Carlos Ghosn Bichara é o executivo franco-brasileiro que tirou a Nissan da beira da falência, chegou a comandar Renault, Nissan e Mitsubishi e, em dezembro de 2019, virou notícia no mundo inteiro ao deixar o Japão de forma clandestina enquanto respondia a acusações de irregularidades financeiras. Nascido em Guajará-Mirim, no interior de Rondônia, ele construiu a carreira longe do Brasil e se tornou uma das figuras mais conhecidas da indústria automobilística nas últimas décadas — primeiro como símbolo de recuperação empresarial, depois como protagonista de um dos casos judiciais mais comentados do setor.
A trajetória de Ghosn reúne três países e três empresas: o Brasil onde nasceu, o Líbano da família e a França da formação; a Michelin, onde aprendeu o ofício; a Renault, que o contratou; e a Nissan, que ele reergueu. É essa combinação que explica por que o nome dele aparece tanto em discussões sobre gestão e liderança quanto em reportagens sobre o sistema de justiça japonês, que ele critica publicamente até hoje.
Quem é Carlos Ghosn
Filho de Jorge Ghosn e Rose Zetta Jazzar, neto de um imigrante libanês que se estabeleceu em Rondônia, Carlos Ghosn nasceu em 9 de março de 1954, em Guajará-Mirim. Aos dois anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro por causa de uma doença contraída depois de beber água contaminada; aos seis, foi com a mãe e a irmã para Beirute, no Líbano, onde concluiu o ensino escolar em uma escola jesuíta. Mais tarde, estudou em Paris e se formou engenheiro pela École Polytechnique, em 1974, e pela École des Mines, em 1978.
São dados que ajudam a entender os apelidos que a imprensa internacional passou a usar: em francês, "Le Cost Killer" (algo como "o caçador de custos"), pela forma como cortou despesas; e "Mr. Fix It" ("o consertador"), pela recuperação da Nissan. Ele fala português, francês, inglês e árabe com fluência e também estudou japonês.
Da Michelin à Renault: como Ghosn se tornou executivo
Ghosn entrou na Michelin em 1978 e passou 18 anos na fabricante de pneus. Trabalhou em fábricas na França e na Alemanha, chefiou uma unidade em Le Puy-en-Velay, dirigiu pesquisa e desenvolvimento e, em 1985, aos 30 anos, assumiu as operações da empresa na América do Sul, voltando ao Rio de Janeiro. Ali, formou grupos de gestão multifuncionais para enfrentar a hiperinflação brasileira — experiência que passou a citar como base do próprio estilo de gestão.
Em 1989, foi para os Estados Unidos como presidente da Michelin North America e conduziu a reestruturação após a compra da Uniroyal Goodrich. Em 1996, a Renault o contratou como vice-presidente executivo, com responsabilidade sobre compras, engenharia, manufatura e também sobre a operação sul-americana. A empresa voltou ao lucro em 1997.
A recuperação da Nissan e a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi
Em 1999, a Renault comprou 36,8% da Nissan e Ghosn foi enviado ao Japão como diretor de operações. A empresa devia cerca de US$ 20 bilhões e apenas três dos 46 modelos vendidos no mercado japonês davam lucro. O Plano de Recuperação da Nissan, anunciado em outubro de 1999, previa voltar ao lucro em 2000, cortar 21 mil postos de trabalho (14% do quadro), fechar cinco fábricas japonesas e reduzir o número de fornecedores e participações. Ghosn prometeu renunciar se as metas não fossem cumpridas. Elas foram alcançadas antes do prazo, e a Nissan se tornou uma das montadoras mais lucrativas do mundo.
Em 2005, ele passou a presidir e comandar também a Renault, tornando-se a primeira pessoa a dirigir duas empresas da lista Fortune Global 500 ao mesmo tempo. Em 2016, depois de a Nissan assumir o controle da Mitsubishi Motors, virou presidente da montadora japonesa e consolidou a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, então o quarto maior grupo automobilístico do mundo. Também presidiu a russa AvtoVAZ entre 2013 e 2016.
