O primeiro disco de Zeca Baleiro não se apresentava pelo nome do cantor. Em 1997, a capa perguntava por onde andaria Stephen Fry, ator inglês que tinha sumido de Londres depois de uma crítica ruim. Quem chega hoje por uma gravação antiga, por Salão de Beleza ou por uma crônica de boteco encontra a mesma pessoa: José de Ribamar Coelho Santos, maranhense, compositor de MPB que misturou baião, samba e rock sem pedir licença ao formato do rádio.
O nome artístico é o que o público procura. O nome civil é o que assina a editora. Entre os dois cabe uma carreira que começou antes do disco, passou pelo Acústico MTV de Gal Costa e chegou a um Grammy Latino com um álbum de canções portuguesas. Também cabem um livro de crônicas e um selo, a Saravá Discos, feito para lançar o que as grandes gravadoras deixavam de lado.
De onde vem o apelido Baleiro
José de Ribamar Coelho Santos nasceu no Maranhão em 11 de abril de 1966. As biografias públicas não fecham a cidade: parte dos registros aponta Arari, outra parte aponta São Luís. O que se repete é o estado, a data e o nome de batismo, uma homenagem a São José de Ribamar, santo do litoral maranhense. Zeca é o encurtamento usual de José.
Baleiro veio depois, na faculdade de agronomia. Ele mesmo contou que levava balas para a aula e que os colegas passaram a procurar o doce com ele. O apelido pegou antes de soar bem. A agronomia não virou ofício: o curso ficou pelo caminho, e houve ainda uma loja pequena de doces na capital do estado, tentativa breve antes da música ocupar o expediente inteiro.
Como o disco de 1997 atravessou o rádio
Antes do contrato, já havia estrada. Zeca compunha, tocava em bar e, em São Paulo, dividiu casa com Chico César, parceiro que voltaria em disco décadas depois. A projeção nacional chegou em 1997, no Acústico MTV de Gal Costa, com Flor da Pele. No mesmo ano saiu Por Onde Andará Stephen Fry?, pela MZA/Universal.
O título não era charada de encarte. Em fevereiro de 1995, a Folha de S.Paulo noticiou o sumiço de Stephen Fry depois da estreia de Cell Mates em Londres. Zeca transformou a nota em canção e, na hora de batizar o disco, usou o primeiro verso. O álbum chegou a disco de ouro. No repertório estão Heavy Metal do Senhor, Bandeira, Salão de Beleza e Mamãe Oxum, esta com participação de Chico César. Flor da Pele também está lá, ao lado de Essas Emoções, de Donato Alves.
Os dois discos seguintes de estúdio, Vô Imbolá (1999) e Líricas (2000), também receberam certificado de ouro. Intérpretes passaram a gravar suas músicas: Simone, Gal Costa, Zizi Possi, Fagner, Zé Ramalho, Paulinho Moska e Zeca Pagodinho aparecem nessa lista, em momentos diferentes da carreira. Salão de Beleza ainda atravessou uma coletânea internacional da Putumayo, Reggae Around the World.
O que a Saravá Discos publica
Desde 2006, Zeca mantém a Saravá Discos, selo criado com a produtora Rossana Decelso. A ideia pública do selo é documentar discos que as grandes gravadoras não colocariam na fila, inclusive trabalhos de outros artistas. Por ali saíram projetos do próprio Baleiro e álbuns que ele produziu, como Praça Tiradentes, de Odair José.
A operação editorial tem nome e registro verificáveis. A Ponto de Bala Produções e Editora Musical Ltda., em São Paulo, tem José de Ribamar Coelho Santos como sócio-administrador desde 1998. É a mesma casa que assina os livros. O vínculo importa porque crônica e disco saem debaixo da mesma marca, não porque o leitor precise de um endereço.
- Por Onde Andará Stephen Fry? (1997): disco de estreia, com ouro e o título tirado de uma notícia.
- Canções d'Além-mar (2020): recorte do cancioneiro português, Grammy Latino de MPB em 2021.
- Bala na Agulha (2010): crônicas, memórias e provocações pela editora Ponto de Bala.
- Saravá Discos: selo próprio para discos fora da lógica das grandes gravadoras.
- TV Bala: canal oficial no YouTube, com clipes, shows e a série de entrevistas Evoé!.
Por que um álbum português ganhou Grammy
Canções d'Além-mar chegou às plataformas em julho de 2020, pela Saravá Discos. O single de janeiro, Às Vezes o Amor, já anunciava o recorte: uma canção de Sérgio Godinho. No texto de apresentação, Baleiro descreveu o disco como declaração de amor à música feita em Portugal nas últimas décadas, parcial como todo tributo, mais afeto do que antologia.
A lista de autores que o próprio site oficial destaca inclui Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Fausto, Zeca Afonso, Rui Veloso e Carlos Tê, Jorge Palma, António Variações, Ornatos Violeta, Vitorino, João Gil, João Monge e José Cid. A capa é de Elifas Andreato, em azul de azulejo. Em 2021 o álbum venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira. Em maio de 2022 saiu uma edição deluxe com duas faixas a mais, Inquietação e Homem do Leme.
O que ele escreve fora da canção
Quem procura Zeca Baleiro na literatura não encontra romance de prateleira. Encontra crônica. Bala na Agulha, de 2010, reúne textos que ele vinha publicando no site desde 2005, “mais à guisa de blague que de blog”, como a apresentação do livro registra. Música, cinema, comportamento, religião, gastronomia e memória de infância dividem as páginas com dois blocos de poemetos e aforismos: Bestiário Pós-Moderno e Curtas, Grossas, Algumas Infames.
Houve também trabalho para criança e para palco, bem antes da fama de rádio. O musical Quem Tem Medo de Curupira? foi escrito em 1988 e só chegou ao livro e à montagem muitos anos depois. Em 2014, o disco infantil Zoró (bichos esquisitos) recebeu o Prêmio da Música Brasileira de melhor álbum infantil. São frentes distintas: a crônica explica o humor das letras; o disco infantil mostra o mesmo autor escrevendo para outra idade, sem abandonar o bicho e o mito brasileiro.
Onde ouvir e o que está em cartaz
O site zecabaleiro.com.br concentra discos, livros e agenda. No YouTube, o canal TV Bala é o oficial. No Instagram, o perfil usado pela própria produção é @zbaleiro. Em 2025 saiu o álbum Piano, pela Saravá Discos com a Midas Music, produzido por Sergio Fouad e gravado quase ao vivo. Em 2026, aos 60 anos completados em 11 de abril, ele lançou Zeca 60: 60 canções escolhidas por ele, em quatro volumes. Entre 30 de setembro e 3 de outubro de 2026, o formato Piano & Voz entra na Caixa Cultural de Belém, com o pianista Adriano Magoo.
Para quem navega por música e quer situar o nome, o mapa é este: um compositor maranhense com a carreira lançada em São Paulo, disco de ouro na estreia, selo próprio, livro de crônicas e um Grammy ganho cantando Portugal sem fingir que deixou de ser brasileiro.




