Renato Casagrande foi eleito senador pelo Espírito Santo em 4 de outubro de 2026, com 995.361 votos, cerca de um quarto dos votos válidos capixabas. A vitória veio seis meses depois de ele renunciar ao governo do estado, em 2 de abril daquele ano, para entrar na disputa — um movimento que encerrou uma passagem de quase duas décadas pelo comando do Palácio Anchieta e abriu um novo capítulo em Brasília, com mandato a partir de fevereiro de 2027.
Engenheiro florestal de formação, advogado e filiado ao PSB desde 1987, Casagrande construiu a carreira em camadas: foi secretário municipal, deputado estadual, vice-governador, secretário de Estado, deputado federal e senador antes de chegar ao governo. Venceu três eleições para o Executivo capixaba (2010, 2018 e 2022) e se tornou um dos políticos mais longevos da história recente do Espírito Santo.
De Castelo ao Palácio Anchieta
José Renato Casagrande nasceu em Castelo, no sul do Espírito Santo, em 3 de dezembro de 1960, em uma família de descendência italiana. Formou-se em engenharia florestal pela Universidade Federal de Viçosa (1979–1983) e, mais tarde, em direito, pela Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim (1987–1991). A política entrou na vida ainda na universidade, no movimento estudantil e no centro acadêmico do curso de Engenharia Florestal, e ganhou forma partidária na década de 1980, quando passou pelo PCdoB e pelo PMDB até se filiar ao PSB, em 1987.
A primeira função pública veio cedo: foi secretário de Desenvolvimento Rural de Castelo entre 1984 e 1987. Em 1990, elegeu-se deputado estadual e cumpriu o mandato até 1994. Na eleição seguinte, foi eleito vice-governador na chapa de Vitor Buaiz, do PT (1995–1998), período em que também comandou a Secretaria Estadual de Agricultura. Disputou o governo pela primeira vez em 1998, terminou em terceiro lugar e, nos anos seguintes, atuou como secretário de Meio Ambiente da Serra (1999–2001) e na direção nacional do PSB, chegando à secretaria-geral do partido.
Em 2002, foi eleito deputado federal e liderou a bancada do PSB na Câmara entre 2004 e 2006. No Congresso, assinou proposições nas áreas de pesquisa científica, cultura e controle de gastos parlamentares — entre elas o projeto que ajudou a extinguir o pagamento do chamado jetom nas convocações extraordinárias. Em 2006, foi eleito senador com cerca de 62% dos votos válidos e, logo no primeiro ano de mandato, foi relator do processo contra Renan Calheiros no Conselho de Ética, com parecer que concluiu pela quebra de decoro parlamentar. Também foi vice-presidente da CPI do Apagão Aéreo.
Três mandatos no governo do Espírito Santo
Casagrande venceu a eleição para governador em 2010, no primeiro turno, com 82,3% dos votos válidos — um dos maiores percentuais já registrados no estado. Assumiu em 1.º de janeiro de 2011 e comandou o Executivo capixaba até 2014. Naquele ano, tentou a reeleição, ficou em segundo lugar com cerca de 39% dos votos e foi sucedido por Paulo Hartung.
Fora do governo, presidiu a Fundação João Mangabeira, ligada ao PSB, a partir de janeiro de 2015. Voltou ao Palácio Anchieta ao vencer a eleição de 2018 ainda no primeiro turno, com 55% dos válidos, e foi reeleito em 2022, no segundo turno, com 53,8%. O novo mandato seria completado em 2026, mas Casagrande optou por deixá-lo para disputar o Senado: renunciou em 2 de abril de 2026, e o vice, Ricardo Ferraço, assumiu o governo.
O que a gestão deixou no estado
Os balanços apresentados pelo governo e reunidos na coleção oficial de livros do próprio Casagrande destacam frentes como segurança, saúde, educação, clima, infraestrutura e finanças. Entre os pontos citados com mais frequência estão:
- Segurança pública — o programa Estado Presente, que combina policiamento de proximidade, inteligência, tecnologia (com Cerco Inteligente e reconhecimento facial) e reinserção social, por meio do Projeto Recupera; o estado passou a registrar os menores patamares de homicídios de sua série histórica, segundo os dados divulgados pela gestão.
- Saúde — reforço da atenção primária, regionalização do atendimento e expansão da rede hospitalar; nos números apresentados pelo estado, foram 108 novas unidades básicas de saúde e R$ 270 milhões direcionados à atenção básica.
