Braz Chediak levou para o cinema a aspereza dos personagens de Plínio Marcos. Em 1969, dirigiu A Navalha na Carne, adaptação da peça que a censura havia proibido, com Jece Valadão no papel do cafetão Vado. Rodado quase inteiramente dentro de um quarto de pensão carioca, o filme colocou o nome do diretor mineiro no centro de um cinema que começava a retratar a marginalidade sem meias palavras. No ano seguinte, ele voltaria ao dramaturgo com Dois Perdidos numa Noite Suja. Antes de chegar aos sets, porém, sua vida já tinha passado por balcão de loja, gabinete de Juscelino Kubitschek e uma escola de cinema na Itália.
Braz Chediak (Três Corações, 1º de junho de 1942) é diretor, roteirista, ator e escritor. Vive em sua cidade natal, onde criou projetos que ensinam teatro e música a crianças, e construiu uma segunda carreira literária depois de deixar a direção de filmes, no início dos anos 1980 — fase em que publicou romances, contos e livros de crônicas. Seu nome interessa tanto a quem pesquisa a adaptação do teatro brasileiro para as telas quanto a leitores que o descobriram pela escrita.
De Três Corações ao gabinete de Juscelino Kubitschek
Filho de Elias José, imigrante libanês, e de Maria Aparecida Guimarães Chediak, cresceu no interior de Minas Gerais e trabalhou na infância como balconista e engraxate. Depois de cumprir o serviço militar, mudou-se aos 18 anos para o Rio de Janeiro, onde foi bancário por dois meses antes de se tornar secretário do escritório do então senador Juscelino Kubitschek. Na mesma época, ingressou no Conservatório Nacional de Teatro, conciliando as aulas de interpretação com o trabalho.
A estreia como ator veio no início dos anos 1960, em O Homem que Roubou a Copa do Mundo, de Victor Lima, ao lado de Grande Otelo e Ronald Golias. Em 1962, atuou em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, sob direção de Paulo Afonso Grisolli. No mesmo ano, uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores o levou à Itália para estudar montagem cinematográfica; na volta, trabalhou como assistente do diretor Giorgio Moser em um programa para a RAI, a televisão estatal italiana. Fellini foi um dos cineastas que conheceu nesse período, episódio que costuma lembrar em entrevistas.
Os primeiros roteiros e a estreia na direção
O primeiro roteiro de Chediak foi Na Onda do Iê-Iê-Iê (1966), escrito em parceria com Aurélio Teixeira e Renato Aragão. No ano seguinte, assinou com Teixeira o argumento e o roteiro de Mineirinho, Vivo ou Morto, e escreveu também para o cinema policial, caso de A Lei do Cão. A estreia na direção veio com Os Viciados (1968), que fracassou nas bilheterias e na crítica. O tropeço foi revertido no filme seguinte.
Plínio Marcos: os dois filmes que mudaram sua carreira
Com A Navalha na Carne (1969), Chediak transformou o texto de Plínio Marcos em um dos filmes mais comentados daquele ano. A trama se passa num quarto miserável de pensão, onde a prostituta Norma Suely, o cafetão Vado e o faxineiro Veludo se enfrentam em discussões violentas. Jece Valadão produziu e protagonizou; Glauce Rocha e Emiliano Queiroz completam o trio central. O roteiro é assinado pelo próprio Chediak, por Fernando Ferreira, por Emiliano Queiroz e por Plínio Marcos.
Em Dois Perdidos numa Noite Suja (1970), o diretor repetiu a parceria com o dramaturgo e com Emiliano Queiroz, que contracenou com Nelson Xavier. A mesma encenação em espaço restrito — dois homens pobres dividindo um quarto de hospedaria — consolidou um método: diálogos secos, cenário claustrofóbico e forte apoio no texto teatral. Para a Enciclopédia Itaú Cultural, seus filmes funcionam como um registro da peça encenada no palco, marca que atravessa sua obra como adaptador.
