Canções sem metro é o livro que tira Raul Pompéia da prateleira de “autor de um romance só”. Publicado em 1881, reúne poemas em prosa e mostra um escritor mais próximo da imagem, do ritmo e da sugestão do que da tese naturalista. A fortuna crítica concentrada em O Ateneu minimizou essa face. A edição da Editora da Unicamp, de 2013, recoloca o volume em circulação e afirma, na apresentação, o que o internato ofuscou: Pompéia produziu crônicas, contos, ensaios, charges, capas e, aqui, uma prosa cantada sem verso medido.
O título descreve o procedimento. Não há metro tradicional. Há canto em parágrafo, imagem em sequência, um ouvido de desenhista aplicado à frase. Parte da crítica posterior leu o livro como inauguração do poema em prosa no Brasil. A classificação, como a de O Ateneu, não precisa ser dogma. O que o texto entrega é outra cadência: menos internato, menos folhetim, mais atmosfera.
O que o leitor encontra além do internato
Quem chega a Pompéia por vestibular quase nunca abre Canções sem metro. O prejuízo é duplo. Primeiro, reduz o autor a um único enredo escolar. Depois, perde o laboratório do estilo. A prosa matizada, sonora e imagética que a crítica associa ao Impressionismo e ao Simbolismo aparece aqui com mais folga do que no romance de 1888. Se O Ateneu aperta a memória no colégio, as Canções soltam a frase no espaço da sugestão.
Pompéia nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, em 1863, e se suicidou no Rio em 1895. A posição dele na literatura brasileira continua controversa: naturalista para uns, impressionista ou simbolista para outros. Canções sem metro é o volume em que essa segunda leitura ganha corpo. Não porque o livro “prove” uma escola, mas porque o procedimento — poema sem metro, imagem sem tese — conversa com o Simbolismo de Cruz e Sousa mais do que com o cortiço de Aluísio Azevedo.
Para quem esta edição faz sentido
A edição da Unicamp interessa a quem já leu O Ateneu e quer o outro Pompéia, a quem pesquisa o poema em prosa em português e a quem recusa a ficha de “clássico escolar de um livro só”. Tem 304 páginas, texto em português, e trata o volume como obra, não como apêndice. Não é o caminho mais curto para entender o internato. É o caminho para entender por que o estilo de Pompéia nunca coube inteiro no Naturalismo.
O leitor que busca narrativa de personagens e enredo deve começar por O Ateneu. O leitor que busca cadência, imagem e a estreia de uma forma deve abrir este. Os dois livros se falam: o desenhista que caricatura Aristarco é o mesmo que, em 1881, já tentava cantar sem metro. A diferença é de gênero, não de mão.
Há reimpressões e textos em domínio público. Vale preferir a edição anotada da Unicamp quando o objetivo é estudar o conjunto, não só “provar” o autor. Pompéia também fez capas e desenhos; o olhar plástico atravessa a prosa. Canções sem metro é o lugar em que esse olhar se solta da sociologia do pátio e pede outra leitura: menos internato, mais ouvido.



