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Rubem Alves

Rubem Azevedo Alves

Nascimento: 1933 Campinas, São Paulo CNPJ: 17.030.336/0001-08
Educador, teólogo e escritor mineiro (1933–2014), professor emérito da Unicamp; autor de A alegria de ensinar e precursor da teologia da libertação.

Quem digita o nome de Rubem Alves quase nunca quer a ficha de um doutor em Princeton. Quer a frase que virou mural de escola e recado de professor: há escolas que são gaiolas e escolas que são asas. O aforismo circula solto, como se tivesse nascido pronto. Nasceu de um mineiro de Boa Esperança que foi pastor presbiteriano, teólogo perseguido pela ditadura, psicanalista e cronista — e que desconfiava de qualquer aula que entregasse a resposta no lugar da curiosidade.

Rubem Azevedo Alves (1933–2014) escreveu teologia, educação, crônica e literatura infantil num volume raro para um só autor. Foi professor emérito da Unicamp, cidadão honorário de Campinas e um dos primeiros a defender, em tese, uma teologia da libertação. Quem o procura hoje quer o homem por trás da frase: a origem mineira, o pastorado interrompido, a sala de aula e os livros que ainda circulam em formação de professores.

Quem foi Rubem Alves

Foi teólogo, educador, escritor, poeta e psicanalista. Não se trata de uma lista de rótulos para inflar currículo. Cada ofício deixou marca visível na obra. O pastorado ensinou a falar com gente comum. A teologia, a desconfiar do dogma que engaiola. A Unicamp, o debate universitário. A clínica psicanalítica, o ouvido para o sofrimento miúdo. A literatura infantil, o tom com que passou a escrever depois do nascimento da filha Raquel.

No debate da educação brasileira, o nome costuma aparecer ao lado de Paulo Freire: dois pedagogos com projetos distintos, ambos lidos em licenciatura, formação de professores e conversa pública sobre escola. Alves não sistematizou um método de alfabetização. Trabalhou outro filão — o encantamento, a poesia, a crítica à escola que treina para o vestibular e esquece o olhar.

De Boa Esperança ao pastorado em Lavras

Nasceu em 15 de setembro de 1933 em Dores da Boa Esperança, hoje Boa Esperança, no sul de Minas Gerais, filho de Herodiano Alves do Espírito Santo e Carmen de Azevedo Alves, o caçula de quatro irmãos. A família sentiu a quebra de 1929 nos negócios de café do pai. A infância mineira — Lambari, Três Corações, Varginha, as férias no casarão dos avós em Lavras — voltaria depois em crônica e em memória de árvore, sopa e ipê-amarelo.

Em 1945 a família mudou-se para o Rio de Janeiro. O sotaque mineiro virou motivo de gozação no colégio. O menino se refugiou na religião protestante da casa. Em 1953, aos 19 anos, foi para Campinas cursar teologia no Seminário Presbiteriano do Sul, onde concluiu o bacharelado em 1957. Paralelamente fez o CPOR em São Paulo e, em 1954, recebeu o prêmio de primeiro lugar em artilharia. Habilitou-se também a ensinar piano no Conservatório Carlos Gomes.

De 1958 a 1963 foi pastor da Igreja Presbiteriana em Lavras. Casou-se com Lídia Nopper em 7 de fevereiro de 1959. Tiveram três filhos: Sérgio, Marcos e Raquel. A paróquia mineira, o contato com gente pobre e a leitura de Richard Shaull no seminário deslocaram o jovem pastor do protestantismo conservador em direção a uma teologia que lia o Evangelho do lado dos oprimidos.

A tese da libertação e o exílio

Em 1963 viajou sozinho para Nova York. No Union Theological Seminary concluiu o mestrado em teologia em 1964, com tese sobre o sentido teológico da revolução no Brasil. Voltou ao país no golpe. Acusado de subversão pela Igreja Presbiteriana e procurado pelo regime militar, deixou o pastorado e saiu outra vez. Em 1968 doutorou-se em Princeton com a dissertação Toward a Theology of Liberation. A editora americana publicou o livro em 1969 como A Theology of Human Hope. No Brasil a obra chegou mais tarde, primeiro como Da Esperança e, em 2012, com o título original Por uma teologia da libertação.

Alves é tido, com Gustavo Gutiérrez, entre os primeiros a nomear essa corrente latino-americana. Depois criticou o rumo de alguns textos da teologia da libertação quando eles falavam só da sociedade futura e calavam diante da dor concreta — o pai com o filho morto, a vida pessoal. Preferiu uma teologia poética, do corpo, da beleza e da esperança vivida agora. Rompeu com a Igreja Presbiteriana do Brasil em 1970. Livros como Protestantismo e repressão, O que é religião? e Variações sobre a vida e a morte guardam essa virada.

