exatamente nessa diferença: ver o que o autor fazia antes de encontrar o internato como matéria.
Como o livro se relaciona com o resto da obra
A estreia ajuda a desfazer a lenda do “autor de um livro só”. O Ateneu concentrou a fama, e com razão. Uma tragédia no Amazonas mostra o ensaio de mão, o gosto pela cena extrema e o traço de quem já desenhava tipos. A edição da Reggo, em português, recoloca o texto em circulação para quem quer o Pompéia de 1880, não só o de 1888.
O livro não substitui O Ateneu como porta de entrada. Serve a quem já leu o internato e quer a estreia, a quem pesquisa a formação do romancista e a quem se interessa pela Amazônia como cenário da prosa brasileira do século XIX. Há edições digitais de domínio público e reimpressões em papel; o que muda é o suporte. O enredo, a ambientação no Japurá e o tom trágico permanecem.
Capistrano de Abreu viu no rapaz de 17 anos alguém que desenhava com gosto. A observação cabe. Antes do Ateneu, Pompéia já olhava a violência como matéria literária. A tragédia anunciada no título não é metáfora: é o contrato da leitura. Quem abre o volume precisa aceitar esse contrato, sem esperar a densidade psicológica do internato nem a poesia em prosa de Canções sem metro. O que há aqui é o primeiro golpe: um ensaio literário que já sabia o preço do ódio.



