Augusto Frederico Schmidt foi o poeta carioca que abriu as portas da literatura brasileira para Gilberto Freyre, Graciliano Ramos e Vinicius de Moraes ao fundar a Schmidt Editora, em 1930, e que depois se tornou um dos nomes de confiança de Juscelino Kubitschek na Presidência da República. Quem pesquisa seu nome costuma esbarrar primeiro em três versões dele: o poeta de voz grave, o editor de faro comercial e o articulador político que escreveu discursos que entraram para a história do país. É justamente a convivência entre essas facetas que faz a trajetória dele render página.
Nascido no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1906, de família com ascendência alemã e neto do Visconde de Schmidt, ele passou parte da infância em Lausanne, na Suíça, e voltou ao Brasil depois da morte do pai. Antes de virar autor publicado, já escrevia versos de amor em um jornal de bairro de Copacabana, o "O Beira-Mar". Morreu na cidade natal em 8 de fevereiro de 1965, aos 58 anos, deixando mais de trinta livros e milhares de artigos em jornais e revistas.
Um editor no centro da geração de 1930
Schmidt se ligou ao grupo modernista antes de publicar o primeiro poema. No início dos anos 1920, entre os cafés do centro do Rio, fez amizades que o levaram a trabalhar como caixeiro-viajante em São Paulo, onde conheceu Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Em 1930, já de volta ao Rio, usou o financiamento de amigos para fundar a Livraria Schmidt Editora, que em poucos anos lançou primeiras edições de títulos que hoje parecem improváveis de ter saído de uma casa comercial pequena: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre; Caetés, de Graciliano Ramos; O País do Carnaval, de Jorge Amado; Caminho para a Distância, de Vinicius de Moraes; e obras de Rachel de Queiroz, Lúcio Cardoso, Marques Rebelo e Octávio de Faria, entre outros nomes.
A livraria virou ponto de encontro de intelectuais modernistas e ajudou a firmar autores que já circulavam, como Alceu Amoroso Lima. Em 1939, a Schmidt Editora foi absorvida por outro empresário do setor, e Schmidt seguiu como sócio — encerrando o ciclo mais curto e decisivo da edição brasileira moderna.
O poeta de "Canto da Noite" e "Estrela Solitária"
A obra poética de Schmidt costuma ser situada na segunda geração do modernismo, aquela que reagiu aos excessos mais radicais do movimento e recuperou a musicalidade, a religiosidade e o vocabulário elevado. O primeiro livro, Canto do Brasileiro, saiu em 1928. Vieram depois Canto do Liberto (1929), Navio Perdido (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), Poesias Escolhidas (1946), Fonte Invisível (1949), Mensagem aos Poetas Novos (1950), Ladainha do Mar (1951), Os Reis (1953), Babilônia (1959) e Sonetos (1965).
Os temas dominantes são o amor, a morte, a passagem do tempo e uma fé inquieta. A crítica costuma destacar a dicção ampla e a melancolia sem pieguice, o que fez dele um dos poetas mais lidos da sua geração. Na prosa, publicou O Galo Branco (1948), coleção de contos e reflexões que deu nome ao rooster que também virou sua marca visual; Paisagens e Seres (1950); Discurso aos Jovens Brasileiros (1956); e Prelúdio à Revolução (1964).
Negócios, Botafogo e o rádio do cotidiano carioca
A energia de Schmidt não cabia só no verso. Em 1934, fundou com o amigo Luís Aranha a Metrópole Seguros, primeira de uma série de empresas em setores tão distintos quanto pneumáticos, aviação civil, processamento de materiais radioativos e alimentação. Em 1941, assumiu a presidência do Club de Regatas Botafogo e foi o idealizador da fusão que criou o Botafogo de Futebol e Regatas, costurada após a morte do atleta Armando Albano durante uma partida de basquete; ele foi vice-presidente do clube unificado por três anos.
Como cronista, começou em 1937 no Correio da Manhã e depois colaborou com O Globo, assinando textos sobre cidade, literatura e política. Foi ainda sócio majoritário da Orquima, empresa de processamento de areias monazíticas ligada à pesquisa nuclear brasileira, e responsável pela criação de uma das primeiras redes de supermercados do país, a Disco, aberta em Copacabana em 1952.
De assessor de JK à delegação brasileira na ONU
Durante a campanha presidencial de Juscelino Kubitschek, Schmidt atuou nos bastidores como redator de discursos. A ele são atribuídos o slogan "50 anos em 5" e o trecho do pronunciamento em que JK respondeu às críticas da oposição com a frase "Deus poupou-me do sentimento do medo". No governo, foi conselheiro financeiro e assessor especial para assuntos internacionais, participando da formulação da Operação Pan-Americana, iniciativa que inspiraria depois a Aliança para o Progresso, lançada nos Estados Unidos. Chefiou a delegação brasileira na Assembleia das Nações Unidas e teve passagem diplomática junto à então Comunidade Econômica Europeia.
A aproximação com o integralismo
Amigo pessoal de Plínio Salgado, Schmidt colaborou na articulação inicial da Ação Integralista Brasileira a partir de 1931 e publicou, em 1933, os dois primeiros livros doutrinários do movimento. Sua editora se tornou a segunda maior responsável pela publicação de obras integralistas nos anos seguintes. O episódio é tratado pela crítica como uma passagem controversa de sua biografia, posterior à consagração literária e paralela à multiplicação dos negócios.
Como ler Augusto Frederico Schmidt hoje
Boa parte das edições originais é difícil de encontrar, mas a obra continua acessível em antologias organizadas por editoras e pela Fundação Yêdda e Augusto Frederico Schmidt, que mantém acervo e registros sobre o poeta. Quem quer começar tem, hoje, caminhos claros:
- Melhores Poemas (Global Editora), seleção e prefácio de Ivan Marques, é a porta de entrada mais direta na poesia;
- Poemas de Amor (Global) reúne os versos líricos que o consagraram;
- Saudades de Mim Mesmo reúne cinquenta crônicas escritas entre o fim dos anos 1940 e 1964;
- Antologia Política (Topbooks) expõe o lado de formulador político e diplomata;
- Seleta em Prosa e Verso (José Olympio) mostra os dois lados do autor em um só volume.
Para quem pesquisa a literatura e a vida pública brasileira do século XX, Schmidt é uma figura de passagem obrigatória: pelo balcão da sua editora passaram alguns dos livros que definiram o romance de 1930, e pelos seus discursos passou parte do vocabulário político do desenvolvimentismo. A página de literatura do diretório reúne outros autores com os quais ele dialoga.






