Poucos historiadores brasileiros acompanharam tão de perto a dificuldade do país de transformar autocrítica em mudança quanto Carlos Guilherme Mota. Formado na Universidade de São Paulo, ele fez da história das ideias e das mentalidades um campo de investigação sobre um problema concreto: por que o Brasil acumula diagnósticos sobre si mesmo e segue convivendo com desigualdades que conhece há séculos. Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vencedor do Prêmio Machado de Assis e um dos fundadores do Instituto de Estudos Avançados da universidade, Mota morreu em 20 de maio de 2026, aos 85 anos, deixando mais de 30 livros entre autoria, coautoria e organização.
O nome dele chega até novos leitores por portas diferentes: o clássico Ideologia da cultura brasileira (1933-1974), que atravessou gerações de estudantes; o estudo Nordeste 1817, sobre a Revolução Pernambucana; ou a passagem pela direção da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Em todas elas aparece o mesmo intelectual que tratava pesquisa, sala de aula e debate público como partes de um trabalho só.
Quem foi Carlos Guilherme Mota
Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota nasceu em São Paulo, no bairro do Cambuci, em 20 de fevereiro de 1941. Filho de um professor de História e de uma pianista, estudou no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, na Liberdade, e se formou em História pela USP em 1963.
Entre 1960 e 1963, trabalhou na Biblioteca Municipal Mário de Andrade como auxiliar do diretor, o escritor e crítico de arte Sérgio Milliet. Foram três anos de rotina com acervos e leitores antes de concluir a graduação, no mesmo período em que começava a pesquisar história colonial e pensamento brasileiro.
Formação e a virada para a história das mentalidades
Na USP, Mota fez mestrado em 1967 e doutorado em História Moderna e Contemporânea em 1970, tornando-se livre-docente em 1975. Depois, fez pós-doutorado na Universidade Stanford, nos Estados Unidos. A formação aconteceu em diálogo com nomes como Emília Viotti da Costa e Fernando Novais, que o levaram a trocar a história de fatos isolados pelo estudo das estruturas de poder e dos chamados "explicadores" do Brasil.
Em entrevista ao Jornal da USP, em 2017, ele resumiu o caminho: queria ser filósofo e encontrou na História uma maneira de fazer filosofia. Daí veio o interesse pelas mentalidades, as formas de pensar, sentir e justificar o mundo que uma época produz e repete.
- 1941 — nasce em São Paulo, no Cambuci;
- 1963 — conclui a graduação em História na USP;
- 1970 — defende o doutorado em História Moderna e Contemporânea;
- 1972 — publica Nordeste 1817, um dos seus primeiros grandes estudos;
- 1986 a 1988 — funda e dirige o Instituto de Estudos Avançados da USP;
- 2009 — recebe o título de Professor Emérito da FFLCH-USP;
- 2011 — ganha o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.
O que Carlos Guilherme Mota pesquisou
A obra dele se organiza em torno de três perguntas: como as elites brasileiras interpretaram o país, por que a revolução foi uma promessa sempre adiada e o que a cultura revela sobre o poder. Nordeste 1817: Estruturas e Argumentos, publicado em 1972, recuperou a Revolução Pernambucana e lhe deu dimensão nacional, num estudo que se tornou referência sobre o período colonial.
Em Ideologia da cultura brasileira (1933-1974), Mota percorreu o debate intelectual do século XX, de Gilberto Freyre a Roberto Schwarz, para mostrar como as ideias dominantes ajudaram a mascarar desigualdades sociais. A obra, lançada nos anos 1970, causou polêmica e recebeu de Florestan Fernandes o selo de "obra já clássica".
Outros títulos completam o mapa: A ideia de revolução no Brasil e outras ideias, que examina o "país do futuro" como promessa permanentemente adiada; História do Brasil: uma interpretação, escrita com Adriana Lopez, uma síntese de cinco séculos; e A independência política do Brasil, feita em parceria com Fernando Novais.
IEA, Biblioteca Mindlin e a projeção internacional
Em 1986, durante a gestão do reitor José Goldemberg, Mota liderou o grupo de docentes que fundou o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, um espaço transdisciplinar aberto a pesquisadores de fora da universidade. Foi o primeiro diretor da casa, entre 1986 e 1988.
A circulação internacional acompanhou a carreira: ele integrou o comitê do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Princeton, foi diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e professor visitante nas universidades de Londres, do Texas e no Centro de Estudios Brasileños da Universidade de Salamanca. No Brasil, foi professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, docente da Fundação Getúlio Vargas e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde também se tornou emérito.
Em abril de 2014, assumiu a direção da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na USP. Deixou o cargo meses depois, em protesto contra a crise da universidade, durante a greve de professores e funcionários que paralisou a USP naquele ano. Na mesma faculdade, outros professores construíram leituras de referência sobre a cultura brasileira, como o crítico Alfredo Bosi, também emérito da USP e membro da Academia Brasileira de Letras.
Prêmios, homenagens e legado
O reconhecimento mais visível veio em 2011, com o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Dois anos antes, a FFLCH-USP o havia homenageado com o título de Professor Emérito. A produção seguiu ativa até os últimos anos: em 2022, ano do bicentenário da Independência, seus livros voltaram às livrarias em novas edições.
Mota morreu em 20 de maio de 2026, aos 85 anos. A FFLCH publicou nota lamentando a perda, e o Jornal da USP lembrou a trajetória de quem ajudou a consolidar, no Brasil, o estudo das ideias e das mentalidades como campo de pesquisa. Seus livros continuam sendo reeditados e usados em cursos de História, Ciências Sociais e Letras.
Perguntas frequentes sobre Carlos Guilherme Mota
Carlos Guilherme Mota foi professor da USP?
Sim. Ele se formou, fez mestrado, doutorado e livre-docência na USP e lecionou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2009. Também deu aulas na Unicamp, na Fundação Getúlio Vargas e na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Qual é a obra mais conhecida de Carlos Guilherme Mota?
Ideologia da cultura brasileira (1933-1974), editada pela Editora 34, é o título mais citado, ao lado de Nordeste 1817. Os dois livros atravessaram décadas de reedições e seguem usados em cursos de História e de pensamento social brasileiro.
O que é a história das mentalidades?
É a abordagem que desloca o foco dos grandes acontecimentos e dos grandes personagens para as formas de pensar e sentir de uma época. Foi por esse caminho que Mota investigou as ideologias que sustentaram projetos de poder no Brasil.
Onde encontrar os livros de Carlos Guilherme Mota?
As edições atuais circulam em livrarias e sebos, com títulos pela Editora 34, pela Globo Livros, pela Perspectiva e pelas Edições Sesc. As obras também aparecem em bibliotecas universitárias e em listas de leitura de cursos de graduação e pós-graduação.