- Educação — expansão do ensino em tempo integral e o ensino médio capixaba entre as melhores notas do Ideb no país, com programas de qualificação e bolsas como Qualificar ES, Nossa Bolsa e UniversidadES.
- Meio ambiente e clima — o Programa Reflorestar, a gestão de recursos hídricos e o planejamento climático que o governo tratou como agenda de antecipação.
- Finanças — o equilíbrio fiscal que ampliou a capacidade de investimento do estado e o Fundo Soberano do Espírito Santo, criado para aplicar parte das receitas do petróleo em um ciclo econômico que não dependa do combustível.
- Infraestrutura — o Aquaviário da Grande Vitória, a Ciclovia da Vida na Terceira Ponte, o Cais das Artes, a Rodovia das Paneleiras e a Avenida Leitão da Silva.
A Coleção Espírito Santo
Boa parte desse balanço foi organizada em uma coleção de dez livros publicada no site oficial de Casagrande, cada um dedicado a uma área: da resposta à pandemia de Covid-19 à segurança cidadã, da saúde pública à educação, do turismo ao Fundo Soberano. Os textos detalham programas, números e a lógica de gestão de cada frente. Pandemia e Governança, por exemplo, reconstrói a resposta capixaba à crise sanitária sob três pilares: decisão baseada em ciência, governança integrada entre as esferas de governo e a preservação da vida como prioridade.
Posições na política nacional
Casagrande chegou à direção nacional do PSB nos anos 1990 e foi secretário-geral do partido no início dos anos 2000. Em 2019, integrou o grupo de 14 governadores que assinou carta aberta ao presidente Jair Bolsonaro contra o decreto que flexibilizava o porte de armas, sendo o único signatário das regiões Sul e Sudeste. Em 2026, sua campanha ao Senado reuniu partidos como PSB, MDB, PDT e Federação PSDB/Cidadania, e teve Marcelo Coelho, do Progressistas, como primeiro suplente. No Senado, reencontra outros nomes do PSB, como Cid Gomes, e terá como colega de bancada capixaba Evair de Melo, eleito na mesma disputa.
Controvérsias e questionamentos públicos
Em 2014, Casagrande foi multado em R$ 2 mil pela Justiça Eleitoral por manter uma placa de campanha na fachada de um estabelecimento comercial em Vitória, o que a legislação da época proibia; sua coligação afirmou que seguia a lei e recorreu da decisão. Em 2016, seu nome apareceu entre os 443 ex-parlamentares denunciados pela Procuradoria Regional da República da 1.ª Região no escândalo das passagens aéreas, por uso de cotas da Câmara. Ele defendeu que as regras internas permitiam o uso e que cedia bilhetes a pacientes de baixa renda que viajavam para tratamento em Brasília. Em 2018, o Tribunal Regional Federal da 1.ª Região arquivou a denúncia contra um grupo de 34 parlamentares, por entender que a matéria não estava disciplinada em lei específica.
Em 2017, a delação de um ex-executivo da Odebrecht levou ao Supremo Tribunal Federal uma acusação de repasses de R$ 1,8 milhão à campanha de 2010 e de R$ 500 mil em favor da campanha à Prefeitura de Vitória em 2012. Casagrande negou as irregularidades, afirmou que as doações seguiram a legislação e, em 2021, o Ministério Público Federal no Espírito Santo e a Procuradoria Regional da República da 2.ª Região informaram não ter inquéritos abertos contra ele. Em 2026, mensagens trocadas em 2024 com o desembargador federal Macário Júdice Neto foram analisadas pela Polícia Federal, que pediu a abertura de investigação; em 26 de março daquele ano, o ministro Alexandre de Moraes arquivou o pedido por falta de indícios mínimos de crime, e Casagrande classificou os diálogos como institucionais.
A volta a Brasília
Eleito em 4 de outubro de 2026 como o candidato a senador mais votado do Espírito Santo, com 995.361 votos (24,70% dos válidos), Casagrande assume o mandato em 1.º de fevereiro de 2027. A campanha usou o número 400 e defendeu propostas como a expansão da educação técnica, a construção de um hospital geral, mais investimento em segurança e obras de mobilidade como a Ciclovia da Vida e o Aquaviário. Ao lado dele, no comando do estado, ficou Ricardo Ferraço, que era seu vice e completará o mandato até dezembro de 2026.






