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Raul Pompéia

Nascimento: 1863 Jacuecanga, Angra dos Reis, RJ
Escritor, jornalista e desenhista de Angra dos Reis, autor de O Ateneu e patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.

Quem procura Raul Pompéia raramente quer um autor de estante cheia. Quer o internato. Quer Sérgio atravessando o portão do Ateneu e descobrindo que o colégio reproduz o país: hierarquia, vaidade, amizade dúbia e um diretor que trata a educação como espetáculo.

O nome ficou preso a um romance de 1888, mas a prosa não cabe numa etiqueta. Parte da crítica o lê no Naturalismo, perto de Aluísio Azevedo. Outra parte vê memória em primeira pessoa, vocabulário plástico e um narrador que desenha a cena em vez de montar tese à moda de Zola. Essa briga de classificação é o que ainda tira o livro da lista escolar e o devolve à leitura viva.

Quem foi Raul d'Ávila Pompéia

Raul d'Ávila Pompéia nasceu em 12 de abril de 1863, em Jacuecanga, no município de Angra dos Reis, então Império do Brasil. Filho do magistrado Antônio d'Ávila Pompéia e de Rosa Teixeira Pompéia, veio de família com recursos e se mudou ainda criança para o Rio de Janeiro. A grafia do sobrenome oscila entre Pompéia e Pompeia; o leitor encontra as duas nos catálogos, mas a pessoa é a mesma.

Aos onze anos, o pai o internou no Colégio Abílio, dirigido por Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas. Lá o menino redigia e ilustrava o jornal interno O Archote. A experiência do internato — disciplina, tipos sociais, o palco do diretor — voltaria, transformada, em O Ateneu. Depois passou ao Imperial Colégio de D. Pedro II. Em 1880, com 17 anos, publicou o primeiro romance, Uma tragédia no Amazonas, que chamou de ensaio literário.

Na vida pública, Pompéia foi romancista, contista, cronista, jornalista, desenhista e orador. Escreveu também sob os pseudônimos Rapp, Pompeo Stell e Raulino Palma. Não se casou nem teve filhos. Patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, morreu no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1895, aos 32 anos.

Do Colégio Abílio ao Direito: abolição e República

Terminados os estudos no Pedro II, Pompéia foi para São Paulo cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde o pai também se formara. O convívio com Luís Gama e a campanha abolicionista o colocou em atrito com parte da cátedra. Republicano, criticava os republicanos paulistas quando esses não apoiavam a abolição. Entre colegas de gazetas efêmeras estavam Luís Murat, Raimundo Correia, Fontoura Xavier, Valentim Magalhães e Teófilo Dias.

No terceiro ano, Pompéia e Luís Murat foram reprovados. A imprensa tomou o partido dos estudantes; os dois pediram reexame e passaram com nota mínima. No ano seguinte, Pompéia e dezenas de colegas foram novamente reprovados e concluíram o curso na Faculdade de Direito de Recife. Formado, voltou ao Rio, morou na casa dos pais e não exerceu a advocacia. A formação jurídica ficou como método: observação, confronto, recusa de meio-termo.

Na imprensa carioca, especialmente na Gazeta de Notícias, publicou crônicas, crítica de arte e o folhetim de O Ateneu. Em 1888, o romance saiu em livro com o subtítulo Crônica de saudades. No mesmo período circulou a sátira antimonárquica As joias da coroa. A República o levou à presidência da Academia de Belas Artes, depois à cátedra de mitologia na Escola de Belas Artes e, em 1894, à direção da Biblioteca Nacional, indicado por Floriano Peixoto.

Por que O Ateneu ainda é o livro que as pessoas buscam

O Ateneu narra, em primeira pessoa, a passagem de Sérgio por um internato de elite no Rio do Segundo Reinado. O diretor Aristarco — lido com frequência como caricatura do Barão de Macaúbas — transforma o colégio em vitrine. Os colegas não são tipos decorativos: Sanches, Franco, Bento Alves, Egberto e o professor Venâncio compõem uma sociologia do pátio. Antônio Candido observou que o livro resiste ao resumo porque acumula situações, não um enredo de folhetim.

