O primeiro lugar num festival de Juiz de Fora, em 1991, pagou um disco e grudou um nome. Rogerio Tolomei Teixeira venceu com Samba do Skylab e passou a assinar Rogério Skylab. A explicação que ele deu para o apelido é concreta: uma estação espacial que capta transmissões de lugares diferentes e junta tudo numa coisa só. Quem procura o nome quase sempre quer saber se o homem do microfone é o mesmo dos livros. É. A canção veio antes da capa de livraria.
Três cenas se atravessam e nenhuma anula a outra. Houve o bancário do Banco do Brasil. Há o palco em que a letra desce ao grotesco, ao corpo e à cultura pop. E há o leitor de filosofia que publica soneto, ensaio e conto. Skylab se apresenta como um cadáver dentro da MPB. O minimalismo, a repetição e a mistura de gêneros sustentam um público fiel no circuito independente. Ele nega, com constância, que o trabalho seja comédia de propósito. O humor negro é leitura de quem ouve. A intenção declarada é outra.
De onde vem o nome e a pessoa
Rogerio Tolomei Teixeira nasceu no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1956, no bairro de Rio Comprido, na Zona Norte. Filho de um advogado e de uma dona de casa, é de ascendência italiana e portuguesa. Formou-se em Letras e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. O pai pressionou para que ele também fizesse Direito. Ele começou o curso e não concluiu.
A música em público começa antes do nome definitivo. Desde 1983 ele participa de festivais pelo Brasil. No fim daquela década teve uma passagem curta como vocalista da banda punk Setembro Negro. O próprio Skylab já disse que, no começo, não queria transformar a música em ofício. O festival de Juiz de Fora mudou a conta prática. O prêmio em dinheiro financiou Fora da Grei, lançado em 1992. O disco foi bem recebido pela crítica e abriu aparições nos programas de Jô Soares, o Jô Soares Onze e Meia e o Programa do Jô, ao longo dos anos 1990 e 2000.
O expediente em Maracaju
Antes de viver de disco, Skylab trabalhou como bancário numa agência do Banco do Brasil em Maracaju, no Mato Grosso do Sul, revezando o interior com o Rio. Emprego e música andaram juntos por um longo período. O disco de estreia saiu enquanto ele ainda era funcionário do banco. Num perfil publicado em 2020, ele descreveu o uso de uma licença-prêmio, no início dos anos 1990, para se trancar no estúdio. A frase que ficou é direta: enquanto colegas iam a Miami fazer compras, ele gravava. O prêmio do festival entra na mesma história como o dinheiro da gravação. As duas versões não brigam. Uma explica o tempo. A outra explica a conta.
O contraste interessa porque desfaz a fantasia de maluco beleza criado na praia. A entrevista de 2025 à revista Continente marca isso: a imagem de Zona Sul, surfe e informalidade não bate com o homem que estudava, trabalhava no banco e só depois da aposentadoria passou a se dedicar por inteiro a livro, disco e show. O detalhe biográfico que segura a cena é o expediente, não o adjetivo.
O disco de 1999 que ele não assinou inteiro
Sete anos depois de Fora da Grei saiu Skylab, em 1999, primeiro de uma série de dez álbuns numerados com o mesmo nome. Robertinho de Recife produziu, tocou guitarra e fez os arranjos. O disco traz Matador de Passarinho, a faixa que deu a Skylab fama nacional no underground, ao lado de Motosserra, Funérea, Matadouro de Almas e Naquela Noite, esta regravada do disco anterior. Skylab ficou insatisfeito. Disse que havia teclado demais e que a parte criativa dele tinha sido pequena. No ano seguinte, o ao vivo Skylab II, gravado no Hipódromo Up, recebeu dele outra conta: aquele seria 100% Skylab; o anterior, 80% Robertinho.
A série numerada atravessa os anos 2000 e chega a Skylab X em 2011. Em 2005, Skylab V, pelo selo OutraCoisa, ganhou o Prêmio Claro de Música Independente na categoria melhor álbum de MPB. Skylab VII, de 2007, foi indicado ao Prêmio Dynamite de Música Independente como melhor álbum de rock e teve colaboração de Zé Felipe e Marlos Salustiano, do Zumbi do Mato. Em 2008, Skylab entrou num tributo aos 40 anos do Álbum Branco dos Beatles com uma versão de Revolution 9. O circuito é de gravadora independente, show e prêmio de nicho.
Duas canções mostram o atrito com o que podia sair no lançamento original. Fátima Bernardes Experiência e Chico Xavier & Roberto Carlos foram cortadas. A primeira voltou depois a uma reedição de Skylab V e reapareceu como single em 2023. Não é caso de polícia. É caso de letra que cita fama de televisão e devoção popular sem pedir licença ao nome citado.
