Arkan Simaan nasceu no Líbano em 1945 e cresceu em Anápolis, no interior de Goiás, onde a família se radicou quando ele ainda era criança. Físico de formação, professor e escritor radicado na França desde 1970, ele acumulou uma trajetória que atravessa territórios pouco conectados entre si: a militância contra a ditadura militar brasileira, o ensino de física e a história da ciência. É autor de livros publicados no Brasil pela Companhia das Letras e pela Editora Insular, e ficou conhecido do público brasileiro também por ter traduzido o cacique Raoni Metuktire durante a COP 21, em Paris, em 2015.
Quem pesquisa Arkan Simaan costuma chegar por um destes caminhos: os livros de história da ciência, o romance histórico sobre a chegada dos franceses ao Brasil, a memória do exílio ou o trabalho em defesa dos povos indígenas. As mesmas respostas aparecem nos três casos, porque sua biografia é indissociável do que ele escreveu. Antes de se tornar autor, foi estudante de física da Universidade de São Paulo na época do golpe de 1964, militante trotskista, preso e exilado. Foi no exílio que reconstruiu a vida acadêmica e passou a investigar como as civilizações imaginaram o céu e a Terra ao longo dos séculos.
Quem é Arkan Simaan
Arkan Simaan é um físico, professor e escritor franco-brasileiro. Nascido no Líbano, chegou ao Brasil com a família na infância e fez os estudos em Anápolis, em Goiás. Ingressou na Faculdade de Física da Universidade de São Paulo e, no contexto do golpe militar de 1964, engajou-se no movimento trotskista. Foi indiciado em processos da ditadura, especialmente no inquérito que ficou conhecido como IPM do CRUSP, viveu na clandestinidade e deixou o país em 1970, rumo a Paris.
Na França, retomou os estudos de física, formou-se engenheiro e passou a lecionar. Durante onze anos ensinou física na Argélia, contratado pelo serviço francês de cooperação, e depois de voltar à França foi aprovado no concurso de agregação de física, um dos mais exigentes do sistema de ensino francês. A partir dos anos 1990, dedicou-se a escrever sobre história da ciência, tema que o aproximou de professores, estudantes e leitores interessados na relação entre ciência, cultura e mito.
Da Faculdade de Física da USP ao exílio em Paris
A trajetória política de Arkan Simaan começa no movimento estudantil paulistano. Havia acabado de entrar na USP quando o golpe de 1964 derrubou João Goulart, e foi nesse ambiente que ele se aproximou do trotskismo. Em 1968, participou da fundação do Movimento 1º de Maio, organização que atuava na clandestinidade e teve entre seus nomes jovens perseguidos pela repressão.
Condenado à prisão por atividades consideradas subversivas, ele viveu na clandestinidade, foi preso e, em 1970, conseguiu deixar o Brasil. Em Paris, participou da criação da revista Outubro com outros exilados brasileiros. Os dois grupos — o Movimento 1º de Maio e o grupo em torno da revista — desempenharam papel relevante na formação da Organização Socialista Internacionalista (OSI), corrente que participou do processo de fundação do Partido dos Trabalhadores. Esse período de exílio, clandestinidade e reconstrução pessoal é o tema central de seu livro de memórias, publicado no Brasil em 2025.
O professor que se tornou historiador da ciência
Depois de abandonar a atividade política organizada e concluir os estudos em Paris, Arkan Simaan escolheu o ensino. Lecionou física na Argélia por onze anos, até a decisão do governo argelino de arabizar o ensino das disciplinas científicas, e depois seguiu como professor na França, onde reside até hoje, na região de Orléans.
Em 1998, associou-se à professora de história Joëlle Fontaine para escrever L'Image du Monde des Babyloniens à Newton, obra de caráter interdisciplinar que aproxima física e história. A associação entre duas disciplinas distantes do currículo francês funcionou: segundo a Wikipédia em português, o livro foi reeditado em menos de um mês e teve boa acolhida entre professores do ensino secundário. A obra foi traduzida no Brasil por Dorothée de Bruchard e publicada pela Companhia das Letras em 2003, como A Imagem do Mundo dos Babilônios a Newton.
Desde então, ele escreveu sozinho outros livros de história da ciência, entre eles La science au péril de sa vie — les aventuriers de la mesure du monde, de 2001, premiado em 2002 com o Prix spécial du livre d'astronomie, e L'Image du Monde de Newton à Einstein, de 2005. Assinou ainda trabalhos sobre Giordano Bruno e Fritz Haber, além de um romance histórico ambientado na corte do Infante D. Henrique de Portugal.
