Alba Zaluar entrou na Cidade de Deus no início dos anos 1980 para estudar associações de moradores, escolas de samba e redes de vizinhança. Saiu do campo com uma constatação que contrariava o senso comum da época: a pobreza não produzia violência de forma automática. O que reorganizava a vida na favela era a chegada do tráfico de drogas armado, que passou a disputar espaço com o mundo do trabalho, da festa e da religião. Dessa pesquisa nasceu A Máquina e a Revolta, lançado em 1985 e premiado com o Jabuti de Ciências Humanas em 1999. A partir dali, Alba se tornou uma das vozes centrais do debate brasileiro sobre segurança pública, favela e desigualdade, tema que estudou até morrer, em dezembro de 2019.
Quem foi Alba Zaluar
Alba Maria Zaluar nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1942 e morreu na mesma cidade em 19 de dezembro de 2019, aos 77 anos, vítima de um câncer no pâncreas. Antropóloga de formação, construiu carreira como professora e pesquisadora, com passagem pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde foi professora titular de antropologia social no Instituto de Medicina Social (IMS).
Foi no IMS-Uerj que fundou, em 1997, o Núcleo de Pesquisa em Violências (Nupevi), dedicado a investigar violência doméstica, policial, urbana e ligada ao tráfico de drogas com métodos quantitativos e qualitativos. Entre 2012 e 2019, foi docente do Programa de Pós-graduação em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-Uerj), onde seguiu como pesquisadora associada.
Da militância estudantil ao exílio
A trajetória acadêmica começou antes, na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, onde Alba se formou em ciências sociais em 1965 e participou do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Militante do Partido Comunista Brasileiro, ela deixou o país após o golpe militar de 1964, quando a repressão atingiu os estudantes da faculdade. Passou parte do exílio na Suécia e se aprofundou em antropologia e sociologia urbana na Inglaterra, na tradição da Escola de Manchester.
De volta ao Brasil, concluiu em 1974 o mestrado em antropologia social no Museu Nacional, sob orientação de Roberto DaMatta, estudando festas de santo no catolicismo popular, trabalho que deu origem a Os Homens de Deus. Em 1984, defendeu o doutorado em antropologia social na Universidade de São Paulo, sob orientação de Eunice Ribeiro Durham, com a pesquisa que se tornaria A Máquina e a Revolta.
Por que a pesquisa na Cidade de Deus foi pioneira
Antes de Alba, boa parte das explicações sobre criminalidade tratava a pobreza como causa direta da violência. O trabalho de campo na Cidade de Deus mostrou outra coisa: entre os moradores, a identidade de trabalhador se construía em oposição à figura do bandido e do vagabundo, e essa fronteira era mais ambígua do que parecia. A etnografia descreveu como o tráfico armado passou a organizar territórios, hierarquias e relações de gênero, enquanto a vida associativa, o samba e as igrejas seguiam com força.
As entrevistas e observações daquela pesquisa também alimentaram o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, que Alba incentivou a escrever a partir do material recolhido na favela. O livro, publicado em 1997, virou um dos romances brasileiros mais lidos de sua geração e, em 2002, chegou aos cinemas no filme dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, indicado a quatro Oscars. O vínculo entre a etnografia e a obra literária consolidou a Cidade de Deus como um dos endereços mais estudados da sociologia urbana brasileira.
O que Alba Zaluar defendia sobre segurança pública
Alba foi uma das primeiras pesquisadoras a relacionar o aumento dos homicídios no Brasil à chegada do tráfico de drogas. Em artigos, livros e entrevistas, defendeu que o enfrentamento da violência exigia políticas públicas consistentes, integradas a direitos sociais, e não apenas ação policial. Também ficou conhecida pela disposição de contestar números e diagnósticos oficiais, posição que a colocou no centro de debates públicos sobre segurança, drogas e políticas para as favelas.
Na visão dela, a questão fundiária era decisiva: a facilidade de ocupar terras irregularmente ajudava a explicar a expansão das milícias em todo o país, porque o lucro ilegal é maior em áreas não regularizadas. Alba participou de seminários e eventos internacionais sobre violência e prevenção até os últimos meses de vida, em 2019.
Prêmios, cátedras e reconhecimento internacional
- Prêmio Jabuti de Ciências Humanas (1999), por A Máquina e a Revolta;
- Cátedra Joaquim Nabuco, na Universidade Stanford, nos Estados Unidos (2002);
- Titular da Chaire UNESCO (2005), em iniciativa que envolveu Uerj, UFRJ e Museu Goeldi;
- Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico (2006);
- Medalha Pedro Ernesto, da Prefeitura do Rio de Janeiro (2007);
- Medalha Roquette Pinto, da Associação Brasileira de Antropologia, e Medalha Chiquinha Gonzaga, da Câmara de Vereadores do Rio.
Publicou uma dúzia de livros e mais de 70 artigos, orientou mais de 20 dissertações de mestrado e 20 teses de doutorado, e é apontada entre as cientistas sociais brasileiras mais citadas no exterior.
Quais livros marcaram a trajetória dela
Depois de A Máquina e a Revolta, Alba publicou Cidadãos Não Vão ao Paraíso (1994), sobre juventude e política social, e organizou, com Marcos Alvito, Um Século de Favela (1998), obra que se tornou marco dos estudos históricos sobre as favelas cariocas. Em Integração Perversa: pobreza e tráfico de drogas (2004), reuniu mais de uma década de investigações sobre como o crime organizado se enraizou nas periferias. Já em Cidade de Deus: a história de Ailton Batata, o sobrevivente (2017), transformou a trajetória de um ex-traficante em estudo de caso sobre desqualificação, prisão e reconstrução.
Qual é o legado de Alba Zaluar
Mais do que obras isoladas, Alba deixou um jeito de trabalhar: ouvir moradores, cruzar dados e confrontar diagnósticos fáceis. O próprio Paulo Lins afirma que, sem o incentivo dela, o romance que deu origem ao filme não teria existido. Suas teses sobre tráfico, masculinidade e organização social da violência seguem presentes em dissertações, reportagens e políticas de segurança.
Os livros dela continuam sendo procurados, muitos em edições usadas e esgotadas, sinal de que a pergunta que moveu sua carreira ainda não foi resolvida: por que a violência cresce em determinados territórios e como interromper esse ciclo sem criminalizar a pobreza.






