O Papagaio e o Doutor é o romance em que Betty Milan transforma a experiência da imigração libanesa no Brasil e o encontro com Jacques Lacan em matéria de ficção. A escrita levou cerca de dez anos: cinco para o original e mais cinco para a adaptação e a tradução ao francês, o que faz do livro um dos projetos mais trabalhosos da autora.
Uma saga de imigração e um doutor inesperado
A narrativa acompanha a saga de uma família de imigrantes libaneses no Brasil e o percurso de uma personagem que chega a um doutor que só Jacques Lacan poderia ter inspirado. Não é um relato biográfico nem um manual de psicanálise: é um romance que usa a tradição oral da comunidade, o choque entre culturas e a relação com o saber para discutir o que significa encontrar a própria voz diante de um mestre.
Publicado em 1991, o livro ganhou tradução francesa em 1997 e espanhola em 1998, circulando em países como Brasil, Portugal, França, Bélgica, Líbano e Argentina. Em 1998, a Editora Record lançou uma segunda versão em português, escrita depois da adaptação para o francês, e o título segue em catálogo em edição atualizada.
O que o leitor encontra no romance
- um romance de formação em que a personagem atravessa dois países e duas línguas;
- a memória da imigração libanesa no Brasil, contada fora dos clichês do gênero;
- um retrato ficcional do ambiente da psicanálise francesa do século 20;
- a pergunta sobre o que se aprende com um mestre quando não se quer imitá-lo.
Do livro ao cinema
Anos depois da publicação, o romance inspirou o filme Adieu, Lacan, do diretor americano Richard Ledes, que levou a história de Betty Milan para as telas e ampliou o alcance do livro fora do Brasil. A adaptação reacendeu o interesse pela produção ficcional da autora e aproximou sua obra de novos leitores.
Uma obra-chave na bibliografia de Betty Milan
Para quem quer entender a relação entre literatura e psicanálise na trajetória de Betty Milan, O Papagaio e o Doutor é a porta de entrada. O romance conversa diretamente com Lacan ainda, o testemunho publicado em 2021, e ajuda a situar o restante da obra, dos romances às crônicas, dentro de um projeto literário que atravessa mais de quatro décadas. Leitores de ficção brasileira, estudantes de psicanálise e interessados na história da imigração encontram no livro camadas diferentes de leitura.