Unicamp, psicanálise e a educação como ofício

De volta ao Brasil, lecionou filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, depois Unesp, até 1974. Naquele ano entrou no Instituto de Filosofia da Unicamp. Transferiu-se para a Faculdade de Educação, chegou a professor titular e, em 3 de maio de 1995, recebeu o título de professor emérito. Nos anos 1980 dirigiu a Assessoria Especial para Assuntos de Ensino (1983–85) e a Assessoria de Relações Internacionais (1985–88). Foi professor visitante na Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

No início da década de 1980 formou-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise e manteve clínica em Campinas até 2004. A partir de 1986 foi colunista do Correio Popular. Integra a Academia Campinense de Letras desde 1982. Em 1996 tornou-se cidadão campineiro. Em 2003 o governo de São Paulo lhe deu o prêmio PNBE “O educador que queremos”. Em 2009 ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti, categoria Contos e Crônicas, com Ostra feliz não faz pérola.

Na educação, a tese recorrente é simples e dura de praticar: ensinar não é despejar conteúdo. É ensinar a ver. A escola que só treina para o vestibular vira gaiola. A que desperta espanto vira asa. Essa crítica atravessa A alegria de ensinar, Conversas com quem gosta de ensinar, Por uma educação romântica e A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, escrito depois de conhecer a Escola da Ponte, em Portugal.

  • Teologia — tese de Princeton, teologia da libertação, crítica ao dogmatismo protestante.
  • Universidade — Rio Claro, Unicamp, professor emérito, formação de educadores.
  • Crônica e ensaio — jornais, Folha, Correio Popular, livros de meditação sobre tempo, corpo e morte.
  • Literatura infantil — dezenas de estórias a partir da filha Raquel; a mais citada é A menina e o pássaro encantado.
  • Psicanálise — clínica em Campinas e escuta que atravessa a prosa tardia.

Livros que o leitor encontra primeiro

O Instituto que ele fundou em 2012 lista 138 obras, publicadas no Brasil por várias editoras e traduzidas em pelo menos doze países. Não dá para tratar o conjunto como catálogo. Três portas bastam para começar.

A alegria de ensinar, da Papirus, é o livro que professor encontra primeiro: ensaios curtos sobre o ofício como arte, amor e “exercício de imortalidade”. Ostra feliz não faz pérola reúne crônicas em que a criação nasce de um grão de areia — a dor, a curiosidade — e foi o volume premiado no Jabuti. A menina e o pássaro encantado, primeira história infantil, escrita para Raquel, fala de um pássaro livre e da saudade de quem ama sem possuir.

Há ainda teologia (O que é religião?, O poeta, o guerreiro e o profeta), filosofia da ciência e o volume sobre a Escola da Ponte. O aprofundamento de cada título fica nas páginas de projeto. Na literatura e na educação do diretório, Alves conversa com outros nomes da mesma prateleira pública.

Campinas, o Instituto e o ipê-amarelo

Campinas não foi só endereço universitário. Foi a cidade da clínica, da coluna, do grupo Canoeiros — encontros semanais de sopa, vinho e poesia — e da casa no Guanabara. Entre as referências literárias que ele mesmo citava estão Nietzsche, Fernando Pessoa, Manoel de Barros e Adélia Prado, com quem gravou um bate-papo sobre poesia na RTV Unicamp em 1990.

Em 15 de setembro de 2012, no próprio aniversário, fundou o Instituto Rubem Alves para guardar acervo, biblioteca e pensamento. A Biblioteca Ipê Amarelo reúne milhares de volumes. Raquel Alves deixou a arquitetura para tocar o legado; hoje a presidência é de Maria Amélia Moscom. O instituto mantém saraus, formação e o Movimento Rubem Alves.

Morreu em 19 de julho de 2014, em Campinas, por falência múltipla de órgãos depois de pneumonia. Tinha 80 anos. O corpo foi velado na Câmara Municipal, cremado em Guarulhos, e as cinzas espalhadas sob um ipê-amarelo — a árvore que, no inverno, abre flor quando as outras esperam a primavera. “Escrever é o meu jeito de ficar por aqui”, deixou dito. “Cada texto é uma semente.”

Por que ainda se busca Rubem Alves

Três intenções se repetem. A primeira é pedagógica: professor, coordenador e estudante de licenciatura querem a crítica às gaiolas e um texto curto para formação. A segunda é biográfica: quem foi o pastor que virou teólogo da libertação e depois cronista da Unicamp. A terceira é afetiva: a frase da ostra, o pássaro encantado, a saudade, o ipê.

O risco é reduzir Alves a guru gentil de citação. A obra pública é mais áspera: ditadura, ruptura com a igreja, recusa do vestibular como destino da escola, teologia que não consola com o paraíso futuro. Ler o educador sem o teólogo, ou o cronista sem o exilado, empobrece o retrato. Os livros continuam em circulação; o instituto em Campinas continua aberto. O resto — a semente, o ipê, a asa — o leitor decide se planta.

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Projetos de Rubem Alves

A alegria de ensinar
A alegria de ensinar
Ensaios curtos de Rubem Alves sobre o ofício de ensinar como arte, espanto e presença — o livro que professor encontra primeiro.
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Ostra feliz não faz pérola
Ostra feliz não faz pérola
Crônicas de Rubem Alves sobre criação, dor e curiosidade; segundo lugar no Jabuti 2009 em Contos e Crônicas.
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A menina e o pássaro encantado
A menina e o pássaro encantado
Primeira história infantil de Rubem Alves, escrita para a filha Raquel: uma menina, um pássaro livre e a saudade de quem ama sem prender.
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