Os cientistas aventureiros e a medida do mundo
Dois assuntos reaparecem com frequência na obra de Simaan. O primeiro é a busca da longitude e o papel que ela teve no desenvolvimento da navegação e da própria ciência. O segundo é a disputa violenta entre cartesianos e newtonianos, que marcou o pensamento europeu do fim do século XVII até meados do século XVIII.
Foi desses interesses que nasceu seu filão mais reconhecido: as biografias de cientistas aventureiros que cruzaram mares no século XVIII para medir o mundo. Pesquisadores como Pierre-Louis Moreau de Maupertuis, Charles Marie de La Condamine, Pierre Bouguer, Alexandre Guy Pingré, Guillaume Le Gentil, Charles Mason e Jeremiah Dixon aparecem em seus livros em torno de uma pergunta prática: como medir com precisão a forma da Terra e a distância entre os astros. Outros dois nomes, Jean Baptiste Joseph Delambre e Pierre Méchain, protagonizam a medição do meridiano de Paris durante a Revolução Francesa, trabalho que deu origem ao metro.
Em 2003, Simaan coordenou o livro Vénus devant le Soleil, escrito com vários colaboradores, entre os quais o astrofísico Jean-Pierre Luminet e Jacques Blamont, então ligado à agência espacial francesa. A proposta era pedagógica e internacional: alunos dos hemisférios norte e sul observariam o trânsito de Vênus diante do Sol, em junho de 2004, e comparariam os resultados para calcular a distância da Terra ao Sol com um método semelhante ao do século XVIII. O site criado para o projeto recebeu tantos acessos nos dias do fenômeno que ficou saturado em alguns momentos, segundo a Wikipédia.
Livros de Arkan Simaan publicados no Brasil
- A Imagem do Mundo dos Babilônios a Newton — história da astronomia da Antiguidade a Newton, escrita com Joëlle Fontaine e publicada pela Companhia das Letras em 2003;
- Vem, vamos embora: imigração, ditadura, exílio — livro de memórias lançado pela Editora Insular em 2025, sobre a imigração da família, a militância, a prisão e o exílio;
- Redescobrindo o Brasil: Um marinheiro na Terra dos Papagaios — romance histórico da Editora Insular, de 2024, sobre a expedição do francês Binot Paulmier de Gonneville, em 1504.
O leitor que se interessa pelo trabalho de pesquisa do autor encontra material também fora dos livros. Sua obra dialoga com a história da ciência e com a literatura, dois campos que ele costuma tratar como partes da mesma história cultural.
Planète Amazone e a tradução para o cacique Raoni
Na década de 2010, Arkan Simaan voltou a combinar escrita e ativismo, dessa vez em torno da Amazônia. Foi um dos fundadores da ONG francesa Planète Amazone, dedicada à defesa das florestas tropicais e dos povos indígenas. A ONG acompanha lideranças indígenas em viagens pela Europa, e Simaan passou a atuar como tradutor em parte desses encontros.
Em novembro de 2015, durante a COP 21, a conferência do clima realizada em Paris, ele traduziu o cacique Raoni Metuktire em encontros com o público francês. A cena foi registrada em fotografia e se tornou uma das imagens públicas mais conhecidas do autor fora do circuito acadêmico. Em 2025, o Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (Cemap) anunciou a incorporação do fundo documental de Arkan Simaan ao seu acervo, com documentação sobre o trotskismo brasileiro e a luta contra a ditadura militar. A doação foi formalizada em cerimônia no auditório do Cedem, na Unesp, em São Paulo.
Onde encontrar a obra e o acervo
Os livros brasileiros estão disponíveis em livrarias e no site da Editora Insular, que mantém uma página dedicada ao autor. A obra francesa circula principalmente em bibliotecas universitárias e livrarias especializadas na Europa. Para quem quer verificar dados biográficos e referências, a Wikipédia em português reúne uma lista detalhada de títulos e fontes, e o acervo do Cemap está aberto a pesquisadores interessados na história do movimento operário e da esquerda brasileira.
Simaan segue escrevendo e morando na França. Sua produção mais recente alterna memória política, romance histórico e divulgação de ciência, sempre em torno de um mesmo esforço: mostrar como ideias e descobertas nascem de pessoas concretas, em contextos históricos difíceis, e não em uma linha do tempo abstrata.