Adaptações literárias e a fase das comédias eróticas
Depois dos filmes de Plínio Marcos, Chediak assinou o roteiro da adaptação de O Meu Pé de Laranja Lima (1970), de José Mauro de Vasconcelos, e dirigiu As Confissões de Frei Abóbora (1971), baseado no romance homônimo do mesmo autor, com Tarcísio Meira no papel do padre desiludido. Na primeira metade dos anos 1970, porém, ele mergulhou no cinema comercial que dominava as bilheterias. Dirigiu Banana Mecânica (1974), paródia de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, além de O Roubo das Calcinhas (1975) e Eu Dou o Que Ela Gosta (1975), trabalhando ao lado do produtor Pedro Carlos Rovai, um dos nomes centrais das comédias eróticas daquele período.
Em entrevista ao jornal Hoje em Dia, em 2014, Chediak disse que considerava Banana Mecânica mais um filme de Carlos Imperial, produtor e protagonista, do que seu — entre outras razões, porque o roteiro foi escrito enquanto as cenas eram rodadas.
A trilogia de Nelson Rodrigues
No fim da década, o diretor retomou a dramaturgia ao filmar O Grande Desbum (1978), baseado na peça As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena. Depois veio a trilogia inspirada em Nelson Rodrigues: Bonitinha, mas Ordinária, Perdoa-me por me Traíres e Álbum de Família, realizados no início dos anos 1980. Chediak frequentava a casa do dramaturgo e, em 2014, o jornal Hoje em Dia o descreveu como o melhor tradutor dos textos de Rodrigues para o cinema. A recepção crítica, no entanto, foi dividida: o crítico Ismail Xavier considerou que essa aproximação não produziu trabalhos relevantes e que o diretor tropeçou nas dificuldades do tom sério, avaliação registrada no verbete da Enciclopédia Itaú Cultural.
Quais filmes Braz Chediak dirigiu
A filmografia de direção reúne adaptações teatrais e literárias, comédias comerciais e dramas, realizados entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1980. Entre os títulos mais lembrados estão:
- Os Viciados (1968)
- A Navalha na Carne (1969)
- Dois Perdidos numa Noite Suja (1970)
- As Confissões de Frei Abóbora (1971)
- Banana Mecânica (1974)
- O Roubo das Calcinhas (1975)
- O Grande Desbum (1978)
- Bonitinha, mas Ordinária (1981)
- Álbum de Família (1981)
O adeus ao cinema e o retorno a Três Corações
Afastado da direção de novos filmes desde o início dos anos 1980, ele viveu um período à frente de um restaurante no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, que ganhou fama pela sopa de queijo, antes de voltar à cidade natal. Em Três Corações, criou os projetos Pedalarte e Tocarte, em que ensina teatro e música para crianças carentes, muitas delas catadoras de latinha. Sobre a decisão de deixar os sets, resumiu numa entrevista ao Hoje em Dia: "Como tudo na minha vida, eu abandono as coisas. Foi assim com o cinema e as mulheres."
Uma carreira literária construída em paralelo
Antes mesmo de deixar os sets, Chediak escrevia. Em 2000, assinou com Nelson Rodrigues Filho a peça Beijos, baseada no livro de contos A Vida Como Ela É; em 2002, os dois retomaram material semelhante em Futebol Paixão, com Maurício Antoun. Em 2005, publicou o conto "O peixinho dourado" na antologia Crime Feito em Casa, da Editora Record. Depois vieram o romance policial Cortina de Sangue: uma aventura de Popeye (2011) e o livro de crônicas Uma Corruíra na Varanda (2017). Em 2018, lançou o digital 1001 Trovas, coletânea de quadras populares, e em 2023 voltou à crônica com A gatinha e o cronista, pela Editora Minotauro. Os livros aproximam Chediak de uma linhagem de escritores que transformaram a observação do cotidiano em literatura.
Onde encontrar a obra de Braz Chediak
Braz Chediak vive em Três Corações, onde mantém os projetos de formação artística para crianças e adolescentes. Seus livros circulam em edições impressas e digitais — A gatinha e o cronista e 1001 Trovas estão disponíveis na Amazon —, e seus filmes seguem sendo exibidos em mostras, cineclubes e sessões comentadas. As Confissões de Frei Abóbora está no catálogo do Prime Video, pela BoxBrazil Play. Em 2023, o diretor gravou para a Enciclopédia Itaú Cultural um depoimento da série Cada Voz, em que relembra os primeiros contatos com o campo cênico e a entrada definitiva no cinema.