Nesse período, Ghosn ficou associado a uma aposta que mudou o setor: os carros elétricos. Ele direcionou cerca de 4 bilhões de euros ao desenvolvimento de uma linha de veículos de zero emissões e lançou o Nissan Leaf, em dezembro de 2010, apresentado como o primeiro elétrico de produção em massa a preço acessível. A decisão o colocou no documentário "Revenge of the Electric Car" (2011) e rendeu manchetes provocadoras, como a pergunta da Businessweek sobre se ele era "louco".
A prisão no Japão, a fuga e o caso na França
Em 19 de novembro de 2018, Ghosn foi preso no aeroporto de Haneda, em Tóquio, sob acusação de omitir ganhos em relatórios financeiros e de usar ativos da Nissan de forma indevida. O executivo Greg Kelly, seu braço direito, também foi detido. Dias depois, os conselhos da Nissan e da Mitsubishi o destituíram; em janeiro de 2019, ele renunciou à presidência e ao comando da Renault. Ele deixou a prisão sob fiança no início daquele ano, mas foi detido novamente em abril por novas acusações; liberado no fim do mês, ficou proibido de deixar o país.
Em 30 de dezembro de 2019, Ghosn deixou o Japão clandestinamente — segundo relatos amplamente noticiados e confirmados por ele depois, escondido em uma caixa de equipamento de som — e reapareceu em Beirute, no Líbano. Desde então, afirma ser inocente, diz ser vítima de perseguição e acusa o Ministério Público japonês e executivos da Nissan de articularem sua queda. Em 2020, a Interpol emitiu um alerta vermelho a pedido do Japão, e a Nissan entrou com uma ação cobrando cerca de US$ 90 milhões. Em abril de 2022, a Justiça francesa também pediu sua prisão internacional em uma investigação sobre repasses suspeitos ligados à Renault. Ele nega todas as acusações e não pode voltar ao Japão sem ser detido.
Quais livros Carlos Ghosn escreveu
Ghosn assina livros em parceria com Philippe Riès. Em 2003, publicou "Cidadão do Mundo" (A Girafa), com a história da recuperação da Nissan e relatos sobre sua formação multicultural. No ano seguinte, lançou "Shift: Inside Nissan's Historic Revival" (Crown Business), em que detalha o método por trás da reestruturação. Já em 2020, lançou "Le temps de la vérité" (Grasset), livro em que apresenta sua versão sobre a prisão, o sistema de justiça japonês e a fuga — obra que ganhou uma adaptação em inglês no ano seguinte, "Broken Alliances".
Como Ghosn trabalha: marcas do estilo de gestão
Algumas ideias aparecem com frequência em entrevistas, palestras e nos próprios livros do executivo. Entre os traços mais citados de sua gestão estão:
- times multifuncionais e multiculturais como ferramenta para diagnosticar e resolver problemas;
- diversidade tratada como ativo empresarial, não como discurso;
- metas com prazo definido e compromisso público de renúncia caso não fossem cumpridas;
- presença na fábrica e conversa direta com quem trabalha na operação;
- velocidade de execução em planos de recuperação.
No Japão, ele virou personagem de um mangá publicado pela revista Big Comic Superior e chegou a dar nome a um bentô servido em restaurantes de Tóquio — sinais do grau de celebridade que alcançou no país. A imprensa japonesa também o apelidou de "Sete-Vinte-e-Três" (7h23), por causa da jornada longa, e a revista Forbes o descreveu como o trabalhador mais assíduo da indústria automobilística.
Onde acompanhar Carlos Ghosn hoje
Ghosn mantém um site oficial, o carlosghosn.info, onde publica comunicados, entrevistas e textos sobre liderança, e perfis ativos no X (antigo Twitter) e no Instagram, ambos com o nome de usuário @carlosghosn. Nesses canais, ele comenta negócios, justiça e a própria versão sobre o processo no Japão.
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