Carnaval, parceiros e a madrugada do Canal Brasil
Depois de Skylab X, ele afastou a sonoridade mais experimental e montou a Trilogia dos Carnavais, apoiada em samba, bossa nova e MPB. Os discos são Abismo e Carnaval (2012), Melancolia e Carnaval (2014) e Desterro e Carnaval (2015). Entre as participações estão Jorge Mautner, Jards Macalé, Romulo Fróes, Arrigo Barnabé, Fausto Fawcett e Michael Sullivan. De 2016 a 2018 veio outra trilogia, com Livio Tragtenberg, sob o título Skylab & Tragtenberg. Löis Lancaster, do Zumbi do Mato, reaparece em vários pontos da discografia, inclusive em parcerias bem posteriores.
O título Matador de Passarinho também batizou o talk show que ele apresentou no Canal Brasil de 2012 a 2014. Foram três temporadas. À Continente, Skylab falou em mais de 80 entrevistas escolhidas uma a uma, e citou Elza Soares, Jards Macalé, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Tim Rescala entre as que o orgulham. O programa saiu do ar, no relato dele, por decisão de grade: o canal, ligado à Globo, passou a privilegiar atores da emissora. A música seguiu fora da televisão, em show e em plataforma.
Quando o microfone vira página
A literatura corre ao lado do disco e não o substitui. Em 2006 a Rocco publicou Debaixo das Rodas de um Automóvel, coletânea de sonetos. A edição esgotou, ficou anos fora de catálogo e voltou em 2020 pela Kotter Editorial, no mesmo movimento em que saiu Lulismo Selvagem, reunião de ensaios políticos. Skylab explicou que o título interessou a editora, mas que o volume não cabe numa bandeira: um dos textos trata de forma positiva as ruas de 2013, e o conjunto é ensaio político contemporâneo. Em 2022, ainda pela Kotter, saiu A Outra Volta da Outra Volta, estudo sobre Henry James. Futebol de Cego, poesia, é de 2023. A Melodia Trágica, na Acorde Editorial, reúne ensaios de musicologia brasileira publicados antes no blog Godard City, entre 2009 e 2017.
A ficção chegou tarde. Homem-Urubu, primeiro livro de contos, foi anunciado em dezembro de 2024 e publicado em 21 de março de 2025, em coedição da Kotter com a Madame Psicose. Homem-rato, anunciado em abril de 2026, saiu em 26 de junho do mesmo ano pela Kotter. A ordem importa para quem chega perdido: soneto, ensaio, crítica literária e só então conto. Cada livro tem página própria. Aqui eles servem para mostrar que a escrita não é um apêndice da turnê.
O disco que ele chamou de último
Em abril de 2023, no site Tenho Mais Discos que Amigos, Skylab falou de uma Trilogia do Fim e disse que provavelmente seria o último trabalho antes de poder morrer. O volume 1, com Cadu Tenório, saiu em 16 de agosto de 2024. O volume 2, com Leandro Braga, saiu em 30 de agosto. O volume 3, com Löis Lancaster, saiu em 13 de setembro. No ano seguinte ele anunciou a Trilogia da Putrefação. O primeiro volume, de 15 de agosto de 2025, é só voz e violão, sem a banda que marca outros discos. A frase de encerramento não se cumpriu. A discografia seguiu independente, como quase tudo desde Fora da Grei, com passagens por OutraCoisa, Coqueiro Verde Records, Psicotropicodelia e Discobertas, além do vinil de Skylab pela Bilesky Discos em 2022.
Desde 1983 ele é casado com Solange Venturi, fotógrafa, produtora musical e artista plástica, presente em capas e na organização dos shows. O site oficial disponibiliza boa parte da discografia para download. No canal no YouTube estão clipes, faixas e o programa Empadinha de Camarão. A música experimental brasileira é o corredor em que o nome se cruza com outros artistas do mesmo mapa. Fora do disco, o artista plástico Denis Mandarino fez um desenho a lápis que passou a circular como retrato público de Skylab.
- Fora da Grei, 1992, disco de estreia pago com o prêmio de Juiz de Fora
- Skylab, 1999, produção de Robertinho de Recife e a faixa Matador de Passarinho
- Skylab V, Prêmio Claro de Música Independente em 2005, melhor álbum de MPB
- Matador de Passarinho, talk show no Canal Brasil entre 2012 e 2014
- Debaixo das Rodas de um Automóvel, poesia, Rocco, 2006, relançado pela Kotter em 2020




