Shift: Inside Nissan's Historic Revival é o livro em que Carlos Ghosn detalha, passo a passo, o plano que tirou a Nissan de uma situação próxima da falência e a levou de volta ao lucro em menos de dois anos. Publicado pela Crown Business em dezembro de 2004, o título tem 256 páginas e coautoria de Philippe Riès — um relato de dentro da operação, escrito por quem comandou o processo de reestruturação.
O que a Nissan vivia em 1999
Quando Ghosn foi nomeado diretor de operações da Nissan, em 1999, a montadora japonesa acumulava uma dívida automobilística líquida de cerca de US$ 20 bilhões e dependia de uma linha de modelos deficitária: apenas três dos 46 carros vendidos no Japão davam lucro. A descrição oficial do livro lembra que a empresa estava "ficando sem combustível" e caminhava para a falência. Dezoito meses depois, voltou ao azul; alguns anos mais tarde, se tornou uma das montadoras mais lucrativas do mundo.
O contraste entre esses dois momentos é o motor do livro. Ghosn não escreve como observador: ele era o executivo responsável por entregar o resultado, e o texto acompanha as decisões que precisou tomar para isso — inclusive as impopulares.
As ideias de gestão que aparecem em Shift
Entre os princípios que o livro apresenta, estão:
- metas com prazo e compromisso público de renúncia caso não fossem cumpridas;
- cortes estruturais, incluindo 21 mil postos de trabalho, o fechamento de cinco fábricas japonesas e a redução de fornecedores;
- fim do sistema keiretsu, a teia de fornecedores com participações cruzadas na Nissan;
- times multifuncionais e multiculturais para diagnosticar e resolver problemas;
- aproximação das decisões de quem está no chão de fábrica;
- mudança de cultura, como promover por desempenho em vez de antiguidade, e adoção do inglês como idioma oficial das reuniões globais.
Ghosn conta que levou para o Japão práticas aprendidas na Michelin, empresa em que atuou por 18 anos antes de ir para a Renault. A trajetória pessoal — filho de libaneses, nascido no Brasil e educado na França — aparece no livro como parte do método, não como curiosidade biográfica: foi ela que o levou a tratar time multicultural como vantagem competitiva.
Quais resultados o plano entregou
O plano de recuperação anunciado em outubro de 1999 previa voltar ao lucro no ano fiscal de 2000, atingir margem superior a 4,5% das vendas até o fim do ano fiscal de 2002 e reduzir pela metade a dívida no mesmo período. Ghosn prometeu renunciar se as metas não fossem cumpridas. Todas foram alcançadas antes do prazo: no primeiro ano do plano, o resultado líquido consolidado passou de um prejuízo de US$ 6,46 bilhões para um lucro de US$ 2,7 bilhões.
Depois veio o "Nissan 180", plano de três anos anunciado em 2002 com três objetivos: aumentar as vendas globais em um milhão de veículos, alcançar margem operacional de pelo menos 8% e zerar a dívida líquida automobilística. A margem operacional da empresa, que era de 1,4% em 1999, chegou a 11,1% no ano fiscal de 2003. O livro acompanha essa sequência de metas e resultados, do diagnóstico inicial à execução.
Onde Shift se encaixa na bibliografia do executivo
"Shift" saiu depois de "Cidadão do Mundo" (2003) e antes de "Le temps de la vérité" (2020). Enquanto o primeiro é uma autobiografia com a história da recuperação da Nissan, "Shift" é o relato mais técnico do método de gestão. O terceiro muda de tom e trata das acusações, da prisão e da fuga que colocaram Ghosn nas manchetes anos depois.
Para quem Shift é indicado
Gestores, estudantes de administração e leitores de casos empresariais encontram aqui uma narrativa de dentro de uma reestruturação real, com metas numéricas e prazos definidos. O livro está disponível em inglês e não cobre os acontecimentos posteriores a 2004 — para esses, a referência é a obra lançada em 2020.



