Alê Abreu fez um menino de traço simples cruzar o mundo — e o mundo respondeu. O Menino e o Mundo, longa que ele dirigiu, roteirizou e montou, foi a primeira animação brasileira a disputar o Oscar de melhor filme de animação, em 2016, e chegou a mais de 80 países levando lápis de cor, giz de cera e colagem para a tela grande. É essa mistura de técnica artesanal com ambição narrativa que fez do paulistano um nome central quando o assunto é animação autoral feita no Brasil.
Nascido em São Paulo, em 6 de março de 1971, Abreu começou cedo: ainda adolescente, fez seu primeiro filme, Memória de Elefante (1984), depois de um curso de animação no Museu da Imagem e do Som. A formação em Comunicação Social, concluída em 1992, veio junto com os primeiros curtas e com uma carreira paralela de ilustrador — desenhos para revistas, jornais, publicidade e livros infantis que ajudam a explicar o cuidado visual de tudo o que assina.
Dos curtas premiados ao primeiro longa
Nos anos 1990, dirigiu curtas como Sírius e Espantalho, este último vencedor de 12 prêmios, entre eles o de melhor animação nacional no Anima Mundi de 1998, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na mesma época, assinou ilustrações para obras de nomes centrais da literatura infantil brasileira, como As cocadas, de Cora Coralina, e O menino que espiava prá dentro, de Ana Maria Machado. Ele é membro-fundador da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB) e membro da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA).
Garoto Cósmico: sete anos até o primeiro longa
O salto para a duração longa veio com Garoto Cósmico, exibido primeiro no Anima Mundi de 2007 e lançado nos cinemas em 11 de janeiro de 2008. Foram sete anos de produção e uma equipe de cerca de 15 pessoas, com orçamento de R$ 2 milhões obtido pelo Programa de Fomento ao Cinema Paulista, Petrobras Cultural e Ancine. A história se passa em 2973: três crianças escapam do "Mundo da Programação" e encontram o Circo Giramundos, onde a vida não vem com manual. Foi o último filme do ator Raul Cortez, que dublou o personagem Giramundos, e a trilha de Gustavo Kurlat trouxe participações de Vanessa da Mata, Belchior e Arnaldo Antunes. O longa venceu o prêmio de melhor filme de animação da Academia Brasileira de Cinema.
O Menino e o Mundo e a noite do Oscar
O filme mais conhecido de Abreu nasceu dentro de outro projeto. Ele desenvolvia um anima-doc chamado Canto Latino, sobre a formação social, política e econômica da América Latina, quando percebeu que aquele olhar sobre o continente poderia virar ficção. A produção de O Menino e o Mundo começou em agosto de 2010, com apoio de R$ 750 mil do BNDES, e levou o desenho ao limite: cenários e personagens feitos com lápis de cor, giz de cera, colagem e pintura; falas gravadas em um português invertido, quase ininteligível, para que a ação valesse mais que a palavra; e sons inteiramente recriados, do caminhão à cigarra.
Lançado nos cinemas brasileiros em 17 de janeiro de 2014, o longa fez o caminho inverso do circuito comercial: público modesto no Brasil, mais de 100 mil espectadores na França e uma coleção de prêmios que inclui o Cristal de melhor longa do Festival de Annecy 2014, o voto popular do mesmo festival, o Grand Prix do Animafest Zagreb 2015, melhor longa de animação e melhor longa infantil no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2015 e o Annie Award 2016 de melhor animação independente. O tema musical ficou com Emicida, na canção "Aos Olhos de uma Criança", com Drik Barbosa.
Em 14 de janeiro de 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas indicou o filme ao Oscar de melhor animação — a primeira vez que o Brasil disputou a categoria. Quando a notícia saiu, Abreu resumiu o sentido da obra: “Nosso filme nasceu como um grito sincero, de liberdade, de amor, um grito político, latino-americano”. No Rotten Tomatoes, a animação mantém 93% de aprovação.
Perlimps: a floresta depois do mundo
O sucessor chegou quase uma década depois. Perlimps estreou no Festival de Annecy de 2022 e entrou em cartaz no Brasil em 9 de fevereiro de 2023, pela Vitrine Filmes, com produção da Buriti Filmes em co-produção com Globo Filmes, Gloob e Sony Pictures International Productions. Se o longa anterior era minimalista, aqui Alê mergulhou no espectro completo das cores: a animação 2D foi desenhada à mão por ele e uma equipe enxuta, com o veterano Sandro Cleuzo entre os animadores. As vozes de Giulia Benite, Lorenzo Tarantelli, Stênio Garcia, Nill Marcondes e Rosa Rosah dão vida a Claé e Bruô, agentes de reinos rivais obrigados a se unir contra os gigantes que devoram o Bosque Encantado. O filme levou o Prêmio do Júri Infantil de melhor longa de animação no Festival Internacional de Cinema Infantil de Chicago e está no catálogo da Globoplay.
Vivi Viravento, livros e o ofício de ilustrador
Nem só de longas vive a filmografia de Abreu. Ele criou a série Vivi Viravento, dirigida por Priscilla Kellen na produtora Mixer, em co-produção com a TV Cultura e a EBC, com distribuição internacional da canadense 9 Story Media Group. O piloto nasceu no projeto AnimaTV, da TV Cultura, em 2009, e a série estreou no Discovery Kids em 2 de dezembro de 2017, acompanhando Vivi e os companheiros Mochilão e Lanterninha na busca pelo lugar misterioso revelado pela avó.
Na literatura infantil, ilustrou livros de autoras consagradas e assinou, ao lado de Priscila Kellen, o livro-imagem Mas será que nasceria a macieira?, publicado pela FTD Educação em 2010, que observa como o tempo e o progresso transformam uma cidade e o modo de viver de seus moradores. O Anima Mundi, festival que ajudou a revelar seu trabalho, o homenageou em 2007, na 15ª edição, e o convidou a criar a imagem comemorativa dos 18 anos do evento, em 2010.
Marcas de um método artesanal
- Desenho à mão como ponto de partida — lápis de cor, giz de cera, colagem e pintura em todos os seus longas.
- Linguagem inventada — o português invertido de O Menino e o Mundo e as cores como vocabulário em Perlimps.
- Equipes pequenas e prazos longos — de sete anos em Garoto Cósmico a quase uma década entre um longa e outro.
Mais de uma década depois da indicação ao Oscar, o conjunto segue coerente: um circo que gira mundos em 2973, um menino que atravessa um país em busca do pai e dois agentes secretos divididos entre o Reino do Sol e o Reino da Lua. É essa linha — a infância olhando o mundo adulto de frente — que liga cada obra assinada por Alê Abreu.






