Betty Milan tinha 18 anos quando entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com um plano definido: tornar-se psiquiatra. O caminho, porém, passaria por Paris, pela análise com Jacques Lacan e por uma obra literária que transformou a escuta clínica em romance, crônica, ensaio e teatro. Nascida em São Paulo, em 5 de agosto de 1944, em uma família de imigrantes libaneses, ela construiu uma trajetória que circula por vários países, com livros publicados na França, Espanha, Portugal, Argentina, China e Estados Unidos.
Em 2022, foi eleita para a Academia Paulista de Letras, na cadeira número 4. Antes disso, já havia reunido credenciais pouco comuns: médica formada pela USP, psicanalista com formação na França, entrevistadora de alguns dos maiores intelectuais europeus do século 20 e colunista de jornal e revista sobre amor, sexo e morte.
Quem é Betty Milan
Elizabeth Milan Mangin, Betty Milan para os leitores, é romancista, cronista, dramaturga, ensaísta e psicanalista. Sua obra circula entre gêneros e entre países, e a experiência de viver entre o Brasil e a França, a partir dos 30 anos, aparece tanto na ficção quanto nas crônicas e nos ensaios.
Ela colaborou com os principais jornais brasileiros, foi colunista da Folha de S.Paulo, da Veja e do site Veja.com, ajudou a fundar uma associação psicanalítica no Rio de Janeiro e trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo, na França.
Da Faculdade de Medicina à psicanálise com Lacan
Na Faculdade de Medicina da USP, Betty Milan frequentou como ouvinte cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde teve contato com intelectuais franceses como Michel Serres, Michel Foucault e Gérard Lebrun. Em 1968, iniciou a especialização em psiquiatria, com estágios em hospitais brasileiros, entre eles o Juqueri, em Franco da Rocha, e em uma comunidade terapêutica na Escócia dirigida pelo psiquiatra Maxwell Jones.
Estudou psicodrama e, em 1969, foi para os Estados Unidos conhecer o Moreno Institute, em Beacon, no estado de Nova York, onde trabalhou com Zerka Moreno. De volta ao Brasil, escreveu O jogo do esconderijo (1975), seu primeiro livro, no qual já questionava o voluntarismo do psicodrama.
Aos 29 anos, defendeu tese de doutorado em psiquiatria na FMUSP. Em 1974, mudou-se para a França para se analisar com Jacques Lacan, de quem se tornou tradutora e assistente no Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII. O encontro com Lacan é o marco que separa duas fases da vida da autora e inspirou, anos depois, o romance O Papagaio e o Doutor.
De volta ao Brasil, ensinou no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, associação que ajudou a fundar em 1975 com o psicanalista Magno Machado Dias e que teve papel importante na difusão da teoria lacaniana no país.
O Carnaval, o brincar e a cultura brasileira
Nos anos 1980, Betty Milan fez um estudo sobre as escolas de samba do Rio de Janeiro que resultou em Os bastidores do Carnaval (1987), livro que levou a sério o discurso dos carnavalescos. Nas conversas com Joãosinho Trinta, ouviu falar da cultura do brincar e transformou a ideia em conceito: o brincar como recurso civilizatório e marca da cultura brasileira, comparável ao humour dos ingleses.
O interesse de Gilberto Freyre pelo conceito foi um dos reconhecimentos que o trabalho recebeu. Anos depois, no livro sobre o amor, Betty Milan contrapôs a paixão do amor à paixão do brincar, o amor à brasileira, e encontrou seu melhor exemplo em Macunaíma, de Mário de Andrade.
Entrevistas que se tornaram literatura
A partir de 1993, morando em Paris e colaborando com o suplemento Mais da Folha de S.Paulo, Betty Milan entrevistou escritores, artistas e pensadores como Nathalie Sarraute, Octavio Paz, Michel Serres, Jacques Derrida e Françoise Sagan. As conversas foram reunidas em A força da palavra (1996) e, em seguida, em O século (1999), dez entrevistas sobre temas como a cidade, a guerra, a terra, o desterro, a vida, as mulheres, o sexo, a língua, a arte e a comunicação. O século recebeu o prêmio de crônica da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1999.
O consultório sentimental da Folha e da Veja
Em 2005, depois de 25 anos de colaboração, Betty Milan se tornou colunista da Folha de S.Paulo, respondendo a perguntas de leitores sobre o amor, o sexo e a morte. Os textos da coluna deram origem a Fale com ela, em 2007. Na mesma linha, a Veja a convidou para o consultório sentimental da edição online, e o resultado apareceu em Quem ama escuta, de 2011.
Quais livros marcaram a obra de Betty Milan
A bibliografia da autora reúne mais de 20 títulos entre romances, ensaios, crônicas, entrevistas, teatro e literatura infantojuvenil. Alguns marcos:
- O sexophuro (1981), estreia na ficção saudada pela crítica paulista;
- O que é o amor? (1983), ensaio da Coleção Primeiros Passos que se tornou best-seller e foi reeditado em 1999 e 2018;
- O Papagaio e o Doutor (1991), romance sobre a imigração libanesa e o encontro com um doutor inspirado em Lacan, adaptado para o cinema por Richard Ledes com o título Adieu, Lacan;
- A paixão de Lia (1994), O clarão (2001) e O amante brasileiro (2003);
- Paris não acaba nunca (1996), crônicas que se tornaram um dos maiores sucessos de venda da autora;
- A Mãe Eterna (2016), romance sobre a velhice extrema e o direito de morrer;
- BAAL (2019), Lacan ainda (2021) e Heresia (2022).
Prêmios, traduções e presença internacional
Betty Milan foi convidada de honra do Salão do Livro de Paris em 1998 e em 2015 e representou a literatura brasileira contemporânea na Feira Internacional do Livro de Miami, em 2014. Em 2018, fez uma série de conferências nos Estados Unidos sobre diáspora e literatura, passando pela Universidade de Georgetown, pela Universidade Johns Hopkins e pela New York School of Arts. Em 2019, foi homenageada em Beirute pelo Ministro das Relações Exteriores do Líbano pela contribuição ao país dos ancestrais, no pré-lançamento do romance BAAL.
Suas obras foram publicadas em francês, espanhol, inglês e chinês. Paris não acaba nunca saiu em Pequim em 2004, e os direitos de A Mãe Eterna foram adquiridos em Portugal pela Penguin e na Espanha pela Maresia.
Academia Paulista de Letras e outras atuações
Eleita em 2022 para a Academia Paulista de Letras, Betty Milan ocupa a cadeira número 4. Também publica o blog ABC da Vida, no qual escreve sobre amor, morte e os acontecimentos do cotidiano, e mantém seus livros impressos e digitais em catálogo próprio.
Onde acompanhar Betty Milan
O site oficial reúne biografia, bibliografia, artigos, entrevistas, teatro, vídeos e uma seção de fotos. Nas redes, a autora mantém perfil no Instagram, no Facebook, no YouTube e no X, além do blog e da página de livros e e-books. Quem procura os títulos em livrarias encontra boa parte da obra em edições da Record e da Zahar, com exemplares também disponíveis em formato digital.