A classificação escolar costuma encostar Pompéia em Machado de Assis e em Aluísio Azevedo. O recorte é útil e incompleto. Machado afia ironia e narrador instável; Aluísio descreve o cortiço como organismo. Pompéia escreve memória ressentida, com vocabulário de desenhista. Sílvio Romero, José Veríssimo e Araripe Júnior já o leram como original dentro do Naturalismo. Críticos posteriores falaram em impressionismo e, às vezes, em vizinhança com o Simbolismo de Cruz e Sousa. O ponto prático para o leitor é outro: o internato funciona como laboratório da sociedade imperial, e a frase de abertura — “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu” — continua sendo a porta de entrada mais citada da literatura brasileira do século XIX.

Em 1979, a Rede Globo usou a obra como inspiração para a novela Memórias de Amor. Em 2012, saíram duas adaptações em quadrinhos, uma pela Escala Educacional e outra pela editora Ática, com roteiro e arte de Marcelo Quintanilha. O livro segue em edições de vestibular, clubes de leitura e catálogos digitais porque a pergunta que ele faz não envelheceu: o que a escola ensina quando o que ela vende é prestígio?

  • Uma tragédia no Amazonas (1880): estreia em livro, ambientada no Rio Japurá, com trama de vingança e violência.
  • Canções sem metro (1881): poemas em prosa, obra que a crítica posterior leu como inauguração do gênero no Brasil.
  • O Ateneu (1888): romance-memória do internato, publicado em folhetim na Gazeta de Notícias e em volume no mesmo ano.
  • As joias da coroa: sátira dirigida à família imperial, de circulação na década de 1880.

Jornal, caricatura e o fim na Biblioteca Nacional

Pompéia desenhava com a mesma disciplina com que escrevia. Publicou charges; a mais lembrada, “O Brasil crucificado entre dois ladrões”, hostilizava Inglaterra e Portugal e desagradou o poeta Olavo Bilac. O atrito chegou a convite de duelo, depois abortado. Afrânio Coutinho resumiu o talento duplo: Pompéia desenhava com as palavras.

Floriano Peixoto o sustentava politicamente. Com a morte de Floriano, Pompéia discursou no funeral em tom de defesa do marechal. O texto foi lido como desacato ao novo presidente, Prudente de Morais. Pompéia perdeu a direção da Biblioteca Nacional. Luís Murat, antigo companheiro de faculdade, publicou o artigo “Um louco no cemitério”. Sem espaço para responder na imprensa que o isolava, Pompéia suicidou-se em 25 de dezembro de 1895, no escritório da casa em que morava com a mãe. O bilhete dizia: “Ao jornal A Notícia, e ao Brasil, declaro que sou um homem de honra”.

O dado é público e está nas biografias institucionais. Não precisa de enfeite. A vida curta e a obra concentrada explicam por que a busca atual mistura vestibular, biografia e a dúvida sobre como classificar o estilo.

Como começar a ler Raul Pompéia hoje

O caminho honesto começa por O Ateneu. Quem quer o internato, a memória e o vocabulário plástico não precisa de rodeio. A edição da Ateliê Editorial reúne o texto com ilustrações do próprio autor, apresentação e notas de Emília Amaral, o que ajuda a atravessar o léxico do século XIX sem transformar a leitura em decoreba.

Quem quiser ver o escritor antes da consagração passa por Uma tragédia no Amazonas, o ensaio literário dos 17 anos. Quem quiser o Pompéia que não é só romancista abre Canções sem metro, na edição da Editora da Unicamp: poemas em prosa que a fortuna crítica de O Ateneu quase apagou.

Para contexto de época, vale cruzar a página com Machado de Assis e Aluísio Azevedo, e lembrar que Pompéia também foi jornalista e desenhista, não apenas o autor do internato. Na educação brasileira, O Ateneu permanece leitura de formação porque trata a escola como palco de poder, não como cenário inocente. O resto do catálogo — crônicas, charges, textos políticos — confirma o recorte: uma autoridade pública de vida curta, prosa densa e um livro que ainda pergunta o que o internato faz com quem entra menino e sai marcado pelo próprio ressentimento.

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Projetos de Raul Pompéia

O Ateneu
O Ateneu
Romance de 1888 em que Sérgio lembra o internato carioca e Raul Pompéia transforma o colégio em retrato da sociedade do Império.
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Uma tragédia no Amazonas
Uma tragédia no Amazonas
Primeiro romance de Raul Pompéia, publicado em 1880, com trama de vingança no Rio Japurá e o olhar precoce de um autor de 17 anos.
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Canções sem metro
Canções sem metro
Poemas em prosa de Raul Pompéia, publicados em 1881, que a crítica lê como inauguração do gênero no Brasil além da fama de O Ateneu.
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